Dia: 10 de Maio, 2016

Aulinhas de contra-informação

«Marcelo em Moçambique falou que enquanto cidadão não respeita o Acordo Ortográfico»

Esta é a legenda da fotografia que “abrilhanta” o artigo de fundo do “jornali” de hoje. Como se vê, está em perfeito “brasileiro”. Se estivesse em Português, aquele “falou que” seria — evidentemente — “disse que”.

Portanto, com semelhante entrada, não se poderia esperar que o artigo propriamente dito fosse grande coisa. Confirma-se, pois claro, o que temos aqui não é jornalismo, é pura propaganda  acordista:  não são “países africanos” que “atacam o Presidente”, quem ataca o Presidente é quem redigiu este texto; a “reacção mais dura” não “veio de Abraão Vicente”, a reacção mais dura veio deste “jornali”.

Note-se, por exemplo, a muito mal disfarçada irritação que denota a gradação dos “factos”: de “voltar à estaca zero num processo negocial” (inexistente) “que vem do século passado” (que horror!), passa à enumeração dos (dois!) casos de “ataques” ao Presidente e, por fim, já em desespero de causa, agarra-se à tese da “revisão” do AO90. Para fechar, vai ainda repescar uma frase de um assessor do Presidente, designando-a por “evidência”… a ver se cola.

Mas que pepineira, valha-me Deus!

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Acordo ortográfico. Países africanos atacam Marcelo e não querem reabrir processo

Ana Sá Lopes

10/05/2016 11:58

Marcelo abriu uma caixa de Pandora ao falar em reabrir o debate sobre o Acordo Ortográfico. E já sofreu críticas externas

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Ao abrir a porta à revisão do Acordo Ortográfico, na visita oficial a Moçambique, Marcelo suscitou uma vaga de críticas entre a diplomacia dos países africanos de língua oficial portuguesa. A declaração do Presidente da República foi vista como um sinal de que Portugal estaria disponível para voltar à estaca zero num processo negocial que vem do século passado.

A reacção mais dura veio do recém-empossado ministro da Cultura de Cabo Verde, Abraão Vicente, que afirmou que rever o Acordo Ortográfico “não pode ser uma decisão leviana de opiniões de políticos que estão transitoriamente nos cargos”.

E assumiu claramente que a mensagem que passou para Cabo Verde foi a de Portugal a questionar o Acordo: “Neste momento, pelo que percebi, há questionamentos dos países maiores. Cabo Verde, como parte desse bolo maior, não se vai posicionar isoladamente. Vamos esperar para conjuntamente encontrarmos uma solução que seja científica e que seja pragmática para não colocarmos em causa o sistema educativo, da própria imprensa e pedagógico nacional”. Cabo Verde já ratificou o Acordo Ortográfico, assim como Portugal, Brasil, Guiné-Bissau, São Tomé e Timor-Leste. Falta a ratificação de Angola e Moçambique e foi com base nessas duas “faltas” que Marcelo afirmou a ideia da possibilidade da reabertura do processo.

Também ontem o secretário-executivo da CPLP criticou indirectamente o Presidente da República de Portugal, por estar a questionar o assunto. “Não há retorno”, disse o secretário-executivo da CPLP.

“O Acordo Ortográfico está a seguir o seu caminho. Os países que ainda não ratificaram estão no processo de ratificação. Penso que é um debate desnecessário neste momento. As pessoas são livres de falar sobre isso, mas não há nenhuma controvérsia em relação ao Acordo Ortográfico”, disse o secretário executivo da CPLP.

“Moçambique e Angola estão a preparar-se para ratificar. Não vejo qual é o problema. Não há retorno”. Murade Murargy, o secretário executivo da CPLP fez estas declarações à margem de uma reunião do Conselho Científico do Instituto Internacional de Língua Portuguesa que está a decorrer na cidade da Praia, Cabo Verde.

Revisão, só se for necessário. “Se for preciso fazer uma revisão vai-se fazer, mas não porque o Acordo esteja mal elaborado. Se for necessário, se há certos ajustamentos que têm que ser feitos, serão feitos no momento próprio e dentro do contexto em que se verificar essa necessidade”, disse o secretário-executivo.

Também Angola, através do ministro dos Exteriores, Georges Chikoti, veio desdramatizar a existência de algum problema no seu país com o Acordo Ortográfico. “Angola e Moçambique têm uma posição comum, houve algum progresso”, disse Chikoti, em Moçambique, depois de uma reunião com o MNE moçambicano. “As negociações que têm sido feitas indicam que vão incluir-se outros aspectos, uma outra dimensão cultural e histórica dos nossos países, mas também não há adversidade sobre esse aspecto”, acrescentou o ministros moçambicano dos Estrangeiros.

