Um texto com bolinha vermelha no canto superior esquerdo

Aviso: o texto que se segue contém linguagem imprópria para as pessoas mais sensíveis em geral, não se recomendando a leitura a quem pretenda conservar intacta a sua sanidade mental ou a quem não queira, no mínimo, sentir-se violentamente agredido na sua inteligência por tão obscena prosa. Trata-se, ao contrário do que indicia o título do textículo, de um apelo alucinado ao ódio total e absoluto que, segundo o autor, os povos brasileiros deveriam sentir em relação a Portugal, aos portugueses e à própria História do Brasil. Evidentemente, este aviso prévio não se aplica a quem padece da síndroma vulgarmente designada como “complexo do colonizador”, já que para os portadores desta patologia toda a pancadaria que vier do Brasil para cá é bem-vinda, nunca será demasiado o “castigo” pelos “nossos crimes”, e, portanto, esses tais complexados até acham perfeitamente, coisa mínima, que Portugal “adote” o “brasileiro” como língua oficial “unificada”.
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Este não será o país do ódio!

06 Abril 2016

Marcos Bagno (*)

Nossa ínfima, arcaica e feudal elite dominante sempre tentou vender ao resto da população uma ideologia construída de diversos mitos: o mito da “democracia racial”, o mito da “tolerância” do povo brasileiro, da “convivência harmoniosa” das diferenças, da “alegria de viver” da nossa gente, da “hospitalidade”, da “humildade”, do “milagre linguístico”, porque todo mundo aqui fala “uma só língua” e todo mundo “se entende”, da “índole pacífica” do nosso povo, herdeiro da “assimilação amorosa” praticada pelos portugueses… e por aí vai.
As manifestações contra o governo da presidenta Dilma Rousseff – promovidas por essa mesma elite, insufladas por empresas de comunicação acintosamente fascistas e que apoiaram alegremente o regime militar, estimuladas por membros do poder judiciário descaradamente partidarizados e por parlamentares representantes de um ideário reacionário, intolerante, autoritário e irracional – essas manifestações têm servido ao menos para uma coisa positiva: desmascarar aqueles mitos e expor, nua e crua, a espinha dorsal ideológica da nossa oligarquia dominante.

Quem sai às ruas para pedir fuzilamento sumário de outras pessoas, para exigir a volta da ditadura militar, para se queixar da ascensão social das pessoas pobres, para vociferar contra os direitos trabalhistas estendidos às empregadas domésticas, para sugerir que os negros sejam enviados de volta para a África…

Quem, no supra-sumo do deboche e do descaramento, toma champanhe e come filé mignon na avenida Paulista ou em Copacabana sob o olhar das babás negras uniformizadas…

Quem não tem o mínimo resíduo de escrúpulos para expor semelhantes ideias e praticar tais atos diante das câmeras e ainda se orgulha de divulgá-las nas redes sociais…

Essas pessoas têm ajudado a sepultar aqueles mitos, tão zelosamente construídos pelos nossos mais brilhantes ideólogos, artífices de uma retórica que nunca teve nenhuma base objetiva, empírica, a não ser o desejo das nossas oligarquias de se conservar no topo da cadeia alimentar e controlar, com violência simbólica (além da violência física da prisão arbitrária, do genocídio e da tortura), a ampla maioria da população.

A verdadeira espinha dorsal da formação histórica do Brasil se chama ódio de classe. Somos o resultado de um processo colonial homicida, espoliador, destruidor de povos e culturas, escravizador, marcado pelo racismo, pelo machismo, pela intolerância religiosa, pela avidez insaciável dos donos do poder.

Mas os tecelões dos mitos da história brasileira se esmeraram sempre em negar tudo isso. O arquidelirante e narcísico Gilberto Freyre foi um deles.

Num livro de exaltação da colonização portuguesa, O mundo que o português criou, ele explode em lirismo de mau gosto, em mentira deslavada para dizer que a conquista do Brasil por Portugal se fez “não pela força bruta, não pelo poder militar, não pela superioridade técnica, não pela astúcia econômica, mas pelo amor, o amor fraternal”.

A verborreia mistificadora prossegue: “A marca das terras descobertas e colonizadas por Portugal é esta: não são terras violadas ou conquistadas à força bruta, mas docemente assimiladas. O que lhes dá seu melhor sabor é o fato de resultarem de uma espécie de assimilação amorosa que se reflete em tudo, na paisagem como na face dos homens, no tempero dos alimentos como nos usos e costumes das pessoas”.

Não me engana que eu não gosto!

Essa palhaçada teórica que recebeu o nome de lusotropicalismo é de uma perversidade atroz e, não por acaso, serviu de suporte ideológico para a longuíssima ditadura salazarista, que comandou Portugal com mão de ferro fascista durante quarenta anos.

Que coisa melhor para justificar as práticas seculares de exploração de povos e terras do que uma obra “científica” e, ainda melhor, escrita por um brasileiro, ou seja, por alguém nascido dessa colonização idílica, bondosa e doce, nesse paraíso equatorial que é Pernambuco?

Esses mitos só puderam ser construídos e mantidos durante tanto tempo porque nunca ocorreu na história do Brasil uma verdadeira mudança de classes dominantes.

Nossa independência foi tramada de cima para baixo e proclamada, ora vejam só, por ninguém menos do que um príncipe que, mais cedo ou mais tarde, ia mesmo herdar o império colonial do pai.

Proclamou a independência, instituiu um regime monárquico absolutista e autoritário e acabou voltando a Portugal para defender o trono de Lisboa das ambições do próprio irmão. Mas não tinha ficado independente? Independente meuzôvu.

