Teorias da conspiração?

fotoam«Surge inclusive a ideia de que se tentou eliminar o nome de Macedo da história do cinema português, ocultando o papel seminal da sua primeira longa-metragem, ‘Domingo à Tarde’. Se durante muito tempo esta era citada, a par de ‘Os Verdes Anos’, de Paulo Rocha, e ‘Belarmino’, de Fernando Lopes, como um dos filmes fundadores do Cinema Novo, aos poucos foi sendo desvalorizada ou simplesmente deixou-se de mencioná-la. “Penso nessa questão da conspiração”, diz João Monteiro, não obstante crer que estas coisas acontecem sem intenções maquiavélicas, provavelmente sem os “perpetradores” darem conta dos possíveis resultados das suas acções (ou omissões). “Não gostavam do Macedo, optaram por não falar dele. A verdade é que ninguém pensa: ‘Se continuarmos a fazer isto, qualquer dia ele é esquecido.’»

 

ipsilon_logoA conspiração contra António de Macedo

João Lameira

26/10/2016 – 14:20

A encerrar o Doclisboa, um documentário dominado pela derrota de um cineasta: o seu papel no Cinema Novo tem sido rasurado, ele próprio desistiu de tentar obter subsídios, ao ter percebido que jamais lhos voltariam a dar.

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Maria João Seixas, à altura directora da Cinemateca Portuguesa, está sentada ao lado de António de Macedo, em frente ao ecrã da Sala Félix Ribeiro. Sobre a mesa coberta com um pano escuro repousa um chapéu creme de aventureiro, cuja presença ali é quase tão estranha quanto a do seu dono. Vai dar-se início à retrospectiva integral da obra do realizador, com a exibição de O Princípio de Sabedoria, um filme que poderia ser considerado mal amado se alguém o tivesse visto. João Monteiro está lá para captar esse momento de reconhecimento da importância de Macedo para o cinema português. E é com essas imagens que fecha Nos Interstícios da Realidade ou o Cinema de António de Macedo, um pequeno triunfo num documentário dominado pela grande derrota do cineasta de 85 anos: não filma há mais de duas décadas, tendo desistido há muito de tentar obter quaisquer subsídios, ao ter percebido que jamais lhos voltariam a dar.

Passaram entretanto mais de quatro anos desde essa noite de Junho e mais uns quantos ainda desde que João Monteiro, um dos directores do MOTELx, teve a ideia de fazer um filme sobre a obra de Macedo, por não se conformar com o desprezo a que foi votada. De entre as várias pessoas entrevistadas para o documentário – desde os cineastas contemporâneos Fernando Lopes, Alberto Seixas Santos, António-Pedro Vasconcelos, José Fonseca e Costa, António da Cunha Telles, Henrique Espírito Santo, ou seja, a geração do Cinema Novo, até a críticos e historiadores como Jorge Leitão Ramos, Lauro António, José de Matos-Cruz, Leonor Areal, passando pelos filhos Susana de Sousa Dias (também realizadora) e António de Sousa Dias (músico e compositor da banda sonora dos últimos filmes do pai) –, algumas apontam uma possível conspiração para impedir Macedo de voltar a filmar após a estreia de Chá Forte com Limão, a sua última obra de ficção, em 1993. Os actores Sinde Filipe e Eugénia Bettencourt, presenças recorrentes na filmografia do realizador, estão mesmo convencidos de que o anátema se estendeu às suas próprias carreiras.

Surge inclusive a ideia de que se tentou eliminar o nome de Macedo da história do cinema português, ocultando o papel seminal da sua primeira longa-metragem, Domingo à Tarde. Se durante muito tempo esta era citada, a par de Os Verdes Anos, de Paulo Rocha, e Belarmino, de Fernando Lopes, como um dos filmes fundadores do Cinema Novo, aos poucos foi sendo desvalorizada ou simplesmente deixou-se de mencioná-la. “Penso nessa questão da conspiração”, diz João Monteiro, não obstante crer que estas coisas acontecem sem intenções maquiavélicas, provavelmente sem os “perpetradores” darem conta dos possíveis resultados das suas acções (ou omissões). “Não gostavam do Macedo, optaram por não falar dele. A verdade é que ninguém pensa: ‘Se continuarmos a fazer isto, qualquer dia ele é esquecido.’ E foram-se escrevendo histórias de cinema sobre histórias de cinema que o punham de lado, falavam apenas de passagem”, continua. “Depois passou a ser moda. Sempre que saía um filme dele, os novos críticos, que liam os velhos críticos, continuavam a tradição. Ninguém tinha coragem, dentro do meio, de dizer que gostava do António de Macedo. Isso foi uma das coisas que descobri ao início, quando perceberam que eu estava a fazer o filme. Muita gente vinha ter comigo e dizia ‘Anda bem que estás a fazer isto, eu gosto muito dele’, mas assim baixinho”.