A polémica foi despoletada pelo Presidente da República durante a visita oficial a Moçambique. Em entrevista à RTP, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que se Angola e Moçambique decidirem não ratificar o Acordo, haveria “uma oportunidade para repensar essa matéria”. Nessa entrevista, Marcelo afirmou que enquanto Presidente da República “nos documentos oficiais, tem de seguir o Acordo Ortográfico”. “Mas o cidadão Marcelo Rebelo de Sousa escrevia tal como escrevem os moçambicanos, que não é de acordo com o Acordo Ortográfico”, proclamou, evidenciando a sua oposição ao Acordo.

O governo respondeu, através do ministro dos Negócios Estrangeiros, que o assunto está encerrado. E é o governo que tem competências na matéria. O Acordo Ortográfico é, disse Augusto Santos Silva, “uma convenção internacional adoptada pelos países da CPLP” que “já foi ratificada” e já se encontra “em vigor em Portugal e em mais três países” – Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. “Como ministro dos Negócios Estrangeiros, não preciso de acrescentar mais nada nem devo”, disse.

Em declarações ao i na semana passada, Pedro Mexia, assessor do Presidente para a cultura e adversário público do Acordo Ortográfico, lembrou uma evidência: a responsabilidade de inverter ou não o Acordo Ortográfico não é do Presidente da República.

ana.lopes@ionline.pt

[Transcrição de artigo do jornal i de 10.05.16. Corrigi o acordês do texto. Destaques e sublinhados meus.]

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A minha última grande “gaffe”: hoje comprei o “i”

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Mais uma incrível imbecilidade, mais uma jornalista que se acha no direito de dar “lições” (de educação, de diplomacia e de acordês) ao Presidente da República de Portugal. Isto é mesmo inacreditável. Comprei o pasquim por causa das parangonas na capa, meu rico eurito, o acordista “jornali” (será alentejano?) nunca mais.

ionline_logoA primeira grande gafe diplomática de Marcelo

10/05/2016

Ana Sá Lopes

Política
ana.lopes@ionline.pt

Marcelo é irresistível a dançar a marrabenta, a beijar pessoas, a tirar selfies com todos os habitantes do planeta em geral e com os de Moçambique em particular. Mas a viagem a Moçambique foi um marco da Presidência de Marcelo: mostrou a todo o mundo, particularmente ao mundo lusófono, que em funções de Estado Marcelo continua a ser Marcelo.

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Estando o povo português apaixonado pelo seu Presidente da República (afinal, isso já não acontecia há muito tempo e o estado de paixão tem aquela deliciosa sedução irracional), é provável que não tenha dado por isso nem tenha atribuído especial relevância ao assunto.

Mas vista de Cabo Verde – um país com quem Marcelo até tem especiais afinidades -, a declaração de Marcelo de que Portugal estaria disponível para reabrir o acordo ortográfico caiu como uma bomba. Marcelo esqueceu-se de que estava a representar o Estado português e provavelmente falou como “o cidadão Marcelo”, que continua sem saber escrever com o acordo ortográfico, como fez questão de afirmar a partir de Moçambique. O problema é que quando o Presidente da República fala, é o Estado português que está a falar, coisa de que Marcelo não se deu conta – e que era, como toda a gente sabe, um dos maiores riscos apontados pelos opositores da sua candidatura à Presidência.

A visita a Moçambique foi um sucesso em termos de espectáculo televisivo e um fracasso diplomático rotundo. Um Presidente não se pode imiscuir num assunto monstruoso, do ponto de vista da política internacional, como o acordo ortográfico com a ligeireza com que Marcelo o fez – mais a mais, não tendo qualquer competência para a matéria, que pertence ao governo. O ministro dos Negócios Estrangeiros veio delicadamente desmentir o Presidente. Mas na CPLP e num outro governo dos PALOP, Cabo Verde, Marcelo foi ridicularizado. Um Presidente tem de ser um diplomata e não um beijoqueiro-dançarino. Uma coisa pode não excluir as outras, mas desta vez não foi o caso.

[Transcrição de: A primeira grande gafe diplomática de Marcelo, jornal “i”, 10.05.16. Destaques e “links” meus.]

