Dia: 22 de Maio, 2016

Galiza: ontem e hoje de um genocídio linguístico – VII [por Bento S. Tápia]

Parque Natural Baixa-Limia, Serra do Xurés 02.jpg

Conclusões

Não estamos perante um caso único na Latinidade. Lembremos, sem ir mais longe, o caso do Catalão; esta língua é falada em Catalunha, Valência, Baleares, Andorra, Rossilhão francês e na cidade de Alguer, em Sardenha. Pois bem, têm surgido tendências ao serviço dos interesses do poder central espanhol que pretendem inventar uma ortografia isolacionista para o catalão de Valência, grafia diferente da utilizada em Catalunha, à maneira de uma nova edição do “divide e vencerás” que tão bem sabe aplicar Madrid. Precisamente é em Valência onde se verificou um crescente retrocesso do catalão pela ausência de vontade normalizadora das autoridades autonómicas (do PP entre 1991 e 2015) retrocesso muito semelhante ao do galego na Galiza do qual em breve falaremos. Antes citaremos também como exemplo de situação semelhante verificada em países da Latinidade o caso de Moldávia: este país, antiga República Socialista Soviética, teve de escrever o seu idioma desde 1944 até 1991 com o alfabeto cirílico que é próprio do russo e chamar-lhe oficialmente “moldavo”. Isto supunha um dislate cuja única intenção não podia ser outra que a de enfraquecer a identidade nacional deste povo; com efeito, este território, outrora integrado politicamente na Roménia, sempre tinha utilizado o seu idioma, o romeno, escrito com a sua ortografia própria, o alfabeto latino. Mal adquiriu a sua plena soberania, na sequência da desintegração da URSS, o governo moldavo declarou como único idioma oficial o romeno e restaurou o legítimo alfabeto latino para a sua escrita, apesar das pressões da influente população de origem russa.

Infelizmente, na Galiza está ausente essa soberania, falta na maioria da população até a consciência para lutar por ela e defender a sua herança histórico-cultural do desaparecimento por absorção pelo castelhano. Essa é a consequência de ter sido a população da Galiza duramente submetida durante séculos a uma educação propositadamente orientada à valoração do alheio e ao esquecimento e desprezo pelo próprio. Daí que a situação da Língua na Galiza seja cada dia mais preocupante, algo que reconhecem até as mesmas instituições castelhanizantes (com hipócrita preocupação e sem terem qualquer vontade de solucionar esta grave questão, naturalmente). Estas impressões sobre o futuro do Galego foram ratificadas desde diversos âmbitos: assim, a Associação Internacional de Estudos Galegos (AIEG) reunida na Universidade de Oxford de 25 a 28 de Setembro de 1994 e presidida pelo professor John Rutherford, denunciou num comunicado “a precária situação do idioma galego dentro da sociedade galega”; a AIEG manifestou a sua “profunda preocupação” instando “os poderes públicos galegos a que desenvolvam um decidido labor de normalização linguística e cultural visando que a língua possa ser transmitida às futuras gerações, ampliando a presença do Galego na educação Primária e Secundária e incidindo na melhoria idiomática dos meios de comunicação”. Desde então até hoje repetem-se as mesmas conclusões e recomendações em reuniões da mesma índole, mesmo chegadas das próprias autoridades da União Europeia, sinal da persistência daquela precária situação de duas décadas atrás.

A realidade diária é talvez muito mais dura e preocupante do que a vista desde estes Congressos.

