Dia: 12 de Setembro, 2016

«Uma mixórdia do caneco» [Fernando Venâncio, Facebook]

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Fernando Venâncio to ACORDO ORTOGRÁFICO NÃO!

TUDO ISTO É PORTUGUÊS
TUDO ISTO É OFICIAL
TUDO ISTO É UMA MIXÓRDIA

Fernando Venâncio

Aquele tão ansiosa e impacientemente aguardado «VOCABULÁRIO ORTOGRÁFICO COMUM DA LÍNGUA PORTUGUESA», nascido do farto e promissor ventre do «AO90», põe em evidência o que já pudera supor-se, ou recear-se: a grafia do Português será, daqui em diante, uma mixórdia do caneco.

Eis uma pequenina amostra.

Como os dados estão dispersos, vai aqui uma lista obtida com os resultados das buscas por CONCEC, CONCEÇ, CONCEP e CONCET. Destaquei a letra P quando grafada.

Mas agora a boa notícia: não havendo, na versão TOTAL do «VOCABULÁRIO», nenhuma referência geográfica, é inviável determinar qual a grafia de cada país, e é portanto impossível IMPOR uma grafia a Portugal.

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Um acordista chateado com o acordo

O pôr-de-sol e o simplificacionismo no hífen

quinta, 08 setembro 2016
Por D’ Silvas Filho

1. Locuções e compostos semânticos

Com as suas características analíticas, quando não encontra um vocábulo para traduzir exatamente um conceito, a língua usa o artifício de formar um conjunto de vocábulos para esse fim. As locuções são um exemplo. No seu significado, equivalem a uma palavra que tivesse o mesmo sentido. Às vezes são redundantes com palavras já existentes (de novo → novamente), outras vezes parecem redundantes, mas apresentam subtis diferenças, como, por exemplo em cima de, que parece ter a mesma acepção que a palavra sobre, sugere de facto mesmo contacto, enquanto sobre pode ser também por cima de.

Sendo equivalentes a uma só palavra, as locuções são sentidas como uma unidade típica no seu significado e, por isso, grafadas sem hífenes. Têm um sentido significativo objetivo como a palavra que representam ou representariam.

Ainda nesta qualidade analítica, a língua inventou mais um recurso: ampliar a comunicação com a junção de vocábulos que formem uma unidade semântica transcendendo o significado objetivo das palavras do conjunto. É um jogo do faz-de-conta. Quando se diz que «ele é um saco-roto, pois não se lhe pode dizer um segredo», nesse “jogo”: faz-se de conta que ele é como um saco que está roto para os segredos.

A gramática distingue, então, `o sentido objetivo´ das palavras e esse `sentido subjetivo com que ficam no faz-de-conta´, com as designações denotativo para o objetivo e conotativo para o subjetivo. Ora os nossos bons escritores e linguistas idóneos conceberam uma forma de mostrar quando se está no “jogo”, para que haja rigor na escrita. A grafia usada revela que o sentido é conotativo quando os vocábulos estão ligados por hífen, diferentemente do que se faz nas locuções. Por exemplo, o conjunto «nascer do Sol», equivalente à palavra “amanhecer” é uma locução mas um cavalo-de-batalha, argumento insistente, não é um cavalo de batalha, animal usado na guerra.

Há o critério de se dizer que as palavras com hífen ficam com um sentido aparente (parecem ter um sentido real mas têm outro). Ora, como o que nos interessa é o sentido diferente com que ficam e não o que perdem, neste trabalho vamos designar esse sentido conotativo (que sugere, implica), por “sentido imaginativo”. Distinguindo de locuções, designamos estas associações de palavras no sentido conotativo por compostos (Norma de 1945: «combinação de palavras em que o conjunto dos elementos, mantida a noção de composição, forma um sentido único ou uma aderência de sentidos»).

Independentemente desta utilização figurada, o hífen tem múltiplas outras aplicações, como se sabe:

  • na ênclise e na tmese;
  • na realização de ortografias de pronúncias exatas, por exemplo, ob-reptício, mal-escolhido (sem hífen haveria retorno inconveniente da grafia sobre a fonia, e esta questão é sempre fundamental nas regras ortográficas, esquecida no Projeto de 1986);
  • na unidade de conceitos diferentes, por exemplo, tio-avô (uma aderência de sentidos);
  • na caracterização de uma subtileza de diferenças, por exemplo, primeiro-ministro (primus inter pares);
  • no respeito pela tradição, como em segunda-feira (semanas já sem feiras);
  • na conversão de locuções em nomes, exemplos: o à-vontade dele, as boas-festas;
  • nos gentílicos, como em norte-americano;
  • no recurso à qualidade analítica da língua para, com palavras de acepções objetivas, gerar compostos objetivos traduzindo conceitos impressivos (de função: conta-gotas, de forma: cê-cedilha, de aspeto: azul-escuro, etc.).

Em resumo, a aplicação do hífen só é um segredo para quem ignora os seus efeitos e virtudes, concebidos no génio dos nossos ancestrais. Eliminar o hífen, na fobia de simplificar ao máximo a língua, é tirar-lhe virtualidades.

2. Simplificacionismo do hífen no Projeto de 1986 e no AO90

Ora, na ideia peregrina de simplificar a língua ao máximo para assim conseguir um hipotético máximo de unidade entre idiomas já bem diferenciados, os obreiros do imponderado (e desnecessário tão drástico) Projeto de 1986, liquidaram muitas virtudes do hífen (as palavras ou aglutinavam sempre, e apareciam, entre muitos outros, os retornos que surpreendem de tão inconvenientes: bemaventurança, panelénico, ou ficavam sem hífen os «compostos aparentes», e lá vinham sem hífen guarda noturno, médico cirurgião, água de colónia, este também com inicial minúscula…, cor de rosa, primeiro ministro, mais que perfeito).

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