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«O Acordo e a linguiça» [João Gonçalves, JN]

trema

jn_default_imgO Acordo e a linguiça

JOÃO GONÇALVES

09 Maio 2016 às 00:04

No início de 2012, quando chegou à presidência do Centro Cultural de Belém, Vasco Graça Moura mandou retirar de todos os computadores o software que “corrigia” os textos em consonância com o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, o AO90. Entretanto já todos os departamentos da Administração Pública, praticamente todos os órgãos de Comunicação Social e os principais empórios editoriais tinham adoptado o AO90. Sobretudo aqueles que comercializam literatura escolar. Paulo Franchetti, no outro lado do Atlântico, refere o AO90 como “aleijão” e já o vi denotado aqui e acolá em “aborto”. O “Jornal de Angola” é mais sóbrio: “se o étimo latino impõe uma grafia, não é aceitável que através de um qualquer acordo ela seja simplesmente ignorada”. O subscritor político em nome do Governo português de então, Santana Lopes, afirmou na semana passada que a língua não é uma “relíquia” pelo que a “abrasileirização” seria quase uma fatalidade. Para mais, acrescentou, há crianças que não conhecem outra ortografia a não ser a imposta pelo AO90 pelo que seria um disparate ir agora privá-las desta “ferramenta”. O comentário veio a propósito de o presidente da República ter relançado o debate público em torno de um acordo internacional ilegal, circunstância pelos vistos desprezada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros: o AO90 não vigora nas diversas ordens jurídico-políticas da chamada “lusofonia” pela prosaica razão de que nem todas o ratificaram. Em Portugal, talvez pela incorrigível mania da “originalidade” – e, como Miguel Sousa Tavares não se cansa de recordar, para justificar tanta académica ida e volta ao Brasil – o AO90 oficializou-se sem ser aplicado genericamente pela população escrevente, seja em privado seja por dever de ofício. Introduzimos um “terceiro género ortográfico único” que o endémico analfabetismo funcional reproduz erradamente em rodapés e títulos de jornais. Até mesmo no Brasil apenas este ano se conclui o período transitório e depois logo se vê. É que o Brasil deve ter mais para se coçar do que com coisas como “facultatividades”, “cláusulas de exceção” ou duplas e triplas grafias. João Ubaldo Ribeiro, aliás, não poupou o “acordês” e o negócio subjacente: “a reforma ortográfica não enriquece em nada o idioma, mas alguém enriquecerá com ela”. A ilógica soviética de tentar legislar o português deve ser contrariada para evitar, escreve Ubaldo, “começar a falar linguiça com o i mais forte que o u”.

[Source: O Acordo e a linguiça, JN, 09.05.16. Acrescentei “links”. Imagem: Olé Idiomas]

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Asco

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Isto é jornalismo? Esta “aula” de acordismo, este asqueroso panfleto acordista, esta nojenta lavadura mental, este delirante espectáculo de pirotecnia “linguística”, este lixo em letra de forma é jornalismo? Que espécie de jornalista se presta a tão vergonhoso papel? Quem será ao certo o pobre diabo que de forma tão miserável serve a seu sinistro patrão — Francisco Pinto Balsemão, O Padrinho do AO90 — semelhante abjecção? Com que direito um semanário dito “de referência” arrasta no (e para o) lodo mais repugnante os nomes e as reputações de pessoas de bem? “Erros”???

Mas quem é que esta gentalha julga que nós somos? Atrasados mentais? Imbecis?

Mas o que diabo vem a ser isto, raios?!

expresso-logoOs ministros que não são fãs do acordo ortográfico

09.05.2016 às 16h14

As apresentações oficiais dos ministros da Ciência, da Tecnologia e Ensino Superior e do secretário de Estado da Cultura são as que têm mais erros relacionados com as novas regras do acordo ortográfico. O Expresso analisou as biografias disponíveis no site oficial do Governo. Este foi o resultado

José Pedro Mozos

Três ministros apresentam-se aos cidadãos com erros de português relacionados com as novas regras do acordo ortográfico (AO), a que o Estado português aderiu. Marcelo Rebelo de Sousa confessou que o cidadão-Marcelo escreve segundo as antigas regras e que o Presidente Rebelo de Sousa cumpre –porque tem de ser – o novo AO. O Expresso foi procurar saber mais e inspecionou (só com um ‘c’) as biografias do primeiro-ministro, dos 17 ministros e dos 41 secretários de Estado que estão disponíveis no site oficial do Governo. É certo que a maioria cumpre as regras do AO. Mas nem todos o fazem. Ora veja:

O ministro da Ciência, da Tecnologia e do Ensino Superior, Manuel Heitor, foi o que mais erros cometeu: foram encontrados quatro erros na biografia oficial. O professor catedrático do Instituto Superior Técnico de Lisboa coordena um programa de doutoramento nesta instituição em “Engenharia de Concepção (deveria ser sem ‘p’,) e Sistemas Avançados de Manufactura (o ‘c’ está a mais)”. Na primeira palavra existe facultatividade. Ou seja, o redator pode escrever com ou sem ‘p’, conforme considere adequado. Porém, a forma aconselhada pelo Instituto de Linguista Teórica e Computacional (ILTEC) é que seja sem ‘p’.

