Dia: 15 de Junho, 2016

De Moçambique: para quê um acordo quando não há desacordo?

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JornalDomingo_Moz_logoAcordo ortográfico

Voltou ao nosso convívio colectivo, enquanto cidadãos do espaço lusófono, a borbulhinha que, de algum tempo para cá, tem vindo à nossa mesa, umas vezes com alguma força, outras, nem tanto por isso, e desta vez, em minha sincera opinião, desnecessária.

Pretende-se concluir um acordo ortográfico da língua portuguesa para todos os cidadãos do mundo cuja geografia física coincide com a presença histórica de Portugal. Que escrevamos da mesma maneira! Na falta do que fazer, pretende-se procurar um problema que dê (e já está a dar) razão a reuniões, workshops, alianças, pontos de convergência, distinções e quê mais?

Nas duas/três semanas que anteciparam o 10 de Junho, assinalado esta sexta-feira, o tema teve muito privilégio, a discussão foi mais forte envolvendo os “ portugueses” de todos os cantos do mundo, uma verdadeira ressurreição de um acordo, que em seu benefício tudo se faz para que tome corpo a ideia de que para escrever a língua de Camões precisamo-lo.

As dificuldades que isso traz me impelem a, pela primeira vez, em jeito de pedido aos iluminados da CPLP, pelos vistos em Moçambique os há tantos, a avaliar pela sua contribuição na última semana, concordando ou discordando com o regresso ao debate que eu já havia classificado de desnecessário, colocar as questões que outros entendiam que eu as satisfaria.

Quiseram perceber comigo se haveria alguma razão de assinar um protocolo, sei lá, acordo, se nunca tivesse havido um desacordo em algum modo da vida dos países dessa comunidade. Não consegui responder. Havendo, qual tinha sido? Mais uma vez não consegui responder!

Quiseram saber de mim a razão por que Moçambique e Angola ainda não tinham assinado o famoso acordo ortográfico. Aqui precipitei-me a dar a minha opinião, sem a autorização destes países: penso que é por desconfiarem da sua pertinência.

Quiseram que lhes dissesse da origem da ideia que veio, nessa hipótese, a ser achada impertinente. Com algumas dificuldades que os meus limites não toleram, balbuciei pronunciando o nome do Brasil e, logo a seguir, de Portugal, que sem pestanejar aceitou o convite de assinar um acordo sobre matéria  da qual  nunca se ouvira falar em desacordo.

Quiseram saber se na minha opinião as línguas eram estáticas, e logo respondi que não, mas que me parecia que a mudança administrativa não era bem-vinda pensando que elas têm a vitalidade e dinâmica próprias, que não se compadece com decretos ou acordo bilaterais ou multilaterais.

Quando quiseram saber de mim, a razão por que alguns países tinham mudado a ortografia nos computadores, eu disse: isso, sim merece um acordo para descordar com a atitude, por cheirar a uma obrigação de a ele aderir, passando por cima dos cidadãos e parlamentos, e expliquei mais:

O facto é que mesmo o meu neto escreve como eu escrevo, não encontrando a razoabilidade duma medida contra ele, justamente porque não saberei explicar-lhe. Certamente que me perguntará quem decidiu e porquê, quererá saber se quando se é criança a língua aprende-se duma maneira e quando se cresce doutra.

Quiseram, então, saber o que é que eu faria no futuro se o meu parlamento aprovasse o acordo ortográfico. Dei a minha opinião: achar-me-ia de novo colonizado. Não perceberia doutra maneira, pois se alguma vez se explicou a razão por que tinha que aprender uma língua estranha, desta não poderei engolir a razão.

Por fim, diria que a língua portuguesa requerida pelos meios académicos traz-nos a certeza de que nunca será aquela com que o povo se comunica, por múltiplas razoes, das quais que o povo não fala nem escreve para ganhar o “ prémio Camões”. O povo quer comunicar no quadro da maior riqueza de que Moçambique se dispõe, a multiculturalidade, onde as línguas que dizem a verdade são diferentes, conforme o nosso país, lânguido em multilinguística.

Os académicos que se digladiaram esta semana a respeito do tema só ajudaram-me a entender que alguns defendem a língua como um bem de intelectuais ao contrário dos outros, do grupo com que me simpatizo, que entendem que a língua é um bem de todos.

Pedro Nacuo

[Transcrição integral do artigo “Acordo ortográfico” (publicado em 12.06.16), da autoria de Pedro Nacuo, editor do Jornal Domingo.]

