Dia: 8 de Junho, 2016

Os reis dos espalhanços

Essa foto de Bacalhau do Tuga é cortesia do TripAdvisor

«Das experiências mais traumatizantes que se podem ter na esplanada de um restaurante a pior é assistir a um português a encantar clientes estrangeiros aos gritos, tal é a vaidade que tem em falar estrangeiro tão bem.»

Sim, pois claro, e não é só nas esplanadas que a gente leva com esse número espectacularmente tuga. Sempre aos gritos, por tradição, quando não aos berros por convicção: o tuga acha que os estrangeiros entendem Português perfeitamente, são é todos muitíssimo surdos.

De qualquer forma, este mesmo fenómeno — misto de exibicionismo pacóvio e parvoíce congénita — explica a “adoção”, por boa parte da tugalândia, da “língua universal” que traficam  acordistas profissionais. Assim como alegremente abatem consoantes “mudas” na escrita, farejando impérios, novos tios ricos do Brasil, vão já também falando “à moda” brasileira. Nas esplanadas, nos cafés, nos restaurantes ou em qualquer tasca manhosa, por todo o lado vamos ouvindo coisas tão horripilantes como “eu trouxe ela” ou “eu disse a ele” e outras expressões idiomáticas metralhadas diariamente por inúmeras telenovelas brasileiras.

«A vergonha continua a ser um bem precioso», como diz, e muito bem, “nosso” MEC. E escasso, digo eu. Cada vez mais rara, a vergonha na cara.

logo_shareOs reis das esplanadas

Miguel Esteves Cardoso

08/06/2016 – 00:10

Sermos envergonhados por dá-cá-aquela-palha é uma coisa. Ser envergonhado por uma palhota é outra.

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Das experiências mais traumatizantes que se podem ter na esplanada de um restaurante a pior é assistir a um português a encantar clientes estrangeiros aos gritos, tal é a vaidade que tem em falar estrangeiro tão bem.

Esta semana fomos submetidos a duas horas de inglês atroz declamado para o benefício de todos os presentes, incluindo generosamente as mesas mais afastadas, como a nossa.

Os clientes britânicos eram Sikhs com antepassados nascidos na região Punjab da Índia. A combinação das boas maneiras e da valentia dos Sikhs com os bons modos e a cobardia dos gentlemen ingleses garantiram uma perfeitamente elegante galhardia.

You are Indian”, gritava o tuga, com a subtileza de Afonso de Albuquerque. Engoliu uma lasca de robalo escalado e continuou: “For chance don’t you know that it was a Portuguese queen, Catherine of Bragança, that offered all your country – all India, incluindo Bombaím – to your King Charles? Do you take tea? You like tea? In that case please reknow (reconheça?) that it was our Raínha Dona Catarina that put you all drinking tea. But, here in Portugal, we drink café: coffee. It is truth! Coffee is much better than tea. Tea is only for the people with problems of digestion”.

Senti um súbito desejo de morrer, solidário com a morte por tédio e estupidez dos dois cavalheiros Sikh do Reino Unido.

Sermos envergonhados por dá-cá-aquela-palha é uma coisa. Ser envergonhado por uma palhota é outra. A vergonha continua a ser um bem precioso.

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