Dia: 11 de Maio, 2016

«Nove argumentos contra o Acordo Ortográfico de 1990» [“Expresso”, 11.05.16]

ruadoegitoOeiras11
Em 24 de Junho de 2015 publiquei aqui um texto, que recebi da autora, com o título “9 argumentos contra o AO90″. O semanário “Expresso” publica hoje um artigo da mesma autora com título e conteúdo idênticos, o qual me parece não conter alterações significativas em relação à versão já aqui publicada, à excepção da parte final (“Para terminar”). É, portanto, apenas esta parte final o que seguidamente transcrevo.

Com uma nota de discordância, porém. Ao contrário do que sucedeu na versão original, cujo conteúdo subscrevo na íntegra, este acrescento traz um desfecho que não apenas não subscrevo de forma alguma como rejeito terminantemente: «Mesmo este Acordo, que ainda não está instaurado em todo o mundo lusófono, é passível de emendas fundamentais».

“Emendas”? Não, de todo. O AO90 não é passível de coisa alguma além de ser atirado para o caixote do lixo da História. O “acordo ortográfico” não é um acordo e não é ortográfico. Não tem emenda.

expresso-logo

Nove argumentos contra o Acordo Ortográfico de 1990

11.05.2016 às 8h00
Manuela Torres *

[]

Para terminar:

Outra coisa ainda deveria ser tida em conta: ao renunciar de modo cego às marcas históricas, este “acordo” insere-se num movimento global de apagamento da memória e de negação da História. Terrível movimento, que cada dia se torna mais evidente e que deixará sem raízes, sem passado, uma série de povos, se não a maioria. E que já está deixando o mundo à deriva, presa dócil de todas as tiranias. Admiramo-nos do modo como estão sendo destruídos monumentos, museus, cidades, inúmeras etnias e línguas. Este desrespeito, este crime que hoje nos parece abrupto, começou devagar, por pequenas coisas, aparentemente insignificantes.

É inelutável? Será irreversível? Há quem diga que é demasiado tarde para recuar. Mas talvez ainda se possa fazer qualquer coisa. Mesmo este Acordo, que ainda não está instaurado em todo o mundo lusófono, é passível de emendas fundamentais.

* docente da Faculdade de Letras de Lisboa

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Galiza: ontem e hoje de um genocídio linguístico – I [por Bento S. Tápia]

Viana do Bolo - desde o mirador de San Cibrao. Galiza.jpg

Galiza: ontem e hoje de um genocídio linguístico

Bento Seivane Tápia

 

À memória de Luís Pouparinha Mourelhe, que nos deixou
demasiado cedo e que também amava e defendia a Língua
e a Cultura da sua terra natal, a Galiza.

 

Introdução

Um idioma não é simplesmente um mero instrumento utilitário para a comunicação entre os indivíduos de um povo dado e num momento concreto; é o alicerce e veículo essencial do seu pensamento, criado e forjado através dos séculos por esse mesmo povo, que progressivamente o foi enriquecendo ao trasladar às palavras as suas emoções e sentimentos, alegrias e tristezas… além de todo o acervo de conhecimentos científicos, racionais ou intuitivos sobre o Mundo, a Vida, a Natureza, a possibilidade de existência de uma dimensão transcendental do Ser Humano, etc. E portanto, um grande e excelso monumento cuja construção se fez durante muitas gerações e cuja própria dinâmica exige continuamente um labor de edificação: consiste este em acrescentar ao monumento, sem destruir nem os seus cimentes nem a sua personalidade, todo o património léxico necessário para reflectir as novas realidades emanadas das da evolução dinâmica da sociedade, as quais demandam um esforço de criação contínua. Só quando tal criação se produz sem interferências alheias tem uma língua dada garantias de prosperidade e futuro. Em troca, se um idioma não se revivifica regularmente, se não evoluciona orgânica e naturalmente crescendo e anovando-se com o decorrer dos tempos, então esse idioma fossiliza-se, definha e perde vigor, o seu destino será o de um organismo enfermo, cujo enfraquecimento progressivo só pode conduzi-lo à perda de defesas face a outros organismos (línguas) mais fortes e. finalmente, à sua morte e substituição por uma língua diferente, mais forte e poderosa. Sobejam exemplos ao longo dos tempos, alguns bem recentes e dentro do âmbito da Latinidade, como o dalmático, cujo último falante, António Udina, morreu em 1908.

