Dia: 18 de Maio, 2016

Q.E.D.: “revisão”

Num jornal “a serviço” do Brasil, a confirmação “oficial” daquilo que já cá se sabia mas que toda a gente finge não entender: Marcelo não quer “reabrir o debate” coisíssima nenhuma, Marcelo quer apenas a “revisão” do AO90.

Q.E.D.

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Presidente de Portugal quer fazer revisão do novo acordo ortográfico (Folha de S.Paulo)

17/05/2016

Giuliana Miranda, 15/05/2016

Oficialmente, o último acordo ortográfico está em vigor em Portugal desde 2009, mas ainda enfrenta resistência em vários setores. Na semana passada, o time dos descontentes recebeu um apoio de peso: o novo presidente português se mostrou favorável à revisão das regras.

Em visita a Moçambique — país lusófono que, assim como Angola, não ratificou as mudanças —, Marcelo Rebelo de Sousa admitiu que a não adesão dos africanos pode permitir a Portugal também rever sua posição no acordo.

Na quarta-feira (11), a Associação Nacional de Professores de Português e vários membros da organização “Cidadãos contra o Acordo Ortográfico” recorreram à Justiça pedindo a anulação da norma que disseminou o uso da nova ortografia no país.

No cargo há dois meses, Rebelo de Sousa nunca escondeu sua contrariedade sobre o tema. Na década de 1990, ele assinou um manifesto que reuniu 400 personalidades portuguesas contrárias ao acordo ortográfico.

Embora as críticas públicas tenham se abrandado, o livro de imagens de sua campanha à Presidência, “Afectos”, não adota as mudanças ortográficas nem no título.

Em “O Acordo Ortográfico Não Está Em Vigor” (ed. Guerra & Paz), o embaixador e professor de direito internacional Carlos Fernandes diz que o acordo fere também princípios jurídicos e, por isso, não deveria ser adotado.

Segundo Fernandes, além de as regras anteriores não terem sido oficialmente revogadas, o governo português tampouco cumpriu trâmites legais obrigatórios para a entrada em vigor dos novos parâmetros da língua.

O debate sobre uma possível revisão do acordo —há quem defenda até um referendo— provocou uma “caça às bruxas” ortográfica. Vários políticos tiveram currículos, biografias e livros vasculhados em busca de indícios de que são contrários às mudanças na escrita.

CRÍTICAS AO BRASIL

Embora tenha sido assinado em 1990 pelos Estados de língua oficial portuguesa, o acordo precisa passar por ratificação interna em cada país para entrar em vigor. Brasil, Portugal, São Tome e Príncipe e Cabo Verde já promulgaram a decisão.

Já Angola e Moçambique —que concentram a maioria dos falantes do português depois do Brasil— ainda não têm data para ratificar.

O português é a quinta língua mais falada do mundo, com cerca de 280 milhões de falantes, dos quais 202 milhões estão no Brasil, 24,7 milhões em Angola, 24,6 milhões em Moçambique e 10,8 milhões em Portugal.

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Sobre a Língua Portuguesa em Timor-Leste [“Tornado” online] 1/2

Timor_16

jornaltornado_logoLíngua de Camões em Timor-Leste: Quo Vadis?

parte 1/2

Texto: M. Azancote de Menezes, em Timor ·

17 Maio, 2016

Um investigador brasileiro da Universidade de Campinas, Alan Carneiro, escreveu um artigo “problematizador” sobre as políticas linguísticas em Timor-Leste, abordando também as tensões no campo da formação docente

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O autor, logo na introdução do seu estudo, referia, e passo a citar, «Ao chegar ao aeroporto de Díli, Timor-Leste, as placas de propaganda indicam uma complexa situação linguística: o anúncio de uma instituição financeira indonésia, o banco Mandiri, está em língua indonésia; curiosamente a propaganda do banco Australian and New Zealand (ANZ) está em português, a língua oficial; o de uma organização não governamental (ONG) norte-americana, Buy Local que actua no país, está em inglês, com a tradução para a língua oficial, o tétum».

