«São erros, senhores… Ou serão ideias supimpas?» [Nuno Pacheco, “Público”]

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logo_shareSão erros, senhores… Ou serão ideias supimpas?

Por Nuno Pacheco

12/08/2016 – 07:00

Eis meia dúzia de livros que, desde meados de 2015, vêm a tratar dessa coisa preciosa que é a língua portuguesa.

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Supimpa, diz-lhe alguma coisa? Aos dicionários diz. Registada desde há muito, tem origem no Brasil (quem lia as aventuras da Turma da Mônica tropeçava nela com frequência), é um adjectivo de dois géneros e quer dizer “muito bom, excelente, óptimo”. Há dicionários que se ficam por aqui e outros que acrescentam esta informação: “De origem duvidosa”. Mau… Pensa-se logo em mãe perdida, pai incógnito, tragédias. Mas nada disso. É mesmo supimpa.

Ora esta conversa vem a propósito de uma meia dúzia de livros que, desde meados de 2015, vêm a tratar dessa coisa preciosa que é a língua portuguesa, falada ou escrita. Os primeiros tratavam de erros. Mas sem nenhuma ligação com os ligeirinhos “em bom português” com que a televisão regularmente nos catequisa.

O primeiro, Dicionário de Erros Frequentes da Língua, de Manuel Monteiro (Sóregra Editores, Junho de 2015), vem explicar-nos de forma clara, concisa e bem-humorada, por que devemos, por exemplo, escrever e dizer ribaldaria e não rebaldaria, encapuzado e não encapuçado, cartapácio e não catrapázio, salgalhada e não salganhada, mas também as diferenças entre iludir e eludir, ímpio (sem fé) e impio (sem piedade) ou a inutilidade de dizer “implementar”, anglicismo que “nada acrescenta a palavras como aplicar, desenvolver, executar, efectuar, fazer, realizar, concretizar.”

Em Setembro de 2015, surgiram em simultâneo dois títulos com propósito idêntico ao do anterior: 500 Erros Mais Comuns da Língua Portuguesa, de Sandra Duarte Tavares (A Esfera dos Livros) e Em Português, Se Faz Favor, de Helder Guégués (Guerra & Paz). O primeiro (único deste lote a aplicar o acordo ortográfico de 1990, mas ainda assim com prefácio de Ricardo Araújo Pereira, um declarado anti-acordista) alinha de A a Z as 500 palavras ou frases incorrectas que contém, explicando depois as formas correctas (“corretas” no livro). Por exemplo: “continuam a haver”, corrigido para “continua a haver”; “resplandescente” para “resplandecente”; “Há dois anos atrás” para “Há dois anos” (o “atrás” é redundante”); “defenir” para “definir”, “mais valia” para “mais-valia”; e “contato” para “contacto”.

Já o livro de Helder Guégués, apresentado com “um guia fundamental para escrever bem”, não é propriamente um dicionário mas uma obra para se ler, como se diz na gíria, de fio a pavio. Baseando-se em múltiplos exemplos concretos (jornais, revistas, televisão, internet), o autor percorre palavras, verbos, expressões, modismos, ortografia ou pontuação, para, com conhecimento e ironia, revelar erros, confusões, maus usos e sugerir soluções. Como o uso de “por que” ou “porque”, “de encontro a” ou “ao encontro de”, “eminente” ou “iminente”. Ao lado dos anteriores, este é  complemento perfeito. E ajuda a repensar tudo.

Mesmo a fechar o ano, mais um: o Novo Dicionário da Comunicação, de vários autores e coordenado por Pedro Correia (Chiado Editora, Novembro de 2015). Este é mais destinado a descodificar os termos correntes relativos aos media, dos antigos (como Galáxia Gutenberg, rigor, jornalismo de investigação, até mesmo share) aos mais recentes (gmail, google, tweet, podcast, liveblog, flash mob, hacker, upload, etc). Maioritariamente anglo-saxónicos, claro.

Este ano, foi preciso chegar a Abril para encontrar novo título: Doze Segredos da Língua Portuguesa, de Marco Neves (Guerra & Paz, Abril de 2016). Não é um dicionário e será também para ler de uma ponta à outra, como um romance. Fala de erros, sim, mas também diz que alguns não são erros. De certo modo, insistindo no bem falar e bem escrever, é como um oásis no martírio dos que, lendo os anteriores, começam a julgar-se analfabetos. “Fazer a barba?” Porque não? Se, mesmo ao “fazê-la”, a cortamos, desfazendo-a? É a partir de alguns aparentes contra-sensos e alguns lugares-comuns que o autor vai desfazendo mitos sem perder de vista o essencial: a defesa da língua. O que implica ler muito. Ler mais. Errar e corrigir. Conversar. Brincar com as palavras. Falar com os filhos. Aprender outras línguas.

Por fim, para acabar onde começámos: o Dicionário de Palavras Supimpas, de José Alfredo Neto (também da Guerra & Paz, Junho de 2016), é um exercício bem-disposto sobre vocábulos que oscilam entre o erudito e o calão, mas sempre com uma explicação à medida. Começa em “abananado” e acaba em “zurzir”. É mesmo um dicionário, A a Z, mas pode ser lido como um tratado de curiosidades. Lembram-se da palavra “fanico”? Pois é “coisa má que dá a alguém, da ordem do desmaio.” E remete para “badagaio”, palavra que certamente muitos ouviram da boca das suas tias ou avós. Mas também descreve “morosidade”, e desta maneira: “Forma particularmente pouco expedita de dizer lentidão”. Leiam, divirtam-se e aprendam. Mas não “qualitativamente”: “Palavra que, quando surge num texto, praticamente assegura que o mesmo não presta para nada.” Não é o caso deste livro, como já se percebeu.

Com tanta palavra, só resta dizer: até Setembro! E no lugar do costume, que este tem dono e Francisco Teixeira da Mota há-de voltar a preenchê-lo como só ele sabe, no mês que vem.

Nuno Pacheco

[“Público”, 12.08.16. Acrescentei links. Imagem de: “blog” Planeta Ig (Brasil).]

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