Recentes estudos e trabalhos feitos pela Real Academia Galega e subsidiados pela Junta de Galiza verificam o acelerado descenso de galegofalantes, que no estrato de pessoas de 16 a 20 anos apenas alcança 30%; o galego tem já virtualmente desaparecido entre a mocidade das cidades da Galiza, onde apenas é o idioma inicial de 5% dos jovens compreendidos no citado leque etário. Ficam assim em evidência os triunfalismos oficiais tranquilizadores, quando asseveram que 80% dos galegos falam a sua Língua. Para além de ser dificilmente admissível este dado, não já pelo mencionado no citado estudo senão pela simples constatação da realidade por qualquer pessoa que viva na Galiza, ainda admitido como hipótese de trabalho inicial haveria que denunciar o que os sucessivos governos da Galiza sempre têm obviado, aquilo que se oculta detrás da realidade dos números, mascarando um inquietante futuro para a nossa Língua a médio prazo, e que é o que segue:
A) 80% dos galegos (e seguramente até perto de 100%, se calhar) sabem falar a sua Língua, mas isso não quer dizer que a falem na sua vida diária com os seus cônjuges, filhos, amizades, no trabalho, etc. Nessas situações o galego é preterido pelo castelhano, forçado veículo de educação, cultura e ascensão socioeconómica e portanto possuidor de suficientes atractivos face ao Galego, idioma o nosso cujo tratamento na escola estatal espanhola é o que se dá a uma língua estrangeira (ou talvez pior). Esse atractivo que possui o castelhano converte-o em idioma de expressão habitual de muitos habitantes da Galiza, que só usam o galego ocasionalmente ou simplesmente não o utilizam.
B) A maior fonte de galegofalantes (melhor diríamos último reduto de resistência) é o mundo rural; e este mundo está desaparecendo rapidamente, sentenciado à morte há já muitos anos pela lógica dominante do sistema económico capitalista. O mundo urbano é cada dia mais dominante e, na Galiza, o nosso Idioma esteve tradicionalmente expulso deste mundo ou confinado dentro dele como que num ghetto, situação que substancialmente não se alterou. Se a curto prazo não se consegue inverter essas tendências, o seu futuro será o de uma relíquia de museu, fóssil objecto de curiosidade e estudo mas, como tal, fóssil irreversivelmente morto e incapaz de ter e criar nova vida.
C) A maior percentagem de galegofalantes, por grupos de idade, são anciãos ou pessoas de idade madura. Se fizermos uma separação entre os maiores e os menores de 40 anos, encontraríamos que a maior parte de galego falantes estão no primeiro dos grupos. O processo desgaleguizador das novas gerações, acelerado desde o franquismo e ininterrupto desde a morte do ditador, tem sido enorme e muito preocupante. Em 1987, um estudo da Universidade de Santiago dizia que só 20% dos universitários galegos tinham como Língua habitual a própria da Galiza, enquanto que o seu uso escrito se reduzia… a 2%; nada indica melhorias substanciais nos dias de hoje, quase 20 anos depois.

Assim, pois, vivemos uma realidade que podemos perceber muito bem com um singelo exemplo: na Galiza, quando morrem 100 pessoas maiores, estão morrendo 99 galegofalantes; quando nascem 100 meninos, estão a nascer 95 pessoas que vão ser educadas pelos seus pais em castelhano, com o que isto implica para o futuro.

Se o processo de interrupção de transmissão da Língua de pais para filhos não se detém em breve, quantas gerações de vida restam à nossa Língua na Galiza?

Eis aqui a situação actual do nosso Idioma ali onde ele veio à vida, a Galiza. Esta realidade facilmente comprovável evidencia ademais as falácias e inconsistências do discurso oficial das autoridades galegas, incluídas algumas das suas razões para a não aceitação de qualquer possibilidade de introduzir a nossa grafia como modelo para a escrita do Galego.

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Prémio Divergência 2016: respeitando a Convenção Ortográfica de 1945

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De forma a promover a ficção especulativa em Portugal na forma de romance em Língua Portuguesa, a Editorial Divergência dá início ao concurso “Prémio Divergência 2016”.

  1. Apenas podem concorrer textos inéditos, em língua portuguesa, respeitando a Convenção Ortográfica de 1945 e submetidos pelos próprios autores. Por inédito entendem-se textos que não tenham sido anteriormente publicados de forma profissional por terceiros, como um todo ou em parte, em formato físico ou electrónico. Textos anteriormente publicados em formato amador ou de auto-publicação podem ser aceites mediante análise individual.

  2. Podem concorrer autores residentes em Portugal Continental e Ilhas.

  3. Os textos submetidos terão de ter pelo menos 40000 (quarenta mil) palavras.

  4. Todos os textos submetidos deverão estar inseridos no género da ficção especulativa: Terror, Fantasia ou Ficção Científica.

  5. O prazo-limite de entrega por via electrónica nos moldes abaixo indicados é as 23:59 do dia 31 de Outubro de 2016, hora de Portugal Continental. Os textos enviados após essa data não serão considerados para efeito do concurso.

  6. Cada autor poderá submeter apenas um manuscrito.

  7. Os textos devem ser enviados para ed.divergencia@gmail.com com o assunto Prémio Divergência 2016. Serão aceites textos em formato .doc ou .odt, contendo como no cabeçalho de cada página o título, o nome do autor e o sub-género em que se insere. O autor receberá uma mensagem de resposta acusando a boa recepção do texto no prazo máximo de 48 horas após o envio.

  8. O manuscrito deverá ser formatado em Times New Roman, justificado (alinhado à esquerda e direita) com o tamanho de 11pt e um espaçamento de 1,5 linhas.