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“Debate”? Que “debate”?

«Encontro inserido nos esforços da CPLP para fomentar o uso do português nas organizações internacionais»? “Fomentar” como, ao certo? A qual das variantes do Português se referem? À dos 40 milhões ou à dos 200 milhões? E quais serão essas “organizações internacionais”, hem? A FIFA? A McDonald’s? O Facebook? O Twitter? A Red Bull, que até dá asas e tudo?

“Debate”? Que “debate”? A expressão idiomática do Português europeu “atirar areia para os olhos” na outra variante chama-se “debate”?

 


Futuro da língua portuguesa em debate em Díli

Lusa 14 Junho 2016, 07:25

Especialistas de vários países reúnem-se esta semana em Díli para debater o futuro da língua portuguesa, num encontro inserido nos esforços da CPLP para fomentar o uso do português nas organizações internacionais.

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O encontro, promovido pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), marca a reta [sic] final da presidência de Timor-Leste da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

A “3.ª conferência internacional sobre o futuro da língua portuguesa no sistema mundial”, que decorre na quarta e quinta-feira, conta com intervenções em quatro eixos de debate, incluindo “português, língua pluricêntrica do século XXI” e “ensino e formação em língua portuguesa em contextos multilingues”.

No encontro, que decorre no Centro de Convenções de Díli, haverá ainda debates sobre “o potencial económico da língua portuguesa” e sobre o “português, língua de cultura, ciência e inovação”.

A conferência de abertura estará a cargo do ex-primeiro-ministro timorense Mari Alkatiri e está prevista a participação do ministro da Educação, Ciência e Ensino Superior de Cabo Verde, António Correia e Silva, e de outros representantes de Angola, Brasil, Moçambique, Portugal e Timor-Leste.

A presidente do Instituto Camões, Ana Paula Laborinho, a especialista brasileira Edleise Mendes, o professor Moisés Martins, da Universidade do Minho, o padre João Inocêncio Piedade e o presidente da comissão científica do IILP, Lourenço do Rosário, são outros dos participantes.

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«Grafias diferentes em Portugal e África» [Vasco Teixeira, rádio Renascença]

Nota prévia

Para melhor enquadrar a questão, apenas no que diz respeito ao AO90, conviria ouvir a gravação (ou ler as respectivas transcrições) das partes mais significativas do  depoimento de Vasco Teixeira, director da Porto Editora, em audiência (a 14.03.13) no Grupo de Trabalho parlamentar sobre o Acordo Ortográfico.

Manuais escolares grátis podem deixar dois mil sem emprego, avisa Porto Editora

logoRRBlue14 Junho 2016 – 23:56
Maria João Costa

O “Terça à Noite” da Renascença entrevista o administrador e responsável editorial do Grupo Porto Editora. Vasco Teixeira fala dos efeitos da gratuitidade e reutilização dos livros escolares que o Governo quer implementar, da crise no sector que registou quebras de 30% desde 2009, do acordo ortográfico mas também da Porto Editora, um dos maiores grupos editoriais que continua ser uma empresa familiar.

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A gratuitidade e reutilização dos manuais escolares no primeiro ano do ensino básico vai causar desigualdades entre alunos, desemprego e fecho de livrarias, afirma o administrador do grupo Porto Editora, Vasco Teixeira, em entrevista ao programa “Terça à Noite” da Renascença.

“Não têm sido claras nem bem explicadas”. O administrador e responsável editorial do Grupo Porto Editora fala assim das medidas que o Governo quer implementar a partir do próximo ano lectivo e que prevêem a gratuitidade e reutilização dos manuais escolares.

O responsável da editora, que nasceu em 1944 pelas mãos de 19 professores, considera que as medidas que ainda estão a ser analisadas exigem “ponderação e cuidado adicional”.

Recordando que a questão não constava do programa eleitoral do PS, Vasco Teixeira indica que o “tema entrou aceleradamente na agenda na negociação do apoio parlamentar” e que, na sua opinião, “na discussão do orçamento foram tomadas estas decisões de forma precipitada”.

Agora, diz, “está a tentar-se resolver como é que se vai implementar estas questões sem que a educação e os alunos mais carenciados sejam prejudicados.”

Contudo, o responsável da Porto Editora alerta para as desigualdades que a reutilização dos manuais escolares pode gerar. No “Terça à Noite” da Renascença, Vasco Teixeira é categórico: “O caminho aponta para aí”.

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