No segundo parágrafo, Carneiro, desenvolvendo o seu pensamento em jeito de prosa, afirma: «ao percorrer a cidade, a diversidade de línguas utilizadas não só nas placas e sinalizações, mas também nos diversos contextos de interacção surpreende ainda mais: pessoas falando em tétum nas ruas, nas feiras e nas casas; professores portugueses e brasileiros ensinando e interagindo em língua portuguesa nas universidades e em cursos de formação de professores; trabalhadores internacionais dos mais diversos países conversando em inglês nos restaurantes, nas agências internacionais e nas sedes de ONG´s; comerciantes de diferentes nacionalidades, mas principalmente indonésios e chineses, utilizando a língua indonésia e o inglês, dentre estes últimos ainda se vê alguns que utilizam o hakka ou o yue, línguas vindas do sul da China que estão presentes no país desde tempos remotos».

Às citações mencionadas na introdução desta reflexão, independentemente de continuarem no seu todo a representar a realidade actual ou não, poderemos acrescentar outras, algumas caricatas. A carta de condução e o bilhete de identidade são entregues aos cidadãos em língua portuguesa e inglesa. O cartão de eleitor, tal como deviam estar todos os documentos, está em português e tétum, as duas línguas oficiais.

No entanto, vários formulários das universidades e outras instituições estão escritos em língua indonésia. Nos hospitais os médicos cubanos falam em espanhol. Outros profissionais de saúde comunicam em língua indonésia, tétum e alguns em português.

No espaço da classe política, caso do Parlamento Nacional, apesar dos documentos que por lá circulam estarem escritos em língua portuguesa e em tétum, os deputados discutem e abordam os diversos temas na língua tétum e alguns até em língua indonésia mas, raramente em português, devido à incapacidade de muitos deputados dominarem a língua portuguesa.

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«Marcelo Rebelo de Sousa e o Acordo Ortográfico de 1990» [opinião, “Público”]

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Marcelo Rebelo de Sousa e o Acordo Ortográfico de 1990

Francisco Miguel Valada

18/05/2016 – 07:30

O debate sobre o AO90 nunca foi aberto, por isso é um erro mencionar-se uma reabertura. Aquilo que houve foi uma imposição.

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Há algumas semanas, soube que Marcelo Rebelo de Sousa, pouco depois de ter tomado posse como Presidente da República, decidira reabrir o debate sobre o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90). De facto, a confirmar-se tal informação, tratar-se-ia de atitude, além de merecedora de várias ovações de pé, em absoluta harmonia com um artigo publicado no Expresso, dias antes da tomada de posse, no qual Rebelo de Sousa não adoptara o AO90. Entretanto, notícias na comunicação social têm confirmado essa vontade de reavaliar o ponto da situação ortográfica.

Contudo, neste contexto, “reabrir o debate” não será a opção mais feliz, pois existe um prefixo a mais. Salvo iniciativas pontuais (uns colóquios aqui, umas audições ali, umas audiências acolá), o debate sobre o AO90 nunca foi aberto, por isso é um erro mencionar-se uma reabertura. Aquilo que houve foi uma imposição. Aliás, a consequência imediata da escassez de sessões de esclarecimento e da abundância de propaganda é uma maior permeabilidade de leitores de português europeu em relação a opiniões, digamos, peculiares.

Por exemplo, há quem afirme publicamente que “se disser Egito escreve sem ‘p’, mas se disser Egipto escreve com ‘p’ (*)”; há quem divulgue a ideia de a “dupla grafia” ser “recorrente na história da língua portuguesa” e apresente exemplos tão sui generis como “regime”/“regímen”, “areia”/“arena”, “imprimido”/“impresso” ou “olho”/“óculo” (*); há igualmente quem escreva “agora ‘facto’ é igual a fato (de roupa)” (*). Convém ter bastante cautela com estas opiniões e só um debate esclarecedor dará a possibilidade de explicar o que está em causa — além de permitir aos autores destas opiniões virem a terreiro defender-se ou retractar-se.