  9. Na primeira página de cada submissão deverá constar o título do texto, o nome do autor, idade, endereço electrónico, contacto telefónico e morada. A segunda página deve conter uma sinopse de obra com o máximo de 500 palavras.

  10. O resultado será tornado público até 31 de Dezembro de 2016 através do sítio da Editora. O autor será contactado previamente via correio electrónico.

  11. O manuscrito vencedor será publicado pela Editorial Divergência e o autor receberá um prémio monetário de 100 (cem) euros. Os direitos de autor serão pagos à parte.

  12. Os critérios para a selecção do vencedor serão parametrizados em termos da envolvência da trama, credibilidade e coerência das personagens e mundos criados, originalidade e fluidez narrativa.

  13. A Editora reserva-se no direito de propor ao autor alterações à obra premiada caso entenda que venham melhor adequá-la à futura publicação. Estas sugestões poderão ser alvo de contra-proposta por parte do autor. Caso não se chegue a bom entendimento de ambas as partes, a Editora reserva-se no direito de dar por anulado o prémio.

  14. A Editorial Divergência reserva-se na não atribuição do prémio por falta de qualidade dos manuscritos.

  15. Os direitos de autor são de 15% do preço de capa da obra em papel e 25% no caso dos livros em formato electrónico. Poderão ser pagos através da oferta de exemplares ou de transferência bancária. O modo de pagamento é escolhido pelo autor. A Editora retém o direito de publicação do manuscrito por um prazo de dois anos a contar da data de atribuição do prémio.

  16. O Júri será constituído por dois elementos pertencentes à Editorial Divergência e três convidados reconhecidos pela experiência no género.

  17. Não haverá recurso à decisão do júri.

  18. Qualquer situação omissa ou de interpretação dúbia neste regulamento deverá ser apresentada à Editora, sendo decidida pela administração da Editorial Divergência e comunicada no sítio.

  19. A apresentação da obra a concurso implica, por parte do autor, que este compreende e aceita todas as alíneas estipuladas no presente regulamento bem como as explicações fornecidas pela Editora de acordo com a alínea 18.

A equipa da Editorial Divergência

[Transcrição de: http://divergencia.pt/concurso-aberto-premio-divergencia-2016/]


logo_editorialdivergencia«A Editorial Divergência é uma editora centrada na ficção especulativa. Apostamos em exclusivo no mercado e escritores nacionais, promovendo uma relação de honestidade e confiança com os autores. Criamos edições acessíveis e de qualidade, com regularidade e sem acordo ortográfico.»
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«Grande desordem ortográfica» [Manuel Alegre]

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa (E), momentos antes de entregar o Prémio de Consagração de Carreira ao poeta e ficcionista Manuel Alegre (D), durante a cerimónia no âmbito do Dia Mundial do Autor português organizada pela Sociedade Portuguesa de Autores em Lisboa, 20 de maio de 2016. MÁRIO CRUZ/LUSA

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa (E), momentos antes de entregar o Prémio de Consagração de Carreira ao poeta e ficcionista Manuel Alegre (D), durante a cerimónia no âmbito do Dia Mundial do Autor português organizada pela Sociedade Portuguesa de Autores em Lisboa, 20 de maio de 2016. MÁRIO CRUZ/LUSA

Temos como PR um homem de cultura, consciente de que um país não é só números — Alegre

O histórico dirigente socialista Manuel Alegre afirmou que o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, é “um homem de cultura, consciente de que um país não é só números nem só finanças”.

Lisboa, 20 Maio (Lusa) — O histórico dirigente socialista Manuel Alegre afirmou hoje que o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, é “um homem de cultura, consciente de que um país não é só números nem só finanças”.

Na cerimónia da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), que celebrou hoje o Dia do Autor, e na qual recebeu das mãos de Marcelo Rebelo de Sousa o prémio de consagração de carreira, Manuel Alegre considerou que a presença do Presidente da República “significa o reconhecimento do papel desempenhado pela SPA na defesa de direitos cada vez mais ameaçados num mundo cada vez mais complexo”.

“A presença do Presidente confirma que temos à frente da República um homem de cultura, consciente de que um país não é só números nem só finanças e que sem desenvolvimento cultural não haverá nunca um desenvolvimento económico que faça de Portugal um país mais justo e mais competitivo”, enfatizou.

Começando por dizer que os “prémios não se agradecem”, Manuel Alegre disse-se “grato”, também ao Presidente da República, cuja presença “é um incentivo para todos os autores” e “um conforto e um estímulo” para si próprio.

