«Acentos sem assento» [Bagão Félix, “Público”]

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6 de Setembro de 2016, 11:10
Por António Bagão Félix

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A relação dos portugueses com os acentos não é pacífica, sejam eles agudos, graves ou circunflexos. E, já agora, também não é boa com alguns assentos, mais os lavrados do que os sentados. Já dizia Machado de Assis que “escrever é uma questão de colocar acentos”.

Há dias, a selecção portuguesa jogou com a equipa do rochedo britânico de Gibraltar, certamente para preparar os difíceis jogos de apuramento para o Mundial 2018 em que enfrentará as Ilhas Feroé e Andorra. Pois nesses dias, antes e durante a gloriosa vitória lusa, não houve vivalma nas televisões que tivesse pronunciado bem a palavra Gibraltar. Este nome não tem origem anglófona, antes deriva do árabe (corruptela de Jabal-al-Tariq, que significa monte de Tariq). Em vez de acentuarem a última sílaba, todos a transformaram em palavra grave pronunciando-a como “Gibráltar”. Felizmente que Trafalgar, outra palavra que é de origem árabe e não inglesa, já só faz parte da história, senão lá teríamos que gramar nos noticiários “Trafálgar” em vez de “Trafalgár”.

Estes são erros que, pela insistência, se tornaram “normais”. Já Horácio dizia nas suas Epístolas que “uma vez lançada, a palavra voa irrevogável.” E de tal sorte que, quando certas palavras são bem pronunciadas, é como se fossem mal ditas (e quase malditas…). Outro exemplo bem consolidado é Flórida em vez de Florida. Tal qual – saindo agora da geografia – quando em vez de se dizer acordos com o o fechado (ô) , se prefere erradamente pronunciar com esta vogal aberta (acórdos). Será que a moda vai chegar aos “abórtos”?

Já no domínio da saúde há, entre várias, três palavras que são, amiúde, mal pronunciadas: hepatite, bactéria e vacina. Se quanto a esta última a acentuação esdrúxula (cina) é mais regional do que nacional, quanto às outras duas, as televisões e a maioria dos profissionais de saúde preferem o esplendor do acento tónico deslocalizado e esdrúxulo, “hetite” em vez de se ler como palavra grave ou paroxítona. Caso ainda mais estranho, é ouvir-se “ctéria”, ou seja como se tivesse dois acentos, quem sabe se para melhor eficácia antibiótica…

Agora com o (des)acordo ortográfico, o velhinho acento circunflexo ficou também reduzido a uma insignificância e, em alguns casos, simplesmente despedido como nas palavras paroxítonas terminadas em duplo o. No futebol, por exemplo, teria que escrever: abotoo a bota, enjoo com os truques de certos jogadores, roo as unhas em alguns jogos, moo o juízo depois de uma derrota, abençoo a sorte que, por vezes, é preciso ter. Mas não voo como a águia, nem leiloo o meu cartão de sócio.

Enfim, uma plétora de erros e alterações a despropósito, perdão pletora.

Source: Acentos sem assento – Tudo Menos Economia – PÚBLICO

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2 Comments

  1. Voluntarioso, mas, diz “deslocalizado” e baralha o acento tónico com o timbre de vogais átonas, entre outras
    Cumpts.

    1. Entre outras baralhadas. Texto fraquinho, que reproduzi apenas por causa dos comentários (também fraquinhos mas é o que há).

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