Dia: 17 de Maio, 2016

AO90: «Um arranjinho entre Estados» [João Paulo Guerra – Antena 1]

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O Fio da Meada

João Paulo Guerra aponta as confusões de Marcelo Rebelo de Sousa entre as posições pessoais e as posições de Chefe de Estado, a propósito do Acordo Ortográfico.
| 13 Mai, 2016

O professor Marcelo Rebelo de Sousa confunde por vezes as posições pessoais com as posições de Estado. O que não é nada pacífico, porque Rebelo de Sousa é Chefe de Estado mas o Estado não é ele nem ele é o Presidente Sol. Foi uma confusão dessas que aconteceu quando Marcelo Rebelo de Sousa beijou o anel do Papa, na qualidade pessoal de católico, durante uma visita como Chefe de um Estado laico ao Vaticano. E o professor Marcelo reincidiu agora em Moçambique ao sugerir uma oportunidade para ‘repensar’ o ‘acordo ortográfico’. Devo confessar que me rebolei de gozo com as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa. Tenho o ‘acordo ortográfico’ atravessado na garganta e no teclado da caneta. As línguas evoluem, é claro, mas o ‘acordo ortográfico’ não corresponde a qualquer evolução natural da língua portuguesa; é um arranjinho entre Estados, com empresas na sombra. E é como tal que o ‘acordo’ aqui está, com data de 16 de Dezembro de 1990 e a assinatura, pela parte portuguesa, de Santana Lopes… na modalidade de Secretário de Estado da Cultura. E agora o que acontece é que lemos nos jornais brasileiros ‘online’ novidades sobre a actividade ou a crise “econômica” (com acento circunflexo, tal como “biblô” ou “complô”); também continuamos a ler notícias com trema e a tremer com certas notícias, o que não é a mesma coisa. Parece que o ‘acordo’ se aplica de uma banda só. E de ‘fato’ passámos a andar com a gravata do ‘acordo’ apertada no pescoço, espartilhados no colete ortográfico. Tão ridículo como isto: na língua inglesa há palavras derivadas do Latim que mantêm a consoante ‘C’ muda para abrir uma vogal, o que no Português, língua latina, foi abolido pelo ‘acordo’. Isto é a minha opinião mas eu não tenho responsabilidades institucionais — que o Chefe de Estado tem. O Chefe de Estado não pode assinar leis de fato e conspirar de facto contra o ‘acordo ortográfico’. Está em desacordo? Accione os mecanismos institucionais. Ou então temos o caldo das instituições entornado. E a sopa fria.


Foto de revista Lux.
Conteúdo apontado por Jorge Rabaça.

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Galiza: ontem e hoje de um genocídio linguístico – V [por Bento S. Tápia]

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Da teoria à prática

Vejamos agora quais são os mecanismos que desenvolvem os poderes dominantes na Galiza para impor a normativa castelhanizante no Idioma e dissolver a identidade galega, os quais podemos localizar em âmbitos muito diferentes.

No Ensino, o galego-português escrito em castelhano (coloquialmente conhecido como castrapo), é o ensinado nas Escolas e Liceus da Galiza, exceptuando alguns poucos centros onde a equipa de professores acordou ensinar a normativa chamada “de mínimos”, moderadamente reintegracionista. Em troca, a normativa própria da nossa Língua, coerente com os critérios científicos e histórico-etimológicos, é ignorada, deturpada ou falseada: chegam-se a dizer dos seus defensores inexactitudes como a de que pretendem substituir o galego pelo português (!) ou a de que defendem que o galego desaparecerá e que o único caminho que nos resta é falar e escrever português; nestas inexactitudes está implícita, ademais, a não distinção elementar entre nível oral e nível escrito de um idioma, misturando e confundindo arbitrária e  interesseiramente os dois.

Se algum professor reintegracionista se “esgueira” e pretende explicar aos seus alunos as ideias e argumentos daqueles que defendemos a unidade da Língua, pode ocorrer que em breve apareça com a maior das legalidades a Polícia linguística para abrir expediente, investigar ao infractor e avisá-lo “cordialmente” dos possíveis e negativos efeitos do seu proceder.

Falar de como os conteúdos dos livros de texto estão subordinados aos propósitos do poder exigiria específico, demorado e pormenorizado estudo; basta dizer que neles é constante a apresentação de textos literários alterados ortograficamente com respeito à sua redacção original para adaptá-los à normativa castelhanizante, textos que abrangem desde a poesia lírica medieval até aos autores e pensadores galegos do passado século e deste: Eduardo Pondal, Risco e um longo etcétera. Pretende-se assim ocultar aos escolares galegos a verdade histórica da sua Língua e de qual foi o seu código ortográfico e o pensamento e a a prática de quem o defendia.

Outra prática habitual das primeiras lições dos livros de texto de Língua Galega são exercícios pondo em paralelo um texto escrito em castrapo e outro redigido em português para “diferenciar galego e português” (!).

E não acabaremos sem mencionar como os livros de texto ocultam sistematicamente o pensamento reintegracionista pró-português dos escritores e pensadores galegos do passado, que já citámos acima, pensamento que seria altamente comprometedor para os interesses do poder. A desvergonha chega até a trair a memória dos mortos, querendo assimilar o seu pensamento ao do poder dominante e dizendo que se tal ou tal figura estivesse viva apoiaria a política linguística que se está a praticar hoje, afirmação que qualquer mínima leitura do pensamento patriota galego do passado demonstra ser uma descomunal mentira.

Capítulo especial merecem as editoras e a criação cultural: Após a imposição da normativa castelhanizante, o primeiro passo que deu o poder oficial galego foi procurar concentrar nas suas mãos todo o controlo possível sobre o mercado das edições de livros em galego. Para isso foram literalmente compradas com dinheiro as duas editoras mais importantes em tal âmbito, Galáxia e Xerais de Galicia, sucursais das editoras espanholas SM e Ediciones Generales Anaya. Assim, a Junta de Galiza impunha-lhes a obrigação de utilizar nas suas publicações as normas castelhanizantes e fornecia-lhes em troca um negócio cujos benefícios eram fabulosos: o monopólio dos livros de texto obrigatórios para o Ensino, entendendo como tais os manuais e os diferentes livros de leitura obrigatória. Além disto, a estas editoras é encomendada a publicação, generosamente subsidiada, de outros livros e colecções, como por exemplo a chamada “Biblioteca Básica da Cultura Galega”, da Editorial Galáxia e patrocinada pelas Deputações Provinciais de Galiza.

A chantagem do dinheiro amplia-se a toda e qualquer publicação, que só pode aspirar a receber subsídios oficiais se respeita submissamente as normas do castrapo. Não nos deveria enganar o facto de que em determinadas publicações, de âmbito de influência restrito a uns quantos especialistas, se possa publicar em português, como é o caso do Boletim de Filologia VERBA. É que enquanto se usa o português como língua estrangeira não há qualquer problema, este surge quando o português e o seu código ortográfico são admitidos e assumidos como próprios para a Língua de Galiza.

A negação de toda a ajuda à publicação em galego legítimo, além de ir contra a  liberdade criativa e ser uma cadeia para o pensamento, visa a eliminação e/ou marginalização das publicações na nossa Língua na Galiza.

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