«Por umas letrinhas apenas» [Nuno Pacheco, “Público”]

publico_np_271016

Por umas letrinhas apenas

Nuno Pacheco

Público, 27.10.16 (pg. 47)

“Não me preocupo se estou a aplicar ou não” o acordo ortográfico. Quem o diz é o secretário executivo da CPLP

«Não foi há muito tempo. No dia 10 de Outubro, na Gulbenkian, na sessão de atribuição dos prémios do património cultural (a mesma sessão onde foram distinguidos Eduardo Lourenço e Plantu), uma das oradoras, ao explicar as actividades que justificavam o prémio, disse por várias vezes “actividades” sublinhando o C. Não foi engano, porque nunca disse “âtividadej”, como faz a maioria, disse sempre “âktividadej”. Falará ela “à antiga”, como por aí se diz? Ou pura e simplesmente tem da palavra o sentido primeiro, próximo do étimo latino? A discussão pode parecer uma bizarria, mas não é. Porque quando se instituiu que o acordo ortográfico de 1990 era mesmo para ser imposto, um dos grandes argumentos que o sustentavam, além da pretensa “simplificação” da escrita, era a “facilitadora” submissão à oralidade em detrimento da etimologia. “Não se lê, não se escreve” ou “o que não se pronuncia não se escreve!” foram regras que andaram insistentemente a soprar-nos aos ouvidos. Mas como é possível pôr alguém que diz “aktívidade” a escrever “atividade”? Escreve o C porque o diz? Ou altera a fonética?»

«Isto passa-se com inúmeras palavras, às vezes de forma caricata. Por exemplo: há quem diga “expectativas”, sublinhando o C, e quem diga “expétâtivas”. O que faz o acordo? Fácil, permite dupla grafia, coisa que já existia antes, mas só de país para país. Agora é transfronteiriça. O mesmo com “características”, onde muita gente pronuncia o C em ct, ou “carácter”, onde é generalizada a omissão desse mesmo C.»

«E a regra da fonética, quando é que se aplica? Na verdade, a regra da fonética é pura tolice, como facilmente se comprovará. A ser assim, o verbo “Estar” teria de mudar. Ninguém diz, em voz corrente, “estou a almoçar” ou “estás a aprender muito devagar” ou “estamos fechados, volte mais tarde”; diz-se ’tou, ’tás, ‘tamos. Se a regra da fonética fosse para valer, teríamos o verbo Tar: eu tou, tu tás, ele tá, nós íamos, vós tais, eles tão. Bonito? Há pior. Querem ver como se altera o som de uma palavra pela escrita? Veja-se, por exemplo, “co-adopção”. Assim, lê-se “cô” (de “com”, daí a acentuação do “o”) “âdóção”. Se retirarmos o P, leremos por impulso “cô-adução“; mas se tirarmos o hífen, leremos “cuadução”, porque nas palavras onde o “co” perdeu vida própria essa é a tendência vocálica dominante.»

«Um exemplo inglês, que andou por aí muito em voga devido ao nome de um clube. Leicester, como Worcester ou Gloucester, perde na fala o “cê” do meio. Lê-se Leister, Worster, Glouster. Pelo extraordinário acordo português, mudariam de grafia. Só que os ingleses não são loucos e sabem, como também deveríamos saber, que a escrita e a fala são disciplinas distintas.»

«Por cá, há quem vá percebendo isso. Até quem menos se esperava. Na sua reunião de 2010, em Sintra, a CPLP fez questão de reafirmar que o acordo ortográfico era “um dos fundamentos da Comunidade e um instrumento essencial para a unidade da Língua Portuguesa.” Agora, o ainda secretário executivo da CPLP, o moçambicano Murade Murargy, disse há dias em entrevista  à Agência Brasil o seguinte: “Não me preocupo se estou a aplicar [o acordo ortográfico] ou não. Se as pessoas me entendem, vamos em frente”. E disse mais: “Quanto ao acordo ortográfico, muita gente não está de acordo, há muitos intelectuais,  jornalistas, que não aplicam, pois acham que não traz vantagens. Não há uma unanimidade sobre se valeu a pena, ou não, o tanto de dinheiro  que se gastou. As implicações financeiras da aplicação do acordo são grandes.”  Um problema que ele realçou foi o dos manuais escolares. “Acredito que devemos concentrar-nos no que é fundamental para permitir que os outros [países-membros] possam se desenvolver.”»

