AO90: «Um arranjinho entre Estados» [João Paulo Guerra – Antena 1]

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O Fio da Meada

João Paulo Guerra aponta as confusões de Marcelo Rebelo de Sousa entre as posições pessoais e as posições de Chefe de Estado, a propósito do Acordo Ortográfico.
| 13 Mai, 2016

O professor Marcelo Rebelo de Sousa confunde por vezes as posições pessoais com as posições de Estado. O que não é nada pacífico, porque Rebelo de Sousa é Chefe de Estado mas o Estado não é ele nem ele é o Presidente Sol. Foi uma confusão dessas que aconteceu quando Marcelo Rebelo de Sousa beijou o anel do Papa, na qualidade pessoal de católico, durante uma visita como Chefe de um Estado laico ao Vaticano. E o professor Marcelo reincidiu agora em Moçambique ao sugerir uma oportunidade para ‘repensar’ o ‘acordo ortográfico’. Devo confessar que me rebolei de gozo com as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa. Tenho o ‘acordo ortográfico’ atravessado na garganta e no teclado da caneta. As línguas evoluem, é claro, mas o ‘acordo ortográfico’ não corresponde a qualquer evolução natural da língua portuguesa; é um arranjinho entre Estados, com empresas na sombra. E é como tal que o ‘acordo’ aqui está, com data de 16 de Dezembro de 1990 e a assinatura, pela parte portuguesa, de Santana Lopes… na modalidade de Secretário de Estado da Cultura. E agora o que acontece é que lemos nos jornais brasileiros ‘online’ novidades sobre a actividade ou a crise “econômica” (com acento circunflexo, tal como “biblô” ou “complô”); também continuamos a ler notícias com trema e a tremer com certas notícias, o que não é a mesma coisa. Parece que o ‘acordo’ se aplica de uma banda só. E de ‘fato’ passámos a andar com a gravata do ‘acordo’ apertada no pescoço, espartilhados no colete ortográfico. Tão ridículo como isto: na língua inglesa há palavras derivadas do Latim que mantêm a consoante ‘C’ muda para abrir uma vogal, o que no Português, língua latina, foi abolido pelo ‘acordo’. Isto é a minha opinião mas eu não tenho responsabilidades institucionais — que o Chefe de Estado tem. O Chefe de Estado não pode assinar leis de fato e conspirar de facto contra o ‘acordo ortográfico’. Está em desacordo? Accione os mecanismos institucionais. Ou então temos o caldo das instituições entornado. E a sopa fria.


Foto de revista Lux.
Conteúdo apontado por Jorge Rabaça.

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