Dia: 9 de Maio, 2016

É tudo tão, tão, tão, mas tão evidente…

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Ministro cabo-verdiano diz que decisões sobre Acordo Ortográfico devem ter base científica

9/5/2016, 15:46

O ministro da Cultura e Indústrias Criativas de Cabo Verde, Abraão Vicente, defendeu que qualquer decisão relativa ao Acordo Ortográfico deve ter base científica e não resultar de opiniões de políticos “transitoriamente nos cargos”.

O ministro da Cultura e Indústrias Criativas de Cabo Verde, Abraão Vicente, defendeu que qualquer decisão relativa ao Acordo Ortográfico deve ter base científica e não resultar de opiniões de políticos “transitoriamente nos cargos”. Questionado pela agência Lusa sobre o debate suscitado nos últimos dias sobre uma eventual reavaliação do Acordo Ortográfico, Abraão Vicente considerou “improfícuo” fazer esse debate na imprensa.

Sustentou, por outro lado, que são as comissões nacionais de línguas, as universidades e os investigadores que “terão que dar pistas claras ao poder político para tomar decisões”.

“Neste momento, pelo que percebi, há questionamentos dos países maiores. Cabo Verde, como parte desse bolo maior, não se vai posicionar isoladamente. Vamos esperar para conjuntamente encontrarmos uma solução que seja científica e que seja pragmática para não colocarmos em causa o sistema educativo, da própria imprensa e pedagógico nacional”, disse o ministro cabo-verdiano.

Para Abraão Vicente, “não pode ser uma decisão leviana de opiniões de políticos que estão transitoriamente nos cargos”.

O ministro, que falava aos jornalistas à margem da XI reunião Ordinária do Conselho Científico do Instituto Internacional de Língua Portuguesa (IILP), que hoje começou na cidade da Praia, defendeu a necessidade de aguardar as recomendações da Comissão Científica para perceber qual será a direcção.

Abraão Vicente, que integra o executivo do Movimento para a Democracia (MpD) há duas semanas no poder, participou na abertura da reunião “para dar um sinal político” de uma mudança de atitude do Governo cabo-verdiano perante o IILP e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Esta foi a primeira vez que um membro do Governo cabo-verdiano participou numa reunião ordinária do IILP, que tem sede na cidade da Praia.

“Traçamos como fundamental o fortalecimento da nossa participação nas instituições internacionais. No caso do IILP acho que é fundamental Cabo Verde participar porque o Português é um grande património nacional”, disse.

Abraão Vicente adiantou que a Comissão Nacional de Línguas cabo-verdiana está desactivada e manifestou a intenção de criar as condições para a sua reactivação.

“Penso que a Comissão Nacional de Línguas cabo-verdiana reactivada deve fornecer ao ministro e ao ministério indicações claras para dar orientações políticas ao Governo” também na questão do Acordo Ortográfico, disse.

O debate em torno do Acordo Ortográfico surgiu depois de o Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, ter dito, durante a sua deslocação a Moçambique, na semana passada, que, se países como Moçambique e Angola decidissem não ratificar o Acordo Ortográfico, isso será uma oportunidade para repensar a matéria.

Disse ainda que o cidadão Marcelo Rebelo de Sousa não usa a nova grafia, mas que “o Presidente da República, nos documentos oficiais, tem de seguir o Acordo Ortográfico”.

O Acordo Ortográfico de 1990 tem sido adoptado em ritmos diferentes nos Estados que integram a CPLP, estando à frente desse processo Portugal e Brasil.

O acordo já foi ratificado pelos parlamentos nacionais do Brasil, Portugal, Timor-Leste, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde.

Em Moçambique, a norma aguarda ratificação pelo parlamento e em Angola não foi regulamentado a nível governamental.

O acordo já tem o processo de adopção finalizado em Portugal, onde entrou em vigor a 13 de Maio de 2015, apesar da oposição de grupos da sociedade civil.

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«Acordar mal» [Luciano Amaral, “CM”]

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Acordar mal

Luciano Amaral

09.05.2016 00:30
O problema principal do acordo ortográfico é ser um objecto desnecessário.

