Dia: 15 de Maio, 2016

Galiza: ontem e hoje de um genocídio linguístico – IV [por Bento S. Tápia]

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Considerações teóricas sobre os mecanismos de pressão do Poder

Antes de fazer uma análise dos mecanismos usados pelo establishment para destruir na Galiza a nossa Língua e a nossa Cultura, e que tenham como alicerce a castelhanização ortográfica do português da Galiza, é conveniente fazermos algumas reflexões sobre qual é o esquema teórico que preside ao funcionamento de tais mecanismos. Assim entenderemos melhor o seu funcionamento e objectivos.

Em primeiro lugar é necessário estabelecer como facto inquestionável e indubitável uma realidade da qual todos devemos estar conscientes: a existência de uma perseguição cultural na Galiza que atenta contra os mais elementares direitos humanos. Defender hoje na Galiza que galego e português são a mesma Língua e querer levá-lo à prática escrita é considerado pelo poder um delito, um atentado à legalidade vigente, com as consequências que isso implica para o indivíduo em questão e para a sua situação profissional e social na vida diária. Ser galego e querer exercer coerente e conscientemente como tal no dia-a-dia é tarefa que exige valentia e coragem..

As justificações arguidas pela oficialidade autolegitimada para exercer tal acossa escondem a razão real: a punição de todo o desvio ou heresia (palavra esta que em grego significa opinião) que questione a linha linguística espanholizante adoptada pelos poderes culturais dominantes, cuja consequência inevitável é a perpetuação do processo de deturpação da Língua galega e a sua assimilação e dissolução no castelhano.

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É indispensável para este propósito convencer também o povo: nesta tarefa, o poder dominante sabe da grande vantagem que supõe dominar sobre um povo a que secularmente se tem negado o conhecimento da sua própria história, e da história e verdadeiro valor (espiritual e material) do seu idioma, inculcando-lhe em troca o desprezo e a indiferença ante tais realidades. Exemplos de todo o anterior poderiam-se citar com generosidade: quantos galegos saberão que na Catedral de Santiago estão enterrados (e por certo que num lugar não acessível para os visitantes quotidianos) Fernando II e Afonso IX? Quantos saberão que estes foram reis da  monarquia galaico-leonesa, chamada só leonesa nos livros de história espanhóis? Quantos têm lido Eduardo Pondal, Vicente Risco ou Castelão, vultos insignes das nossas letras e defensores todos eles da aproximação a Portugal? Muito poucos, evidentemente. E com um povo inconsciente da sua tradição histórica é bastante fácil praticar uma oclocracia cultural cheia de demagogia, onde se denigra e faça troça de todas as intenções e propósitos de aproximação do galego ao português; o labor fica completado e assegurado dado o domínio que o poder detém sobre todos aqueles elementos de controlo que permitem a lavagem ao cérebro das massas: meios  de comunicação social, ensino, editoras de livros, etc.

Os mecanismos do terrorismo cultural e intelectual exigem que os hereges sejam banidos da vida cultural; toda a classe de sanções e constrangimentos são úteis para forçar e/ou acelerar a dissolução da identidade de Galiza: elemento, básico dessa identidade é a Língua que compartilha com Portugal e com o resto da Lusofonia. Subtraí-la e traí-la a respeito do seu verdadeiro âmbito cultural é objectivo preferente dos poderes fácticos hoje dominantes na Galiza.

A pressão e a repressão psicológicas contra os que lutam pela identidade de Galiza e do seu acervo cultural próprio visam paralisar a autonomia intelectual da pessoa, daí se segue encadear o seu pensamento pelo medo às consequências da transgressão das proibições e impor na maioria dos casos a autocensura prévia face ao risco de castigo. Tudo isto num contexto de “liberdade de expressão”(!) no que se insiste até ao cansaço. Procura-se combater sem trégua toda a ameaça à pressão castelhanizante,  à redução da cultura própria da Galiza ao seu máximo denominador comum e “oficial” — a desnaturação da sua Língua.

Resulta curioso, neste contexto, ver como certos conceitos, sacrossantos noutros âmbitos para o poder estabelecido, não são levados ao mundo cultural (por exemplo, os de democracia ou livre concorrência); nesse mundo está instaurada a ditadura dos alheados a respeito da Galiza e da sua identidade. E daí se segue a castelhanização absoluta em todos os níveis, enquanto que aos adversários se lhes negam os direitos de cidadania mais elementares e são atirados ao “inferno” ou expostos à burla e ao desdém.

Em suma, vemos que o poder,político e cultural hoje dominante na Galiza age com um voluntarismo violento e uniformizante; procura fazer mais estética e limpa a eliminação do dissidente do que com os métodos policiais de antanho, negando-lhe quaisquer possibilidades de combater em igualdade de condições.

bgalega


Fotografia de topo: «Tui (à direita), Valença (à esquerda) e o rio Minho». GFDL, https://gl.wikipedia.org/w/index.php?curid=30212
Bandeira: http://www.bandeiragalega.com/pt/galega.htm

Capítulos anteriores:
I – Introdução
II – Breve história da nossa língua na Galiza
III – A História da “normalização” da língua da Galiza

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«Não vejo necessidade» [Roberta Medina, SICM]

SIC_Mulher_logo

«Marcelo Rebelo de Sousa voltou a trazer o assunto do novo acordo ortográfico: acha que faz sentido reverter o acordo?»
SIC Mulher, 10.05.16

«Roberta Medina (Rio de Janeiro, 15 de Março de 1978) é uma empresária e produtora de eventos brasileira, residente em Lisboa, Portugal desde 2003. Filha de Roberto Medina, o criador do Rock in Rio, é responsável pela realização do Rock in Rio em Lisboa e Madrid.» [wiki]

Nesta gravação, a brasileira Roberta Medina tenta explicar — apesar da radical estupidez do “lead” — que o AO90 é um disparate total: “não sei nem porque é que isso surgiu; não vejo necessidade; eu investiria em aproximar culturalmente os países“.

Entrementes, dos lados, um jovem e uma jovem (“portugueses e portuguesas”) debitam parvoíces a granel a respeito de um assunto sobre o qual — patentemente — fazem questão de evidenciar a sua (e seu) total ignorância/o.

 

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