Convém igualmente que haja, por fim, um órgão de soberania a pôr os pontos nos ii em relação a esta matéria e a tomar uma atitude responsável, sendo muito provavelmente o Presidente da República o mais indicado, porque se sente obrigado a praticar algo que não prega. Isto é, adopta uma grafia para inglês ver. Depois da confidência de Cavaco Silva (com a agravante de ter culpas no cartório) – “Todos os meus discursos saem com o acordo ortográfico mas eu, quando estou a escrever em casa, tenho alguma dificuldade e mantenho aquilo que aprendi na escola” (*) –, temos agora Rebelo de Sousa a afirmar: “o Presidente da República, nos documentos oficiais, tem de seguir o Acordo Ortográfico. Mas o cidadão Marcelo Rebelo de Sousa escrevia tal como escrevem os moçambicanos, que não é de acordo com o Acordo Ortográfico” (*).

Em peça da RTP (*), é perceptível que esta afirmação de Rebelo de Sousa provocou o riso de um dos interlocutores. Não percebi a piada. Isto é, o riso foi perceptível, mas a piada não foi: porque existe uma relação entre perceptível e perceber, porque perceptível é aquilo que pode ser percebido e percebido é o que se percebeu e perceber é ter a percepção de algo. O mesmo acontece com o que pode ser recebido, pois pode receber-se e receber é dar recepção. O mesmo acontece com concebido, conceber e concepção. Por isso existe aquele ‘p’, de -pç-, em concepção, percepção e recepção(*).

Por isso e não só. Aquele ‘p’ também permite que se evite a vulgarização de desastres, como a recente tradução portuguesa “a recessão de luz sobre os painéis solaresdo original francês “la réception de la lumière sur les panneaux solaires” (*). Vindo ‘perceptível’ a talhe de foice, recordemos um factor importante: com o AO90, no Brasil, ‘perceptível’ mantém-se; com o AO90, em Portugal, ‘perceptível’ passa a ‘percetível’. Há quem lhe chame “unificação ortográfica” (*) ou “ortografia comum” (*).

Como é sabido, a Assembleia da República não tem percebido – ou não tem querido perceber: nesta matéria, como noutras, a doutrina diverge –as provas apresentadas sobre a supremacia dos defeitos do AO90 em relação às suas hipotéticas virtudes e as gritantes diferenças entre a quimera de um acordo ortográfico em abstracto e o desastre AO90 em concreto. Aliás, os actos e omissões deste órgão de soberania em relação a esta matéria podem ser apresentados como um excelente exemplo de assimetria entre a vontade do eleitor e a atitude do eleito.

O Governo, pela voz do primeiro-ministro, não toma “a iniciativa de desfazer o acordo ortográfico” (*) e, garante o ministro dos Negócios Estrangeiros, “aguarda serenamente” a ratificação do AO90 pelos restantes membros da CPLP. Isto é, “aguarda serenamente” que outros tomem iniciativas, em vez de se preocupar com as vítimas portuguesas que o desastre vai produzindo. Por exemplo, no Diário da República de 4/5/2016, o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade de Lisboa, nos “parâmetros preferenciais” para a contratação de um professor associado, determina o seguinte: “Ser titular do grau de Doutor em Estratégia ou História dos Fatos Sociais” (*). Exactamente: História dos Fatos.

Aguardando serenamente que outros ratifiquem aquilo que, atempadamente, membros da comunidade científica portuguesa recomendaram que não fosse ratificado por Portugal (*), o ministro dos Negócios Estrangeiros vai permitindo que, no Diário da República, além de continuarem a adoptar grafias inadmissíveis em português europeu, também deturpem a língua inglesa. Um excelente exemplo aparece na edição de 6/5/2016, com “questões relacionadas com fatores [sic] humanos” traduzido da seguinte forma: “human fator issues” (*). Fator issues? Efectivamente: fator issues. Esperemos que nenhum inglês veja.

[…]

(*) Versão ligeiramente modificada de texto originalmente publicado no portal da comunidade portuguesa na Bélgica www.luso.eu, onde podem ser encontradas (tal como no ‘site’ do PÚBLICO) as notas de rodapé e as referências.

[Transcrição parcial de artigo da edição em papel do jornal “Público” de 18.05.16.]

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