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É curioso que a posição política mais válida do novo Presidente da República tenha sido até agora aquela em que largou o mantra do consenso: sobre o acordo ortográfico, o Presidente, mesmo não tendo sido muito afirmativo, reabriu a questão, quando afirmou que o facto de Angola e Moçambique não o terem ratificado abria uma oportunidade para “repensar a matéria”.

Já se disse quase tudo sobre “a matéria”, mas vale a pena regressar a alguns pontos. O problema principal do acordo é o de ser um objecto desnecessário. Antes dele, a escrita do português nos vários países que o têm como língua era praticamente igual, excepto por algumas diferenças de que nunca ninguém se queixou e eram tidas por exemplos engraçados de cor local. Depois dele, a escrita aproximou-se entre os países mas só marginalmente: antes, a semelhança de palavras entre Portugal e o Brasil era de 96%; depois, passou a ser de 98%.

E este é um segundo problema do acordo: é que, de facto, não unifica e, mais, confunde. As diferenças eram mínimas e mínimas continuam, mas abriu-se a porta a um sem-número de confusões (duplas grafias, palavras que eram iguais nos vários países e agora são diferentes ou verdadeiros absurdos vocabulares). A grande diferença entre os países não está na escrita mas no vocabulário, isto é, nas palavras que se escrevem da mesma maneira mas significam coisas diferentes. Onde chegamos a um terceiro ponto. Com este acordo, Portugal continua na senda inaugurada em 1911 de substituir a escrita “etimológica” pela “fonética” (peço desculpa pelo jargão). O efeito é afastar ainda mais o português das grande línguas europeias (nas quais se continua a escrever “pharmacy” ou “photographie”). A língua mais poderosa do mundo, o inglês, assenta no princípio contrário e o seu único acordo é simples: cada país escreve como quer. Devia ser esse o nosso acordo também.

[Transcrição de:

http://www.cmjornal.xl.pt/opiniao/colunistas/luciano_amaral/detalhe/acordar_mal.html.

Adicionei destaques e “links”.]

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Entrevista – “Está instalado o caos ortográfico” [DN]

Um dos grandes críticos do Acordo, António Fernando Nabais, diz que as declarações do Presidente são um sinal de esperança

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 As recentes dúvidas suscitadas pelo Presidente da República são um sinal de esperança para os opositores do Acordo?

Sim. Penso que, para quem é contra o Acordo Ortográfico, tudo é um sinal de esperança e estas declarações ainda mais, claro está.

O governo parece ter afastado qualquer hipótese de reabrir este dossiê…

Calculo que sim, até porque isso implicaria de certo modo perder a face. Para os partidos que aprovaram o acordo, isto de voltar atrás é uma questão política. Se não encontrarem uma forma airosa de o fazer, será difícil. Exactamente porque está transformado numa questão política e não naquilo que deveria ser: uma questão linguística. E educativa, já agora.

A propósito da questão educativa, sendo professor de Português tenho de lhe fazer esta pergunta: há 500 mil crianças que só conhecem esta ortografia. Não será complexo pedir-lhes que passem a incorporar na escrita corpos estranhos para elas, como algumas consoantes mudas?

Isto não se resolve nem explica em duas penadas, mas as inconsistências do Acordo são tão grandes que há pessoas, inclusivamente com formação superior, que não têm sempre a noção de quando a consoante é muda ou não. Neste momento está instalado um caos ortográfico e este caos terá reflexos na escrita das crianças. Vários professores têm-se apercebido de erros ortográficos novos e de alterações na pronunciação de palavras em que algumas consoantes mudas foram suprimidas. Que não será uma questão fácil, não será. Mas não seria a primeira vez em que imperaria o bom senso e se recuaria em questões estruturais. Será complicado, mas é complicadíssimo continuar tudo como está.