Mas estes dois erros não são os únicos do ministro. Se continuarmos a leitura da pequena biografia ficamos a saber que Manuel Heitor foi professor visitante em Harvard “durante o ano lectivo 2011/12”. Curiosamente, nesse ano letivo (assim, sim) o acordo ortográfico já estava em vigor há dois anos. O currículo do ministro segue e os erros também. Manuel Heitor foi cofundador de uma rede de aprendiazagem internacional e coeditor de vários livros – e não “co-fundador” e “co-editor”, como se lê no site oficial do Governo. Não se pode dizer que o ministro optou por escrever a biografia seguindo as antigas regras, já que encontramos palavras escritas de acordo com as regras do AO90, como é o caso da palavra “ativamente”.

Mas Manuel Heitor não foi o único ministro a enganar-se. Na biografia de João Pedro Matos Fernades, também ele um antigo professor, foi possível encontrar um erro. O ministro do Ambiente “leccionou – há aqui uma letra a mais – como convidado em mestrados nas Universidades do Porto, Técnica de Lisboa e de Nápoles”. Mas também não deve ter sido uma opção não respeitar o AO: em primeiro lugar porque oficialmente está obrigado a cumprir com as normas do acordo e, em segundo lugar, porque foram detetadas palavras escritas de acordo com as novas regras – como é o caso dos meses do ano, que estão escritos com a primeira letra em minúscula.

Já o ministro da Economia ainda não escreve outubro com minúscula, como manda a Base XIX do AO90. Na biografia de Caldeira Cabral, o décimo mês do ano ainda está escrito com a letra inicial em maiúscula.

Para além destes três ministros, há ainda secretários de Estado que não parecem totalmente esclarecidos quanto às regras do novo acordo ortográfico. Por exemplo, na biografia do secretário de Estado da Cultura Miguel Honrado foram detetados três erros: “actividade” em vez de atividade; “projectos” com um ‘c’ a mais; “director” no lugar de diretor. O recém-chegado secretário de estado da Cultura é um dos que mais erros comete. Este conjunto de erros viola a Base IV, n.º 1, al. b), do AO90.

Depois de contactado pelo Expresso, o Ministério da Cultura informou já ter “pedido a correção dos termos para a grafia corrente”.

Outros cinco secretários de Estado falharam ao escrever os meses do ano com a inicial em maiúscula e não em minúscula, como estipula o polémico acordo ortográfico. Trata-se do erro mais comum.

Para além destes erros, dois ministros e quatro secretários de Estado parecem preferir a antiga grafia à nova quando escrevem palavras em que a dupla grafia é admitida.

O acordo ortográfico voltou a ser um tema de debate nas últimas semanas. Tudo por causa de Marcelo Rebelo de Sousa, que reabriu a discussão em torno das novas regras. Na visita de Estado que fez a Moçambique na semana passada, o Presidente da República admitiu a possibilidade de Portugal poder repensar a matéria caso Angola e Moçambique decidam não ratificar o documento. É que estes dois países são os únicos membros da CPLP que ainda não decidiram se aprovam ou não o acordo ortográfico. Marcelo defendeu que se os Parlamentos destes dois países disserem não ao acordo seria “uma oportunidade para repensar essa matéria”. E foi mais longe, admitindo que enquanto cidadão escreve de acordo com a antiga grafia, embora tenha de respeitar o acordo ortográfico como Presidente da República.

O Governo, porém, pela voz do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, já respondeu que se trata de um tratado internacional em vigor e que será respeitado pelo Estado. A deputada socialista Edite Estrela criticou abertamente Marcelo, lembrando que as crianças do 2.º ciclo de escolaridade não conhecem outra grafia que não seja a do AO e que, por isso, não faz sentido andar para trás.

Atualizado com informação do Ministério da Cultura

Source: Expresso | Os ministros que não são fãs do acordo ortográfico

Image By Gustave Doré – [From the Title Page:] Dante’s Inferno translated by The Rev. Henry Francis Cary, MA from the original of Dante Alighieri and illustrated with the designs of M. Gustave Doré New Edition With Critical and Explanatory notes, Life of Dante, and Chronology Cassell, Petter, Galpin & Co. New York, London and Paris The book was printed c. 1890 in America., Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=5710975

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