A globalização não tem apenas uma lógica de economia única, tem também uma lógica de cultura e língua única, ou pelo menos dominante. Nessa perspectiva, a defesa e divulgação da nossa língua é uma prioridade nacional, mas não se conseguirá com a imposição de uma ortografia única, susceptível de dar origem a uma grande desordem ortográfica como salientou, entre outros, o professor Vitor Aguiar e Silva”, disse, numa referência ao acordo ortográfico.

O ex-candidato presidencial citou ainda Almeida Garrett — “temos de voltar à raiz, temos de ser nós mesmos” — palavras que diz serem “terrivelmente actuais neste momento em que poderes não legitimados que condicionam as decisões democráticas nacionais e restringem, como dizia Camões, a lusitana antiga liberdade”.

Na última vez que tinham estado na mesma cerimónia, no 25 de Abril, quando Manuel Alegre recebeu o prémio Vida Literária, o histórico socialista elogiou o discurso que o Presidente da República tinha proferido nas comemorações da Revolução dos Cravos, classificando-o de ‘abrilista’, porque retomou o espírito do 25 de Abril.

“Sempre tivemos boas relações pessoais e de amizade, não votei nele, como é natural. Da próxima vez já não sei, se isto continuar assim, se calhar voto. Os portugueses precisavam de afecto, de confiança e de esperança. Além dos cortes das pensões, e de tudo o resto, as pessoas tinham perdido a esperança, e ele está a restituir isso às pessoas. E isso é muito importante”, frisou nesse dia Manuel Alegre aos jornalistas.

JF (JGS) // JPS

Lusa/fim

Transcrição de: Impala // Ticker // Lusa // Temos como PR um homem de cultura, consciente de que um país não é só números — Alegre
Imagem de http://www.impala.pt/detail.aspx?id=229452&idCat=2170

Eish! C’um caraças!

Ora aqui está uma ilustração textual perfeita daquilo que Leibniz designaria como “chama da eloquência, não desfazendo”, que para Voltaire seria (nas acertadíssimas previsões de Pangloss) “o expoente máximo da ordem natural das coisas, ortograficamente falando”, mas que para mim, pondo-me abusivamente na bicha, salvo seja, de tão ilustres e sabedores mestres, não passa de uma valente m… treta.

Um dos mais extraordinários fenómenos da luta contra o genocídio ortográfico, jamais explicado porque é de facto inexplicável, consiste no facto de na dita (luta) aparecerem de vez em quando uns inacreditáveis cromos que se julgam a última bolachinha do pacote intelectual, longe vá o agoiro, e que por conseguinte se acham no direito de maçar as pessoas normais com a sua putativa genialidade, impingindo às ditas (pessoas normais) um paleio absolutamente hermético e ininteligível que nem os próprios autores conseguem entender. 

O texto que se segue é disso mesmo espectacular exemplo: do caldo palavroso ressalta que o fulano até será um bocadinho contra o AO90 (nunca fiando, vá lá, também pode ser um bocadinho a favor) mas isto ele é muito difícil de ler, impossível perceber seja o que for por entre tão intrincado, emaranhado, adjectivado, complicado, lixado… errrrrrrr… coiso… discurso, vá. 

Este fulano deve achar que é um génio, ou assim, e se calhar até é, não sei, já não sei nada, caramba, pois eu cá, vou confessar aqui sem quaisquer caganças e é já, não entendi porra nenhuma disto.

Acordo ortográfico e cidadania cultural

No caudal das relações entre os países membros da CPLP, flutua um denso caldo de vivências cujos eventos e fenómenos configuram um intenso contexto de interpenetrações históricas, numa permanente osmose de aquisições e contribuições sempre recíprocas, que se resumem numa interdependência coexistente, e jamais desigual, sujeita a manipulações subjectivas e a jogos ideológicos que o colonialismo, mesmo passadas 4 décadas de “grandiosas” metamorfoses históricas e políticas ocorridas no relevo dos respectivos países, ainda não conseguiu extirpar, oferecendo contexto a dissonâncias que tendem dramatizar o a amistosidade intrínsecos a uma relação multilateral em cujo substracto interesses de Estado, caprichos culturais, ambições económicas e valores outros, se entrechocam, geralmente legitimando crispações e arrivismos de mui suspeita índole e em cujos contextos, a desconfiança e a crispação, quase solenemente montam os seus arraiais. Ainda bem que esse flagelo se locomova de e para países (Estados) já cabal e vezeiramente identificados. Eis que, à nascença, imediatamente à sua institucionalização e sem amadurecer os respectivos desideratos estruturantes, conhecemos uma instituição comunitária algo dividida, cujos estados membros se relacionaram ao sabor de motivações ideológicas ainda depostas, desconfortavelmente ambíguas e ambivalentes, e rodeada de pretensões históricas algo imediatistas e unilateralistas.

