Dia: 21 de Maio, 2016

«A aberração ortográfica» [César Faustino, “Público”]

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O facto de mais de meio milhão de crianças serem forçadas, por decreto, a usar a nova ortografia não pode servir de cómoda justificação para se não corrigir urgentemente o desastroso erro da adopção precipitada e ditatorial de um acordo ortográfico que abastarda aberrantemente a língua de toda uma nação, empobrecendo-a marcantemente, e no qual a esmagadora maioria dos portugueses não se revê. Ao contrário daqueles que, por leviandade ou preguiça intelectual, predicam varrer-se o assunto para debaixo do tapete (“caso arrumado, não se fala mais nisso”…), não é, de modo algum, uma questão irreversível. Trata-se da obrigatoriedade de reverter quanto antes uma decisão política inconsciente e irresponsável, que estabeleceu a confusão geral e o caos e que, provocando estigmas profundos na sociedade, se insere na funesta tendência do apagamento da memória e da negação da História – ignorando que a língua portuguesa é, verdadeiramente, o nosso maior património, o nosso atestado de identidade. Mais importante que a bandeira, o hino, a Constituição ou o Estado.

César Faustino, Cascais

“Público”, Cartas à Directora, 21/05/2016
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«Abrasileirar a Língua» [TVMais – Rodrigo Guedes de Carvalho]

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            A nossa língua anda confusa

          Sou contra o Acordo Ortográfico por me              parecer uma imposição sem grandes bases de    discussão pública.

Rodrigo Guedes de Carvalho 19.05.2016, 16:18

Há quanto tempo ouvimos falar do Acordo Ortográfico? Primeiro vinha aí, depois ninguém sabia muito bem dizer o que era, depois não se sabia se havia uma entrada em vigor oficial, e de que forma isso se reflectia na nossa vida escrita. Houve discussões, houve pareceres, houve alguns avanços, muitos mais recuos. A coisa foi caindo no esquecimento, embora muitos jornais e revistas tenham decidido adoptar a coisa, que era uma maneira de ir impondo a coisa, em jeito de dose maciça, a ver se nos habituamos. A verdade, sejamos claros, é que nunca nos habituámos. E a coisa é confusa mesmo para professores que têm de pregar o Acordo às criancinhas mas não sabem, muitas vezes, eles próprios o que é realmente para fazer.

A prova de que tudo isto foi uma confusão desde o início é sabermos, agora, que o Presidente da República não está (nem sequer ele…) muito convencido das virtudes do Acordo, e portanto a coisa poderá não entrar em vigor. Desculpe? Mas a coisa não estava já em vigor, ao que sabemos? Pois, é essa é talvez a maior confusão da coisa; nem sequer se saber bem se está ou não em vigor, porque ouvimos, recentemente, ser referido que é preciso perceber se, por exemplo, Angola e Moçambique ratificam mesmo o Acordo.

Mais uma contribuição para a confusão: qual é a diferença entre adoptar ou ratificar a coisa? Enfim…Nesta salada russa em que ninguém se entende, e onde as opiniões vão mudando constantemente, fica-me a impressão de que ninguém saberá muito bem o que se faz, e quando, e como. Disse-o aqui várias vezes: nunca escrevi segundo o Acordo, porque estou contra, com a agravante de nunca o ter compreendido bem, porque na verdade nunca houve ninguém a explicá-lo como deve ser. Escrevi também que me parecia, do pouco que compreendia, que o Acordo era sobretudo uma conquista brasileira de território. Todos os exemplos que vejo do que se escrevia assim, e agora é suposto escrever assado eram um abrasileirar de toda a língua portuguesa. O Acordo sempre me pareceu uma ideia de um brasileiro que decidiu que havia coisas que lhe davam mais jeito assim. E de repente, estavam todos os falantes da língua a ter que aprender as mudanças.

Sou contra o Acordo sobretudo por isso, por me parecer uma imposição sem grandes bases de verdadeira discussão pública, uma coisa acelerada, precipitada. E digo mesmo que com acordo ou sem ele, há de facto um abrasileirar da língua em Portugal de que muitos não se apercebem. E está já muito enraizado na própria oralidade (que depois não tarda a traduzir-se na forma escrita). Um dos grande exemplos é o VIRAR. Toda a gente já fala assim e as manchetes dos jornais ajudam. Não faltam títulos sobre “Fulano vira estrela de rock por um dia”, ou “Fulana vira vegetariana para ajudar na causa animal”. Este VIROU, está bem de ver, diz-se em português TRANSFORMOU-SE em. Isto está de tal maneira, que muitos dos meus colegas jornalistas (com responsabilidade acrescida a falar a língua) repetem a coisa sempre que podem. VIROU é brasileiro do mais puro. Basta dizer a frase em voz alta, para se perceber que só mesmo em brasileiro ela faz sentido.

A última praga (mesmo entre jornalistas, mais uma vez) é a multiplicação, ou melhor, o nascimento do “DE” onde ele nunca nos fez falta. Fique com atenção e ouça todos esses textos da televisão portuguesa: “ele apelidou-o DE traidor”, “uma manifestação a que o governo chamou DE injusta”. Ó gente, por favor. Neste caso, até é simples. para falar português correcto, é só eliminar o DE. Tirá-lo, retirá-lo, não o utilizar. Porque ele está lá a mais. Porque ele só faz sentido (mais uma vez) em brasileiro. Do género “não posso aceitar que esse cara me chame DE bandido”. Por cá, basta dizermos como sempre dissemos: “Não posso aceitar que esse tipo me chame bandido”. Simples, não é? Pelos vistos, não.

[Transcrição de TVMais – Rodrigo Guedes de Carvalho. Destaques meus. Imagem de topo de “Hagop Garagem“]

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