Estupidez em Bloco

Orwell_FB_HelenaMoraisCardosoNesta curta nota de opinião, Nuno Pacheco refere en passant o “acordo ortográfico” mas atira-se, salvo seja, principalmente ao último número de circo linguístico d@s jovens d@ Bloc@ de Esquerd@. 

Pois foi pena, digo eu, não ter o jornalista aproveitado a oportunidade para desancar com método e em grande estilo a escola de “pensamento” em causa, ou seja, aquilo a que Orwell não muito carinhosamente chamava “mind-control tool”: bulir com o género das palavras, atribuindo à força um sexo a todas elas, ou amputá-las de qualquer outra coisinha (consoantes “mudas” e assim), tudo isso faz parte do mesmo arsenal “politicamente correcto”.

A manipulação da linguagem, na acepção de controlo da mente e seu embrutecimento inapelável, não é apenas uma ferramenta, é uma verdadeira arma de destruição maciça.

 

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O sexo das palavras

Nuno Pacheco

22/04/2016 – 07:00

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Se o ridículo matasse, Portugal estava constantemente pejado de cadáveres. Não bastava a tolice do acordo ortográfico, tolice aliás que o Bloco de Esquerda abraça estoicamente, voltámos agora à mais tola e inútil das cruzadas: a da chamada “linguagem inclusiva”; o contrário da linguagem “sexista” e “discriminatória” onde se diz pais, irmãos, avós, primos, etc. Tudo discriminatório, naturalmente. Ora foi com base em tal pressuposto que, num momento de particular inspiração, o BE propôs que o Cartão de Cidadão passe a chamar-se Cartão de Cidadania. Talvez porque Cartão de Cidadão e Cidadã fosse demasiado comprido. Ricardo Araújo Pereira, no Governo Sombra, já caricaturou devidamente esta paranóia correctiva. Disse ele, imaginando um discurso bloquista: “Portugueses e portuguesas, estamos aqui reunidos e reunidas porque estamos todos e todas preocupados e preocupadas com a questão dos desempregados e desempregadas”. Pois. Mas mesmo assim não chegava. Era preciso nuns casos começar com o masculino e noutros com o feminino, para não ofender ninguém. E havia que olhar inquisitorialmente para outras palavras, muitas, milhares, que enchem livros, dicionários e gramáticas, antros de desigualdades com masculinos e femininos por todo o lado, olhem para criança (e não há o crianço?), para membro do partido (haverá a membra?), para polícia ou guarda (deveria haver o polício e o guardo?)… E então a toponímia? Ah, mas aqui imperam as “mulheres”: vejam a rua, a praça, a avenida, a travessa, a calçada, a estrada, a auto-estrada, enquanto para os “homens” sobra o beco, o largo, o passeio, o boqueirão! Querem mesmo acabar com a linguagem “sexista”? Acabem com o Português. Porque ele, que é língua no feminino e idioma no masculino, está impregnado de sexo por tudo quanto é letra. É que até o Bloco soa no masculino. Deveria ser Bloc@? Ou Bloca?

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1 Comment

  1. Isabel Coutinho Monteiro

    O mal parece-me provir de pura ignorância das diferenças entre o Português e o Inglês. Enquanto entre nós sempre se usou “sexo” para distinguir socialmente pessoas ou animais, reservando o uso de “género” para a Gramática, em Inglês nunca fizeram essa distinção. Mas parece que quem traduziu a Resolução das Nações Unidas relativa à igualdade dos sexos (como sempre se usou em Portugal), desconhecia estas subtilezas.

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