A proclamação da República também não contou com a participação do povo. Foi um golpe de Estado militar que instituiu uma república de marechais, em que as primeiras eleições para presidente só aconteceram muito tempo depois. E tome ditadura Vargas, e tome ditadura militar…

O Brasil foi o último país a abolir a escravidão. Portugal foi o último país a se desfazer de seu império colonial, depois da queda da ditadura salazarista, em 1974.

Durante mais de trezentos anos, cerca de quatro milhões de seres humanos foram sequestrados de suas terras nativas na África e exportados como escravos. Desses, 40% vieram para o Brasil. Escravidão com “assimilação amorosa”? Nem na menor das luas de Júpiter!

Conforme escreve Carlos Alberto Faraco em sua excelente recém-lançada História sociopolítica da língua portuguesa (Parábola, 2016, p. 316), é preciso criticar essa mitologia do “legado português” como algo intrinsecamente bom, positivo e humanista: “ainda é preciso responder criticamente a pergunta sobre que legado positivo pode ter deixado um Estado fundamentalmente patrimonialista, uma sociedade controlada durante trezentos anos pelo obscurantismo da Inquisição, marcada por grande atraso educacional, científico, tecnológico, econômico e gerido por uma tradição política predominantemente autoritária”.

O colonialismo português foi como qualquer outro colonialismo europeu moderno: explorador, destruidor, escravizador, genocida.

E seu principal legado foi uma sociedade marcada por uma desigualdade social e cultural das maiores do planeta, a brasileira. Todas as demais ex-colônias portuguesas encabeçam a lista dos países mais pobres e atrasados do mundo, porque, depois de quinhentos anos de exploração, tudo o que Portugal deixou ali foi miséria, fome e guerra civil.

E ainda vêm me falar de “lusofonia”! Xispa, xevra, vai ver se estou lá em Trás-os-Montes!

A escravidão deixou profundas marcas na sociedade brasileira, e elas são visíveis até hoje. Um filme como Que horas ela volta?, de Anna Muylaert, causa incredulidade ao ser exibido em outros países, porque sociedades de fato democráticas e avançadas desconhecem o tipo de relação que nós temos com as empregadas domésticas, uma relação que é uma linha ininterrupta que começa quando aportou aqui o primeiro navio negreiro e prossegue até hoje.

Afinal, são apenas 128 anos de abolição (oficial, porque o trabalho escravo ainda persiste no Brasil) contra 388 anos de regime escravocrata, que primeiro explorou a mão de obra indígena e, mais adiante e por muito mais tempo, a mão de obra africana.

O racismo é constitutivo da nossa sociedade: apenas 20% de não brancos têm renda superior a dez salários mínimos; somente 6% deles têm curso superior; mas ao mesmo tempo representam 60,8% da população carcerária brasileira.

A população não branca corresponde a 51% do total de brasileiros, mas apenas 4,3% dos deputados federais se declaram negros.

A escravidão é o ovo de onde surgiu a serpente venenosa do ódio de classe.

E é esse ódio de classe que, escondido durante muito tempo sob o verniz ideológico da suposta “democracia racial” e da falsa “sociedade pacífica”, vem agora à tona, desenfreado, desembestado, virulento, estampado em todas as suas cores, com todas as suas garras e dentes à mostra.

A elite não suporta perder um palmo de seus privilégios, ainda mais se for para cedê-los aos pobres secularmente marginalizados, subordinados, subalternos e, pior, negros e mestiços.

Nem sequer um projeto político reformista, acanhado, comprometido com algumas das forças mais reacionárias da sociedade às quais fez concessões desastrosas, um projeto nada revolucionário como têm sido os sucessivos governos do PT – nem sequer isso nossos senhores feudais escravocratas suportam e admitem.

Um ex-operário nordestino é tudo o que eles mais odeiam. Uma mulher que resiste a todas as pressões e aos golpes mais infames, como resistiu à tortura no regime militar, é algo que eles não podem tolerar.

E toca a disseminar o ódio, o preconceito, o racismo, o machismo, o sexismo, a homofobia, a intolerância religiosa.

E a reduzida classe média alta, formada por gente essencialmente tacanha, mesquinha, analfabeta funcional, desinformada ou, antes, deformada pela mídia reacionária, se deixa engambelar pelo discurso dos herdeiros do colonialismo, dos meios de comunicação comprometidos ideologicamente até a medula com os donos do poder econômico, e sai às ruas para externar, sem vergonha e sem prurido, toda a sua sesquipedal ignorância, agora vestida de palavras de ordem do fascismo mais irracional impossível.

Gente que não tem ideia do que significa passar fome, sofrer abuso sexual, ser agredido moral e fisicamente por ser negro, mulher ou homossexual. Gente burra, enfim, e feliz em sua burrice.

Por tudo isso é que a frase “Este não será o país do ódio”, que tem sido divulgada com insistência nas manifestações em favor da democracia e da legalidade, tem de se impregnar no discurso e na prática cotidiana de todas as pessoas que se recusam a perpetuar os traços mais escabrosos da nossa formação histórica.

Este não será o país do ódio! Será um país de luta pela democracia, de combate a toda forma de discriminação, de resistência aos golpes baixos das classes dominantes – mas não será o país do ódio!

O ódio tortura, estupra, escraviza e mata. E é contra isso que é preciso lutar, porque viver assim não vale a pena!

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(*) Marcos Bagno é escritor, linguista e professor da UnB.

Source: Este não será o país do ódio! – Jornal do Romário

[Imagem copiada do “site” Top Imagens (sem indicação de autoria).]

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