«Querem traduzir isto para uma fala simplificada e mais fonética? Eu traduzo: vão para o diabo mais as normas de um acordo que não unifica (há mais palavras diferentes agora do que havia antes), não padroniza, não simplifica, não melhora nem toma mais  “intemacionalizável” a língua portuguesa.  Alguns já perceberam a fraude há muito tempo, outros têm vindo a percebê-la com  o passar dos meses e dos anos. Falta apenas uma coisa: coragem para acabar com isto.»

Nuno Pacheco

Jornalista. Escreve à quinta-feira
npacheco@publico.pt


[Artigo digitalizado (OCR) da versão em papel. Acrescentei “links”.]

Print Friendly, PDF & Email
Share

1 Comment

  1. Maria Oliveira

    Muito, muito, muito bem! Claro, escorreito, “limpinho, sem espinhas”! Tão directo ao assunto que este texto será dado em cópias aos meus alunos, porque já lhes expliquei a tramóia do chamado “AO90”, ensinei-lhes o que é uma ILC (Iniciativa Legislativa de Cidadãos), que há sabujos (não, não usei esta palavra) no Parlamento que (NÃO!) nos representam, expliquei a caricatura da “Política: a Grande Porca” de um dos irmãos Bordalo Pinheiro, demonstrei que o aberrante “Acordo Ortográfico” NÃO É obrigatório coisa nenhuma e que é, pelo contrário, uma ilegalidade até à luz do Direito Internacional, que no nosso Património ninguém (deveria) mexe(r)!
    Assim, deverão, como seres pensantes, verticais (quanto mais tempo o forem, melhor, prova de que não se venderam ainda) e vivendo no século XXI, decidir se o que os professores anteriores a mim lhes impuseram como “obrigatório”lhes interessa como cidadãos de pleno direito.
    Sim, os meus alunos PENSAM (a isso os obrigo)!
    Sim, nenhum aceitou, ainda, o “Acordo”, porque o sabem falacioso!
    Não, nunca nenhum, do 7º ao 12º deixou de compreender as minhas razões, as razões de todos os que se insurgem e TODOS concordam.

    Quando me perguntam se podem, então, usar o Acordo de 1945, o de “antes do Português com erros”, explico-lhes, mortificada, que, por vezes, temos de obedecer parcialmente (em Exame, são-lhes “descontados pontos”, o que afastaria o sonho de uma média de entrada num curso superior…) e, tal como no “1984”, de Orwell, fingir, temporariamente, que quem manda é o Grande Irmão… Jogar o jogo “dele”. Na “clandestinidade”, seremos sempre nós a mandar nas nossas consciências, a decidir dos nossos destinos. Os mais novos suspiram pelos 18 anos. Os mais velhos subscrevem esta ILC e hão-de subscrever muitas mais, no futuro, porque PENSAM, porque cada um CONTA, porque se alguns adultos não lhes mostram que sim, podem ser subversivos, não haverá 25 de Abril que nos valha.
    Para podre, já nos basta o conformismo dos adultos que lhes disseram duas palavras com um ponto final: “É obrigatório.”
    Como dizia um outro senhor, “Não há machado que corte a raiz ao pensamento”. Se estes crescerem a pensar por si, haverá sempre esperança, a velhinha “disposição do espírito que induz a esperar que uma coisa se há-de realizar ou suceder”. Por definição, num país de conformados, ter esperança é subversivo. Creio que é dessa massa que se molda o carácter.

Comments are closed.