Dia: 13 de Maio, 2016

Galiza: ontem e hoje de um genocídio linguístico – III [por Bento S. Tápia]

Eido das estrelas, Valdin, A Veiga, Galiza, España.jpg

A História da “normalização” da língua da Galiza

Os primeiros intentos sérios de recuperação do idioma e da sua normalização ortográfica arrancam dos anos 60, não sendo a eles alheios a criação da secção de Galego na Faculdade de Filologia da Universidade de Santiago de Compostela. O primeiro catedrático de Galego, Ricardo Carvalho Calero, propugnava critérios reintegracionistas para o seu uso escrito, embora a situação política vigente obrigasse a aplicá-los prudente e paulatinamente. Com a morte de Franco e a implantação de um novo regime de feição democrática, a questão ortográfica vai converter-se em polémica e passar cada vez mais a um primeiro plano.

O novo regime político espanhol, obrigado a integrar-se nos sistemas políticos vigentes na Europa, reger-se-à por uma Constituição que visa a perpetuação do “status quo” linguístico caracterizado pela hegemonia do castelhano e a marginalização do galego, catalão e vasco: segue a ser o único idioma oficial e de obrigatório conhecimento para todos os espanhóis. As “demás lenguas españolas” são também oficiais nas suas comunidades autónomas e serão teoricamente respeitadas e protegidas. Estas declarações pretendem mascarar uma realidade na qual o espanhol mantém a sua supremacia sobre os restantes idiomas do estado, reduzidos à marginalização ou secundarização, considerados na triste realidade prática como património folclórico, objecto de culto, tolerados mas não potenciados. Os organismos jurídicos espanhóis garantirão esta preeminência do espanhol em toda a circunstância; e, se a situação chegar a um limite incontrolável, na própria Constituição está previsto que o exército espanhol garantirá “Ia unidad” de Espanha, unidade que convém lembrar é fictícia, forçada e antinatural. Não se explicitam quais serão os meios para garantir essa enteléquia, mas podemos imaginá-los muito semelhantes aos já utilizados em 1936, afogando em sangue toda e qualquer voz dissidente.

Contudo, este quadro legal de tolerância passiva abriu a porta ao ensino da nossa Língua (e na nossa Língua) nas Escolas e Liceus da Galiza, oportunidade histórica que dava ensejo às novas gerações a não sofrer a grande tragédia padecida sempre pelos filhos da Galiza: o não terem aprendido o seu idioma no Ensino. E foi então que assomou com todo o seu vigor a polémica ortográfica, na qual depressa se singularizaram duas linhas opostas: a qualificada como reintegracionista ou lusista, que seguia o critério histórico-etimológico, defendido pelos mestres do galeguismo, de utilização do sistema ortográfico e morfológico do português para a escrita do Galego; esta linha via no Português aquilo que ele em realidade é, a evolução do Galego sem as travas padecidas secularmente na Galiza. Tal evolução não chegou até ao ponto de fazer de galego e português idiomas diferentes, já que a unidade essencial mantivera-se apesar dos séculos e da separação política. Como realização culta do idioma de Galiza, a ele haveria que acudir para tomar os elementos léxicos necessários que enchessem as lacunas deixadas no idioma em Galiza por tantos séculos de abandono, e nomeadamente os vocábulos pertencentes ao registo culto e científico. Isso não deveria supor, em nenhum caso, o abandono ou rejeitamento de palavras específicas conservadas na Galiza, e verdadeiramente legítimas e próprias do seu idioma. Ninguém quereria por exemplo renunciar a esse formosíssimo vocábulo, “agarimo“, cujo som já produz a sugestão do seu significado. Estas palavras, e outras muitas seriam mantidas dentro do registo próprio do idioma e, com o tempo, até deveriam fazer parte dos dicionários de Português, ao igual que termos especificamente brasileiros, angolanos, timorenses, etc.

Mas, passemos agora a falar da linha contrária, hoje reinante na Galiza e que definiremos como “isolacionista”; de feição claramente espanholizante, o seu modelo de escrita da nossa Língua decalca do castelhano todos os elementos que a constituem: ortografia, morfologia, sintaxe, acentuação… acudindo de preferência a essa língua para todos os préstamos léxicos, e sem ter qualquer rubor em adulterar a Gramática do idioma quando isso é necessário para os seus propósitos, o qual acontece bastante amiúde.

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«Contra o acordo infame» [António Guerreiro, “Ípsilon”]

Mais uma excelente crónica de António Guerreiro. Esta, por sinal, com a particularidade de o autor referir expressamente o que significa a tão badalada “revisão” do AO90: «Mas o mais inquietante é que já começámos a ouvir dizer coisas como receção, com o e fechado como se fosse recessão. No caso de receção, a supressão da consoante muda até é facultativa. Mas como podemos sabê-lo? O A090 responde: conhecendo a “norma culta” brasileira.»

