Dia: 20 de Outubro, 2016

«Um acordo que nunca o foi» [revista “Caliban”]

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Um acordo que nunca o foi, um estulto alvoroço, escusado

Hugo Pinto Santos

«Ó meu coração torna para trás.
Donde vais a correr, desatinado?
Meus olhos incendidos que o pecado
Queimou… Voltai horas de paz.
Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brasido.
Noites da serra, o casebre transido…
— Cismai meus olhos como dois velhinhos.
Extintas primaveras evocai-as:
— Já vai florir o pomar das macieiras,
Hemos de enfeitar os chapéus de maias —
Sossegai, esfriai, olhos febris.
— E hemos de ir cantar nas derradeiras
Ladainhas… Doces vozes senis…»

Camilo Pessanha, ‘Clepsydra’  —  Poemas de Camilo Pessanha, posfácio e fixação do texto de António Barahona

 

«Pára noite stop night disse alguém
para que eu pudesse pousar as mãos mais uma vez
sobre a máscara preferida: eu sou um egípcio triste
tomado por dois tons de azul
um rapaz tão ortodoxo — não não:
eu sou o rei Cophetua sentado sob o
vermelho
o negro
das catedrais de Rothko
mas pára noite pára
para que devagar leia o meu horóscopo»

(gémeos, 1974)
João Miguel Fernandes Jorge, ‘Alguns Círculos’

 

É sabido que Portugal tem sido pródigo em reformas e alegados acordos para normalizar, regular, ou (des)ordenar, a ortografia nacional. Os anos de 1911, 1945 e 1990 são os marcos decisivos (com datas intermédias a fornecerem acrescentos) nessas tentativas que acabaram por alcançar um estádio de derradeiro desserviço. É que, no caso da última data, é quase ocioso relembrar, tornou-se, hoje em dia, de um cinismo insuportável falar de «acordo». Nunca se tratou de qualquer concertação entre partes. Nunca — mais importante — esteve, realmente, em apreço o estudo demorado e desinteressado da realidade dinâmica da língua, a pertinência e validade das mudanças a aplicar, sem considerandos de ordem economicista, nem pressões advindas da órbita comercial. Esse ponto é, possivelmente, um do que mais se devem ter em conta.

Em 1911, o trabalho em grande medida centrado num admirável Aniceto dos Reis Gonçalves Viana — nome muito injustamente esquecido — pretendeu normalizar, organizar e estandardizar o que andava sem razão, método, nem ordem — «Nunca existiu ortografia uniforme em Portugal.», escrevia Gonçalves Viana em Ortografia Nacional — Simplificação e Uniformização Sistemática das Ortografias Portuguesas, de 1904. A grafia da língua portuguesa não passava de um amontoado de decisões pessoais, de erros persistentes e de hesitações desorientadoras. Foi graças à reforma de 1911 que se eliminaram as falsas etimologias, os apegos desnecessários à tradição, as formas ambíguas.

O labor de 1945 — o mais equilibrado dos três — eliminou caracteres persistentes, como sequências grafémicas de carácter histórico — por exemplo, «th», ou «mn» –, mas também extinguiu diacríticos que (na opinião muito pessoal, demasiado, porventura, do autor destas linhas) poderiam ser auxiliares preciosos, como o trema — além da supressão do acento circunflexo em formas homógrafas, como «cerca» e «cêrca»*, que alguns poetas, como Herberto Helder, ou António Barahona, ressuscitaram. A verdade é que, em comparação com o seu triste sucessor, o acordo de 45 fixou um sistema ortográfico que, por um lado, sem ser absolutamente etimológico (manutenção da queda do «y», que já vinha de 1911), preservava ainda alguma relação com as raízes principais que estão na origem da língua portuguesa: nomeadamente, o latim e o grego (sem esquecer outros veios dessa génese que não sofreram dano). O que não sucede com o designado Acordo Ortográfico de 1990. Cada vez mais o português se afasta, não se dirá das línguas cultas, para não incorrer na demagogia do politicamente incorrecto, mas, sem dúvida, de um paradigma da actualidade como é o idioma inglês.

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