Dia: 29 de Outubro, 2016

Teorias da conspiração?

fotoam«Surge inclusive a ideia de que se tentou eliminar o nome de Macedo da história do cinema português, ocultando o papel seminal da sua primeira longa-metragem, ‘Domingo à Tarde’. Se durante muito tempo esta era citada, a par de ‘Os Verdes Anos’, de Paulo Rocha, e ‘Belarmino’, de Fernando Lopes, como um dos filmes fundadores do Cinema Novo, aos poucos foi sendo desvalorizada ou simplesmente deixou-se de mencioná-la. “Penso nessa questão da conspiração”, diz João Monteiro, não obstante crer que estas coisas acontecem sem intenções maquiavélicas, provavelmente sem os “perpetradores” darem conta dos possíveis resultados das suas acções (ou omissões). “Não gostavam do Macedo, optaram por não falar dele. A verdade é que ninguém pensa: ‘Se continuarmos a fazer isto, qualquer dia ele é esquecido.’»

 

ipsilon_logoA conspiração contra António de Macedo

João Lameira

26/10/2016 – 14:20

A encerrar o Doclisboa, um documentário dominado pela derrota de um cineasta: o seu papel no Cinema Novo tem sido rasurado, ele próprio desistiu de tentar obter subsídios, ao ter percebido que jamais lhos voltariam a dar.

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Maria João Seixas, à altura directora da Cinemateca Portuguesa, está sentada ao lado de António de Macedo, em frente ao ecrã da Sala Félix Ribeiro. Sobre a mesa coberta com um pano escuro repousa um chapéu creme de aventureiro, cuja presença ali é quase tão estranha quanto a do seu dono. Vai dar-se início à retrospectiva integral da obra do realizador, com a exibição de O Princípio de Sabedoria, um filme que poderia ser considerado mal amado se alguém o tivesse visto. João Monteiro está lá para captar esse momento de reconhecimento da importância de Macedo para o cinema português. E é com essas imagens que fecha Nos Interstícios da Realidade ou o Cinema de António de Macedo, um pequeno triunfo num documentário dominado pela grande derrota do cineasta de 85 anos: não filma há mais de duas décadas, tendo desistido há muito de tentar obter quaisquer subsídios, ao ter percebido que jamais lhos voltariam a dar.

Passaram entretanto mais de quatro anos desde essa noite de Junho e mais uns quantos ainda desde que João Monteiro, um dos directores do MOTELx, teve a ideia de fazer um filme sobre a obra de Macedo, por não se conformar com o desprezo a que foi votada. De entre as várias pessoas entrevistadas para o documentário – desde os cineastas contemporâneos Fernando Lopes, Alberto Seixas Santos, António-Pedro Vasconcelos, José Fonseca e Costa, António da Cunha Telles, Henrique Espírito Santo, ou seja, a geração do Cinema Novo, até a críticos e historiadores como Jorge Leitão Ramos, Lauro António, José de Matos-Cruz, Leonor Areal, passando pelos filhos Susana de Sousa Dias (também realizadora) e António de Sousa Dias (músico e compositor da banda sonora dos últimos filmes do pai) –, algumas apontam uma possível conspiração para impedir Macedo de voltar a filmar após a estreia de Chá Forte com Limão, a sua última obra de ficção, em 1993. Os actores Sinde Filipe e Eugénia Bettencourt, presenças recorrentes na filmografia do realizador, estão mesmo convencidos de que o anátema se estendeu às suas próprias carreiras.

Surge inclusive a ideia de que se tentou eliminar o nome de Macedo da história do cinema português, ocultando o papel seminal da sua primeira longa-metragem, Domingo à Tarde. Se durante muito tempo esta era citada, a par de Os Verdes Anos, de Paulo Rocha, e Belarmino, de Fernando Lopes, como um dos filmes fundadores do Cinema Novo, aos poucos foi sendo desvalorizada ou simplesmente deixou-se de mencioná-la. “Penso nessa questão da conspiração”, diz João Monteiro, não obstante crer que estas coisas acontecem sem intenções maquiavélicas, provavelmente sem os “perpetradores” darem conta dos possíveis resultados das suas acções (ou omissões). “Não gostavam do Macedo, optaram por não falar dele. A verdade é que ninguém pensa: ‘Se continuarmos a fazer isto, qualquer dia ele é esquecido.’ E foram-se escrevendo histórias de cinema sobre histórias de cinema que o punham de lado, falavam apenas de passagem”, continua. “Depois passou a ser moda. Sempre que saía um filme dele, os novos críticos, que liam os velhos críticos, continuavam a tradição. Ninguém tinha coragem, dentro do meio, de dizer que gostava do António de Macedo. Isso foi uma das coisas que descobri ao início, quando perceberam que eu estava a fazer o filme. Muita gente vinha ter comigo e dizia ‘Anda bem que estás a fazer isto, eu gosto muito dele’, mas assim baixinho”.

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