Parece-me ser esta uma absoluta inovação, em termos de imprensa, “blogs” e redes sociais, à excepção dos alertas que aqui (e anteriormente no “site” da ILC) tenho lançado a respeito de tão horripilante “solução”.

 


AGuerreiro130516

Contra o acordo infame

António Guerreiro

Regressemos a uma questão que não esmoreceu com o tempo e ganhou nas últimas semanas um novo vigor: o Acordo Ortográfico. Inúteis foram as tentativas dos defensores do A090 para reduzir a discussão a uma espécie de Querela dos Antigos e dos Modernos, por mais que do lado anti-Acordo se tenha levantado muito ruído, produzido por alguns sectores mais dados à exaltação nacionalista, com o seu débil arsenal ideológico, do que à argumentação racional. Mas esse ruído tornou-se mais audível porque aos defensores do Acordo bastou-lhes ficarem calados ou dizer que o Acordo era bom porque sim. Apenas e sempre porque sim. O máximo risco que correram foi o de ficarem colados à grande operação política que está no início, no meio e no fim de todo o processo. O Acordo entrou em vigor por força da lei, em obediência a uma construção ideológica chamada lusofonia, mas não por força da aceitação pelos cidadãos e da aprovação pelas instâncias de carácter científico. Na história da nossa democracia, não há procedimento tão absurdo e tão próprio de um poder totalitário como este. Assistimos desde o início a manobras visando calar toda a contestação, mesmo a de um órgão de aconselhamento do Governo em matéria de língua, a Comissão Nacional de Língua Portuguesa, coordenada então pelo Professor Vítor Manuel Aguiar e Silva que, por ter elaborado um parecer bastante crítico do anteprojecto de 1988, foi impedido de ter acesso ao texto do AO assinado em 1990. Recordemos as palavras de Aguiar e Silva, quando se demitiu: “Há pontos escandalosos do ponto de vista técnico-linguístico, como o da facultatividade ortográfica, que coloca grandes problemas de natureza pedagógico-didáctica.” De um modo geral, os linguistas portugueses que se pronunciaram sobre o A090 insistiram na ideia de que a unificação da ortografia do português não passava de uma grande ilusão que iria ser desmentida pelas facultatividades e duplas grafias, dando origem a problemas no sistema ortográfico; e, contra os próprios objectivos do Acordo, criando diferenças onde elas não existiam antes (a provável não ratificação do A090 por Angola e Moçambique só reforça este argumento). Quem previa a instauração de alguma desordem ortográfica e consequências indesejáveis sobre outros componentes do sistema linguístico viu confirmadas as suas conjecturas em pouquíssimo tempo. Os jornais e as televisões que aderiram ao AO tornaram-se um mostruário de aberrações ortográficas. Os erros induzidos pelo Acordo são legião: abundam, por exemplo, os fatos em vez de factos. Para já não falar das facultatividades que jamais alguém irá respeitar: quem é que sabe que decepção e deceção são facultativas? Só quem conhece a “norma culta” no Brasil, porque é ela que determina essa facultatividade. E quem é que alguma vez pode entender a regra que faz com que cor-de-rosa se escreva com hífen e cor de laranja sem hífen? Quem é que pode confiar num sistema ortográfico que é uma verdadeira máquina de produzir excepções? Que espécie de Acordo é este que, visando a unificação da ortografia, cria grafias duplas e até múltiplas? A demonstração mais eloquente de que se trata de uma aberração está nos próprios documentos oficiais e nas publicações da imprensa que adoptaram o A090. Mas o mais inquietante é que já começámos a ouvir dizer coisas como receção, com o e fechado como se fosse recessão. No caso de receção, a supressão da consoante muda até é facultativa. Mas como podemos sabê-lo? O A090 responde: conhecendo a “norma culta” brasileira. Simples, não é?

António Guerreiro, revista Ípsilon (suplemento do jornal “Público”), 13.05.16.


[Adicionei destaques e “links”. Texto digitalizado a partir do recorte em imagem.]

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«Apagamento da História» [Guilherme Valente, “Público”]

logotipoGradiva«Apagamento da História que foi fazendo com que as gerações que começam hoje a chegar aos 50 anos vivam, na generalidade, sem dimensão do passado, por isso sem sentimento do futuro. Num eterno presente em que só o egoísmo pode dominar.»
Guilherme Valente

logo_shareA negligência na língua e na escrita é princípio da decadência dum país

Guilherme Valente

13/05/2016 – 07:15

A escrita não é uma arbitrariedade. Tem uma lógica, uma história, uma função, valor e importância inestimáveis.