Logo ao emergir da instituição comunitária, os respectivos países se permitem mergulhar numa cruzada estruturante denominada “acordo ortográfico”, por sinal, o seu primogênito e ainda mediático projecto, que vem despoletando um cenário de velada crispação na CPLP que antes de tudo, deveria constituir-se uma potencial tribuna de coesão e reafirmação institucional no âmbito do reforço da sua “rés” cultural, e só depois, sistematizar projectos ou programas comunitários englobantes ou englobalizantes, na perspectiva de se constituírem um suporte operacional existencial decisivo à dignificação da sua cultura diversa assim como da respectiva língua comum. Com o desiderato (um tanto prematuro) de impulsionar um acordo ortográfico, nomeadamente entre países que apesar de luso-falantes ou seus tradutores, objectivam conjunturas internas diferentes e que mantêm relacionamentos estruturais particularmente complexos com a língua comum. Pois, a dimensão antropológica, estruturante e socializante da língua portuguesa nas respectivas nações, apesar de ser basicamente funcional, é idêntica, porém culturalmente diferente, tanto na sua perspectiva técnica e enquanto factor, nicho e reduto de história e cultura, requer mesmo coerência histórica e veracidade política.

E como que inevitavelmente, dada a uniformidade técnico-formal e metodológica imprimida no processo de “vigamento do acordo”, a sua apressada e anarquizada sistematização semântica, tanto no escopo vocabular assim como na sua “decantação lexical”, lesam de forma sinuosa o seu cunho patrimonial e normativo. Ressaltam-se ainda, levemente, no seu segmento sistémico e antropológico, acepções filosóficas amiúde desajustadas dos factores e simbolismos de natureza propriamente político-histórica em colisão com a dimensão histórica de uma interação cultural que a língua portuguesa vem determinando, desde séculos, entre nações antropologicamente diferentes embora mantida em circunstâncias político-históricas desiguais; inibem a sua condição antropolócio-cultural, desvirtuando assim os seus diversos factores, traços e entes simbólicos mais substractuais.

O acordo ortográfico deverá ser, pois, o celeiro de toda uma unificação do seu caudal histórico “plural e também particular”, tendo em referência a autonomia e a versatilidade cultural necessárias à consolidação da universalidade de uma língua portuguesa que já constitui património multilateral da humanidade e que não deverá ser materialmente subsidiada nem objectivada em prol de expedientes académicos ou ideológicos desestruturantes, atrofiadores de contextos e de energias identitárias particulares a cada nação individual, cujas comunidades são evidentemente usuárias, emissoras e tradutoras de suas línguas intrínsecas e particulares à sua cultura originária.

O ocordo ortográfico, trata-se mesmo de um tratado cujos pressuposto devem, com acentuada coerência ideológica e deontologia académico-cultural, demanadar de um imperativo de democracia cultural, de que as sociedades contemporâneas bem carecem para harmonizar os diferentes tipos de relações, e que urgentemente podem constituir-se uma energia potencial para revigorar e reabilitar suas estruturas relacionais com cultura e história, enformando a fraternidade histórica de uma comunidade cultural justa e coerentemente inserida na “aldeia global”, livre de direcionamentos ideologizantes e paternalistas, longe de tentações exclusivas e hegemónicas, sem tentações polarizantes nem marginalizadoras e coisificadoras, de sujeitos, objectos e povos, respectivas história e cultura, tornando-as livres de serviçalismos que as condicione e consequentemente as relegue a uma indiferença e a um grossseiro niilismo global.

Evitando cair na vigorosa e absorvente armadilha dos modismos culturais e respectivas externalidades (a própria política), e na inextrincável tentativa de promover-lhe a devida abrangência dialéctica e epistemológia, o projecto comunitário linguístico CPLP carece de tempo fecundamente intelectivo, muita discussão sinergial, nas suas vertentes mais valorativas e académicas, em busca da objectivação da sua dimensão multicultural e pan-histórica, ao abrigo de iniciativas académicas mais abrangentes que se traduzam num investimento colectivo vigorosamente representativo desse grandioso embora ainda emergente, espaço linguístico, tornando-o um espaço socialmente dinâmico e culturalmente confluente, encaixado num “corpus linguístico” com dignidade e personalidade dimensionadas no concerto de diversas comunidades linguísticas, portanto, inseridas na hereditariede global das culturas no tecido da história universal como sujeito colectivo da humanidade.

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