Dia: 29 de Junho, 2016

Espeleologia do Paleiolítico

http://pgl.gal/xxii-coloquio-da-lusofonia-decorrera-em-setembro-em-seia/Sucedem-se as notícias sobre o “potencial económico da língua“, essa inacreditável invenção que se baseia num mirabolante “universo de 340 a 400 milhões de falantes lusófonos“.

Por mero acaso, por extraordinária coincidência, esta colossal patranha apenas ocorreu a meia dúzia de iluminados quando outra meia dúzia impingiu à força o AO90 aos tais “340 a 400 milhões“.

É de tal forma evidente este nexo de causalidade que nem carece a coisa de grandes ou detalhadas explicações: basta saber ler, digo eu, e conseguir discernir alguma coisinha de entre o emaranhado paleio neo-colonialista, neo-imperialista e, em suma, neo-neanderthal.

Por exemplo, aqui vão dois textos, um mais noticioso (mais neolítico, digamos), o outro mais na base do paleio (do paleiolítico, portanto), publicados com poucos dias de intervalo.

Esmiucemos os dois nacos de prosa simplesmente lendo-os em sequência, um atrás do outro. Entre ambos (o paleiolítico e o neolítico) nota-se perfeitamente o tal nexo de causalidade: as grandiloquências de um servem de respaldo verborreico aos grandes negócios de que fala o outro.

E tudo à custa de uma língua lascada. A deles.

 

jn_default_imgA minha língua na tua

Afonso Camões, Director

05 Junho 2016

Olhemos o planisfério à procura de laços. Aí está. Há pelo menos uma nação no Mundo cuja capital está em cinco continentes: é a língua portuguesa, património comum de sete estados soberanos, adoçada e declinada com diferentes acentos e musicalidades em cada ponto da cartografia onde espetamos o alfinete de cabeça colorida.

Assim é, desta pontinha na Europa ao Brasil, de Cabo Verde a São Tomé, Angola e Moçambique, e também Timor. Podemos espetar ainda outro em Macau, onde o português, apesar de ser usado por uma minoria, partilha com o mandarim o estatuto de língua oficial.

Se isto não é mercado, onde é que está o mercado? Porque será que, em poucos anos, a língua portuguesa já é ensinada em quase duas dezenas de universidades chinesas? A resposta é de previsão estatística e vem-nos da UNESCO: até 2050, haverá entre 340 e 400 milhões de falantes lusófonos. E aqui, o sábio olho chinês para o mercado revela visão rasgada sobre o Mundo e o incerto futuro.

É que a língua portuguesa, tradicionalmente de cultura e diplomacia, pode e deve voltar a assumir a condição de língua global de comércio, como o foi no período da primeira globalização, com os Descobrimentos. A miragem imperial dissolveu-se há muito. Mas o português já é a quarta língua mais utilizada na Internet, a terceira mais utilizada no Facebook e no Twitter, e o poder económico do mundo lusófono, em crescimento, já representa 4% da riqueza mundial.

Não se percebe, a esta luz, que passados 20 anos, assinalados em breve, sobre a criação da CPLP não haja uma verdadeira aposta recíproca em transformar a geografia lusófona num verdadeiro mercado comum, facilitador de transacções e de livre circulação, pondo termo a esse negócio hipócrita e corrupto que se esconde por detrás da teia burocrática e da concessão de vistos para viagens ou comércio.

Numa comunidade de estados soberanos vigora o princípio da reciprocidade. Pelo que o ónus destes atavismos é de cada um e de todos os sócios, a começar por nós. Nas vésperas de um 10 de Junho que o presidente Marcelo leva pela primeira vez para fora de Portugal, para homenagear a nossa diáspora, e a poucos dias do 20.º aniversário da CPLP, é dever dos nossos políticos valorizar a língua como activo verdadeiramente estratégico, com futuro.

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