O professor Malaca Casteleiro diz que este é um acordo para as novas gerações. E que quem aprendeu a escrever pela antiga grafia pode continuar a fazê-lo sem problemas…

Nós podemos sempre escrever com a ortografia que quisermos em qualquer texto pessoal. A questão é o mal que esta ortografia causa às pessoas que são obrigadas a usá-la. Os alunos do ensino básico e secundário e os professores são obrigados a usar, não podem escolher. O que o professor Malaca Casteleiro está a dizer é que há uns privilegiados que podem escolher e outros que são obrigados a usar a ortografia que o professor Malaca Casteleiro quis impor ao espaço lusófono.

Não é injusto atribuir o Acordo a um desígnio individual? Afinal, houve um amplo debate entre os países lusófonos…

O problema continua a estar sempre também na aplicação do próprio Acordo. Esta ideia de que veio criar uma uniformização ortográfica entre Portugal e Brasil é falsa. Continua a haver diferenças. Aliás, conseguiu-se o milagre de criar novas palavras nos dois lados, como receção cá e recepção lá. Não só não se atingiu o objectivo como o que aconteceu é pernicioso.

[“Diário de Notícias, 09.05.16. Corrigi a ortografia. Adicionei “links” .]

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Intoxicação acordista “a contrario”

TVI24_inqueritoacordistaLocalização deste “inquérito” acordista: A sua opinião > TVI24

 

Estaria disposto a: verbo no condicional e dupla condição remetendo para uma “ideia” de dificuldade, denotando incómodo por antecipação.

voltar atrás: é o contrário de “seguir em frente”, claro, o que “implica” reaccionarismo por oposição a “progressismo”.

Estaria disposto a voltar atrás: carga negativa, juízo valorativo implícito, insinuação de retrocesso quanto a um (putativo) facto consumado.

no uso do Acordo Ortográfico: por exclusão de partes, toda a gente “usa” o AO90, nem se coloca a questão de alguém não o usar.

Estaria disposto a voltar atrás no uso do Acordo Ortográfico? : isto não é uma pergunta, é uma série de afirmações com um ponto de interrogação no fim, a fingir que se trata de uma pergunta. Responder “sim” ou “não” vem a dar rigorosamente no mesmo: o respondente aceita implicitamente, no mínimo, que usa o AO e que este significa progresso.

Sim,: a “resposta” positiva implica que o respondente usa o AO, que este significa progresso, que toda a gente o usa, que nem se coloca a questão de alguém não o usar, que é um facto consumado e que “voltar atrás” seria um retrocesso ao qual o respondente se disporia apenas e só porque…

ainda não me habituei: o advérbio (“ainda“, o que significa “até agora”) implica que será apenas uma questão de tempo, nada mais, e mesmo isso deve-se somente à “incapacidade” (estupidez, reaccionarismo) do respondente, que não se “habituou” porque é burro, velho, teimoso.

a usar as novas regras: de novo, a forma verbal implica “presente contínuo”, ou seja, o respondente “está a usar” o AO90 (porque “toda a gente o usa e nem se coloca a questão de alguém não o usar”); na expressão “novas regras” há uma carga “progressista” em “novas“, por contraposição à carga negativa do respectivo antónimo (“velhas”), e há um substantivo plural valorativo (positivo), já que qualquer pessoa normal sabe que o AO90 não tem regras algumas, é apenas papel de embrulho.

Sim, ainda não me habituei a usar as novas regras: “optar” por esta “resposta” ao “inquérito” de “opinião” equivale a aceitar implicitamente todas as “ideias” impostas a todos os respondentes por quem criou o “inquérito” e implica a colaboração explícita de quem “responder” para com os objectivos propagandísticos e de intoxicação da opinião pública promovidos pelos agentes acordistas.

Não, as crianças já aprendem o novo Português há 5 anos: este “não”, como se vê, é praticamente o mesmo que “sim”, visto que apenas serve para complementar ideologicamente a resposta positiva. Evidentemente, a escolha de “as crianças” também não é arbitrária (apelo emocional) e a do verbo (“aprendem“) não é casual (como se fosse possível aprender/compreender o absurdo). Sobre “o novo Português” nem digo nada, pois tão abjectamente evidente é a terminologia propagandística e porque já estou tão enojado com isto que acho até melhor ficar por aqui.

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