Embora António de Macedo seja o objecto de Nos Interstícios da Realidade – além do depoimento filmado para o documentário, o cineasta aparece em reportagens e entrevistas repescadas aos arquivos da RTP (uma das razões para Interstícios ter demorado tanto tempo a ser concluído teve que ver com a dificuldade em garantir estas imagens, assim como os excertos dos filmes, adquiridos à Cinemateca) –, o ponto de vista não é necessariamente o seu. A quantidade de testemunhos retira-lhe até algum protagonismo. De resto, João Monteiro assume-se tão interessado na recepção à obra de Macedo, no contexto em que foi produzida, como na obra em si. “Uma coisa é fazeres um documentário só com o Macedo a contar histórias. É muito giro, muito divertido, mas é a visão dele, vale o que vale. Se pões um universo de pessoas variadas a falar daquilo, ganha-se outro contraste.”

“Como percebi desde o princípio que ia ser complicado arranjar financiamento para o filme, para não perder tempo e não perder embalagem, comecei a entrevistar pessoas, o que partiu também de um trabalho de pesquisa. Depois começou a ser interessante perceber, logo nas primeiras entrevistas com Seixas Santos, Fernando Lopes, António-Pedro Vasconcelos, Fonseca e Costa, que havia ali qualquer coisa por dizer. Muitos deles ficaram surpreendidos e aproveitaram para falar sem terem medo das consequências, sem serem politicamente correctos”, prossegue. O caso mais evidente dessa necessidade de falar terá sido o de Vasconcelos. Segundo o autor do documentário, este parecia estar à espera que alguém lhe viesse perguntar por António de Macedo, para se poder desculpar da crítica extremamente negativa que escreveu sobre a A Promessa. João Monteiro afirma ter ficado a admirar mais ainda o realizador de O Lugar do Morto e Os Imortais pela coragem de se ter exposto assim.

Vista de fora ou vivida por dentro, é sobretudo em volta da obra de António de Macedo que o documentário gira. Monteiro foi obrigado a reduzir o tempo de antena a alguns episódios marcantes – como o do escândalo de As Horas de Maria, que envolveu ameaças de mortes, chamadas anónimas, protecção policial e pancadaria à porta do Nimas – e a excluir quase completamente a vida extracinema de Macedo (a biografia propriamente dita, a carreira de escritor de ficção científica, depois de ter deixado de poder filmar, entre muitas outras coisas), para não ficar com um filme interminável nas mãos. É curiosa também a insistência na primeira parte da obra em detrimento dos filmes dos anos 80 e 90, nos quais o fantástico e as ciências ocultas ganham terreno face à crítica social, à réstia de naturalismo. “A imagem que as pessoas têm do António de Macedo, a imagem que eu tinha do António de Macedo era a do velhinho maluco do esoterismo, de Os Abismos da Meia-Noite. Apostei em falar mais dos primeiros filmes para destacar a importância que ele teve dentro do seio do Cinema Novo, do cinema moderno português, diz Monteiro. “Ninguém sabe o que é o Nojo aos Cães, o Domingo à Tarde talvez, mas ninguém sabe o que é o Sete Balas para Selma, ninguém sabe o que é A Promessa, onde é que A Promessa foi parar.”

Para João Monteiro, o principal objectivo de Nos Interstícios da Realidade, assim como o do trabalho desenvolvido com a equipa de programadores do MOTELx, onde ainda este ano foi exibida uma nova montagem de O Segredo das Pedras Vivas, série realizada por Macedo para a televisão, é gerar interesse suficiente pela obra do realizador para que esta seja disponibilizada em DVD e, assim, estar acessível ao maior número de pessoas. Dessa maneira, poderia granjear novos entusiastas, quando mais não fosse pela excentricidade em relação ao restante cinema nacional. Monteiro defende que essa recuperação deve ser extensível a outros esquecidos pela história oficial do cinema português, casos de Manuel Guimarães, Ernesto de Sousa e Bárbara Virgínia (a primeira mulher a realizar uma longa-metragem em Portugal). Para tal, é necessários ver os filmes, conhecê-los. “Começou-me a fazer um bocado de confusão ler-se em todo o lado que o Cinema Novo apareceu como uma lufada de ar fresco, contra o cinema indigente que se fazia na altura. A questão é: que cinema era esse? Toda a gente diz que os filmes nos anos 50 eram horríveis. Mas que filmes é que foram feitos nos anos 50? Ninguém sabe. Se ninguém vir esses filmes, com o olhar de hoje, vamos estar a sempre repetir a mesma história”, conclui.

[Revista “Ipsilon” (suplemento do jornal “Público”), 28.10.16 – pgs. 14/15.]

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