Sob este ponto de vista, o valor de um idioma não depende do seu número quantitativo de falantes: por cima dessa visão utilitária, que pretende traduzir a realidade a termos matematizáveis e mensuráveis, deve prevalecer uma outra: o valor espiritual, cultural e histórico das línguas como tesouro insubstituível de um povo cuja perda é irreversível e irrecuperável. Não falamos aqui de “povo” no senso moderno, superficial, demagógico e pseudo-democrático da palavra: aquele que o pretende fazer sinónimo de massa inerte, facilmente manipulável, sobretudo para desconsciencializá-lo e despossuí-lo das suas tradições, raízes, cultura e sistema de valores. Essa é a praxe corrente nos imperialismos modernos de feição e aparência  democráticas, muito mais terríveis na sua subtilidade agressiva e destrutora dos povos  culturas que os imperialismos do passado: estes, pelo menos, não tinham nas suas  mãos os meios agressores e de controlo da mente humana que o progresso cientifico  e tecnológico actual fornece, conducentes à uniformização e homogeneização  crescentes dos valores, condutas e sistemas de pensamento de todos os povos do  mundo.

Pensamos que só tendo em mente estas premissas poderemos compreender melhor as dimensões do problema linguístico e cultural da Galiza, berço da nação e da pátria portuguesas; esta Terra-Mãe está hoje prostituída e humilhada por um poder alheio que tem a cumplicidade activa do poder autonómico galego, mero esbirro dos desígnios do primeiro. Até tal ponto é dramática a situação que se continuarem as coisas assim, como iremos vendo neste ensaio, talvez só restem duas ou três gerações de vida à nossa Língua e Cultura ali onde elas nasceram. A tal situação não e estranha a inconsciente e passiva colaboração de muitos galegos, ignorantes da história do seu povo e do valor do seu idioma, mercê dos efeitos de um ensino publico cujo propósito tem sido sempre perpetuar tal desconhecimento. Lembremos aqui aquelas palavras de Castelão no seu livro “Sempre en Galiza”: “Os galegos, tão afeitos a serem educados na ignorância de si próprios”. E quem ignora corre o risco de desprezar o verdadeiro e profundo valor de aquilo que ignora; e essa tem sido a atitude inculcada geração após geração em todos os galegos no que diz respeito aos nossos sinais de identidade, visando a nossa absorção e e desaparecimento como povo.

A tarefa de reparar os desperfeitos que tantos séculos de abandono tem produzido na identidade e no Ser mais profundo da Galiza é gigantesca e ao mesmo tempo urgente: a situação da nossa Língua comum é cada dia mais preocupante, e do que agora se faça dependerá que num futuro não muito longínquo a balança se incline a favor de uma Galiza dona da sua própria cultura e reintegrada ao tronco comum galaico-português, ou de uma outra que já não deveríamos chamar Galiza, por ser uma terra espanholizada e que teria perdido o seu acervo linguístico e cultural próprios.

Algumas considerações mais sobre os termos utilizados neste ensaio: nele falaremos de galego e português como conceitos sinónimos no que diz respeito a língua. Os dois são legítimos: o primeiro por fazer referência à Terra onde o nosso idioma nasceu, o segundo por aludir ao país que a fez sua e a espalhou pelo mundo adiante, e que é o termo pelo que universalmente se conhece a nossa Língua comum. Também poderemos utilizar com o mesmo valor o vocábulo galego-português, que integra os dois anteriores-, em todo o caso, com a utilização como sinónimos de ambos os termos também queremos combater uma ideia muito arreigada em Galiza e Portugal, especialmente aliciada na primeira pelo poder político-cultural por servir aos seus propósitos: a de que o galego e português são duas línguas diferentes. Os critérios em que esse poder, antigalego na sua essência, baseia tais afirmações são inadmissíveis sob um ponto de vista científico e têm sido negados desde sempre pela romanística internacional, e, por suposto, são critérios que evitam muito escrupulosamente aplicar à língua castelhana para salvaguardar a sua “esencial unidad por encima de sus diferentes variantes y realizaciones”. Mas, essa mesma unidade é-nos negada aos utentes de galego-português na Galiza com umas justificações completamente opostas, apesar de as diferentes variantes e realizações do nosso sistema linguístico diferirem entre si muito menos que as do castelhano ou espanhol, termos que são utilizados como sinónimos sem qualquer problema.