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“Patriotismo é o amor pela nossa Terra. Nacionalismo é o ódio à Terra dos outros”
Romain Gary

“É sempre um défice de pátria que atiça o nacionalismo, nunca um excesso”
Pascal Bruckner

 

1. A escrita não é “uma mera representação do idioma” (1). Nem é uma arbitrariedade. Tem uma lógica, uma história, uma função, valor e importância inestimáveis.

A gramática, a sua nomenclatura e terminologia também não podem ser o tricot com que os nossos linguistas alteraram recorrentemente os programas de Português. Talvez para fazerem passar por avanços de ciência o que na realidade não o é.

Mas a gramática e a sua nomenclatura têm também uma lógica e uma história.

Do mesmo modo que os Jerónimos ou a Batalha também não são a construção de lego com que uma criança possa brincar, ou mamarrachos que se possam alterar ou destruir à vontade. Nem a obra Os Maias pode ser trocada por uma versão facilitista, idiota dela. De facilitismo em facilitismo, de simplificação em simplificação, é inteligência que se atrofia e que matam.

A língua, organismo vivo, enriquecível pela interacção inevitável das culturas, não deixa de ser por isso a herança matricial que é, que tem de ser cuidada, ensinada e amada – escola é, sempre, a palavra-chave.

Por isso, a escrita, que reflecte essa natureza da língua, pode e deve ser actualizada. Mas no seu tempo e com critério, tocando-se nela com precisão cirúrgica, sem ferir a sua lógica, sem quebrar o fio agregador da sua origem e da sua história. Porque tal como todos os outros elementos que referi, tal como a História, é constitutiva e constituinte duma identidade humana, que é, na sua universalidade, singular. Porque tudo o que somos, pensamos ou fazemos é resultado duma cultura, isto é, “duma compreensão do mundo historicamente adquirida”. Que devemos assumir e de nos devemos orgulhar.

2. Se tivermos presentes os inúmeros exemplos da aberração, mais do que documentada, do Acordo Ortográfico, estas rápidas considerações que fiz deviam bastar para se ter consciência da monstruosidade que foi fabricada, decidida e tão célere e surdamente imposta.

Tão célere e surdamente que se impõe a pergunta metódica que deve ser colocada quando, entre nós, algo é decidido e imposto tão célere e surdamente: que interesses beneficiou este AO?

Devo declarar que muito boa gente lutou por este AO por muito boas razões, sobretudo de política cultural e mesmo económica, designadamente as relações, de vária natureza, com o Brasil, e a valorização da língua portuguesa na comunidade internacional. Na minha opinião, contudo, que os factos confirmam, não era correcta a avaliação que fizeram. E essas bem-intencionadas razões não deviam ter ignorado o desiderato que acima formulei.

3. Na verdade, depois de tudo o que recorrentemente foi sendo imposto na Educação, este AO era, e continua a ser na escola, a bomba atómica que faltava. Que ainda faltava, depois da mediocrização dos programas de Português, da liquidação da História e dos seus protagonistas, da ignorância das datas, do desaparecimento da Geografia, da estigmatização da literatura, da desvalorização do conhecimento substantivo e da cultura (colocaram a palavra entre aspas e estigmatizaram-na chamando-lhe “erudita”), depois da dissolução ou relativização de tudo o que nos torna Portugueses e, sem contradição, cidadãos do mundo.

Cidadãos do mundo, porque amar a nossa Terra não é incompatível, bem pelo contrário, com o sonho empolgante de podermos contribuir, com a oferta do que conseguirmos ser, da nossa diferença, para o progresso de todas as nações,

Argumentou Henrique Monteiro, no Expresso, que muitos milhares de miúdos já aprenderam as novas regras. Diz isso porque não tem reparado como escrevem hoje os alunos e… muitos professores. E está a esquecer os milhões de portugueses que não as aprenderam e nunca aprenderão. E se muitos miúdos as aprenderam, estão na idade perfeita para aprenderem o que deve ser ensinado.

Um dos danos mais profundos e irreversíveis deste AO, tal como acontecera com as sucessivas alterações absolutamente gratuitas na nomenclatura e na terminologia da gramática, foi separar os pais dos filhos, foi impedir que os apoiassem no estudo do Português. Como me aconteceu a mim há trinta e tal anos.

4. Não há Nação sem língua, sem escrita, sem escola. Sem memória, sem História, sem afectos. Que só o conhecimento pode gerar. Sem herança imaterial e material, que se ensine e se aprenda a reconhecer, a compreender, a valorizar criticamente, a continuar. A amar.

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«O desacordo» [Editorial do “Diário de Notícias” de 10.05.16]

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