Também é possível encontrar em textos galegos os vocábulos reintegracionista ou lusista. Designam os dois os defensores, na Galiza, da ideia de utilizar o código ortográfico do português actual para a escrita do galego, em harmonia com a sua própria história e etimologia. O segundo dos termos é utilizado com carácter pejorativo na Galiza por bastantes inimigos da nossa cultura: com isso ao mesmo tempo, exprimem o seu menosprezo e ódio contra tudo aquilo que acarreta em si a ideia de Portugal, sinónimo para eles de atraso, pobreza ou incultura. Com isto não pretendemos dizer que seja  uma palavra a evitar, mas bem ao contrário, deveríamos usá-la ainda com mais força,  energia e orgulho.

Também pode ser possível encontrar a palavra castrapo. Com ela aludimos à forma original  do galego imposta à força na Galiza, sem ter em conta a opinião de destacados vultos da cultura e do pensamento da Galiza, do passado e do presente, e que pretende incorporar o Galego no sistema ortográfico espanhol. Além da castelhanização ortográfica o dito castrapo inclui no seu léxico abundantes arcaísmos, dialectalismos, vulgarismos (do Galego e do castelhano da Galiza) e castelhanismos, todos eles carentes de todo possível rendimento se queremos formar uma língua culta, científica  e moderna, apta para todas as possibilidades de expressão.


Fotografia: Viana do Bolo, Ourense – Galiza. De Mario Sánchez – originally posted to Flickr as Viana do Bolo – desde el mirador de San Cibrao, CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=7612819.

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Com o devido respeito: Vossa Excelência é um aldrabão profissional

cabraoMarcelo diz que acordo ortográfico é “uma não-questão”

Lusa | 10 Maio 2016, 17:28

As declarações do Presidente da República chegam depois de críticas de Cabo Verde, da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) e de Angola a propósito de uma eventual reavaliação do Acordo Ortográfico.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, considerou esta terça-feira, 10 de Maio, que a questão do Acordo Ortográfico “é um não tema”, escusando-se a comentar as reservas que vieram de diferentes países lusófonos sobre uma eventual reavaliação a este documento.

Falando em Lisboa, no final da Assembleia Geral da COTEC Portugal, entidade da qual Marcelo Rebelo de Sousa é presidente honorário, o Presidente da República foi questionado pelos jornalistas sobre as críticas de Cabo Verde, da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) e de Angola a propósito de uma eventual reavaliação do Acordo Ortográfico, tema levantado pelo chefe de Estado português durante a visita da semana passada a Moçambique.

“É um não tema. É uma não questão”, respondeu apenas Marcelo Rebelo de Sousa, escusando-se a fazer qualquer outro comentário sobre o tema.

Há uma semana, a 4 de Maio, Marcelo tinha considerado que, se países como Moçambique e Angola decidirem não ratificar o Acordo Ortográfico, isso seria uma oportunidade para repensar a matéria.

Outro dos assuntos sobre o qual o Presidente da República não quis adiantar qualquer posição foi o dos contratos de associação com escolas privadas, tendo reiterado que ainda não é o tempo oportuno para se pronunciar.

Confrontado com os desenvolvimentos acerca do tema que tem extremado posições entre o Governo e a direita nos últimos dias, Marcelo Rebelo de Sousa disse: “Eu sei, eu sei. Eu vejo a televisão. Como dizia a Sophia Mello Breyner, ‘vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar’, mas outra coisa é falar”.

Sobre a promulgação da lei que “protege a casa de morada de família no âmbito de processos de execução fiscal”, que foi hoje anunciada na página da internet da Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa reiterou apenas as justificações que acompanharam esta decisão.

“Expliquei aquando da promulgação, como tenho feito sempre no sítio, que além de ser uma medida social, me impressionava muito o largo consenso no parlamento. Como sabe foi votado por maioria e com abstenção do CDS. O que significa que houve largo consenso em relação à não rejeição da medida social”, insistiu.

O secretário executivo da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), Murade Murargy, disse na segunda-feira que não há volta atrás na questão do Acordo Ortográfico, considerando desnecessário o debate gerado nos últimos dias em torno desta questão.

Já o ministro da Cultura e Indústrias Criativas de Cabo Verde, Abraão Vicente, defendeu também na segunda-feira, em declarações à agência Lusa, que qualquer decisão relativa ao Acordo Ortográfico deve ter base científica e não resultar de opiniões de políticos “transitoriamente nos cargos”.

Por seu turno, o ministro das Relações Exteriores angolano, Georges Chikoti, afirmou hoje que Angola e Moçambique registaram alguns progressos para a ratificação do Acordo Ortográfico, mostrando confiança em torno de um consenso.

Source: Marcelo diz que acordo ortográfico é “uma não-questão” – Política – Jornal de Negócios

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