Dia: 4 de Novembro, 2016

Ciências da morte [por Olga Rodrigues]

«The United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO) (In French: Organisation des Nations unies pour l’éducation, la science et la culture) is a specialized agency of the United Nations (UN) based in Paris. Its declared purpose is to contribute to peace and security by promoting international collaboration through educational, scientific, and cultural reforms in order to increase universal respect for justice, the rule of law, and human rights along with fundamental freedom proclaimed in the United Nations Charter. It is the heir of the League of NationsInternational Committee on Intellectual Cooperation.»
[Wikipedia]

 

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Prémio Internacional UNESCO | Guiné Equatorial para a Investigação em Ciências da Vida (ou da Morte?)

Subsídios para a formação de uma distinta classe de inteletuais

A guiné equatorial (assim mesmo, com letra minúscula), estado soberano, patrocina um prémio para a Investigação em Ciências da Vida. A UNESCO empresta-lhe a credibilidade e o prestígio do seu nome para o tornar visível na esfera internacional.

A notícia, sintomaticamente, aparece no “site” da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto englobada no item “Fontes de Financiamento / Bolsas / Oportunidades”.

Será uma boa oportunidade ganhar um prémio monetário no valor de US $300,000, além de um diploma e uma medalha? Com certeza. Tal distinção confere prestígio a quem a obtém? Dificilmente.

É simplesmente um expediente, uma fonte de financiamento que se pode obter de forma rápida, mas que, ao contrário do que os seus promotores pensam, não confere qualquer tipo de prestígio nem de distinção tanto a quem obtém o prémio, como a quem o confere.

É, para utilizar um anglicismo corrente, “business as usual”.

É a viciação e distorção da linguagem no seu máximo esplendor. É patrocinar um prémio de Ciências da Vida com dinheiro obtido da forma mais duvidosa possível e que foi criado apenas para reabilitar o nome mal-afamado de um ditador com demasiados crimes no seu já longo historial.

É aproveitar a situação de vulnerabilidade por que estão a passar as Universidades para as fazer aceitar o inaceitável, para reduzir os seus investigadores e professores a funcionários amestrados; atentos, veneradores e obrigados.

É dar um passo mais para a criação de uma novel classe de inteletuais que nada inteligem e que apenas papagueiam de cor e amoralmente a cartilha que os senhores do dinheiro lhes põem à frente.

E quem pensa que a língua não é para aqui chamada, engana-se, pois, uma língua, qualquer que ela seja, serve sobretudo para nos entendermos e fazermo-nos entender melhor, para interrogarmos o mundo à nossa volta e ir obtendo algumas respostas.

É com ela que se faz Ciência, qualquer ciência, que a comunicamos aos outros e vamos construindo com ela uma grande parte da nossa cultura.

Podemos por isso dizer sem medo de errar que quando uma instituição como a UNESCO promove um prémio que pressupõe de forma tácita a abdicação forçada da língua original de uma dada comunidade, no caso presente a nossa, que tem sido obrigada a estropiar a sua língua unicamente para fazer sobressair os projectos pessoais de alguns, está claramente a violar os princípios que a própria organização instituiu: “contribute to peace and security by promoting international collaboration through educational, scientific, and cultural reforms in order to increase universal respect for justice, the rule of law, and human rights”.

Na prática mata a Ciência, e logo na raiz, pois defendendo e promovendo activamente  o uso de uma língua artificialmente modificada unicamente para satisfazer fins políticos, estão na realidade a inutilizar o próprio substrato da sua concepção e feitura, logo, estão a inviabilizar o desenvolvimento da Ciência que tanto dizem defender.

É  por isso um evento que premeia as Ciências mortas e as Ciências da Morte.

É, em suma, a negação mais absoluta do trabalho, do estudo e da investigação que tão extremosamente enaltecem (da boca para fora), que querem substituir pelo nada, pelo vazio, pela negação de tudo o que vive e faz mexer qualquer investigador, em qualquer área.

É, no fundo, e ao arrepio de tudo o que afirmam, a mais perfeita negação de tudo o que seja a Vida, nas suas mais sofisticadas manifestações para a substituírem pelo Vazio e pelo Nada que caracterizam a Morte do indivíduo enquanto tal.

Olga Rodrigues

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A agenda de Brasília

Dissolvida a espuma dos (dois) dias e já esquecidos os “planos da pólvora“, aqui está o resultado prático e único da mais recente Cimeira da CPLP: o AO90 será imediatamente imposto aos dois maiores países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP). Para o efeito, e assim como quem dá graxa ao cágado, isto é, à laia de pretexto para mais umas patuscadas, reunir-se-á no Brasil um grupinho de excursionistas que fingirão “melhorar” a coisa.

Tudo para tentar enganar o pagode, é claro, que bem sabemos nós outros não passar o chamado “acordo ortográfico” de uma gigantesca fraude palavrosa destinada a encobrir ainda maiores e mais inconfessáveis ambições neo-imperialistas.

Nesta incrível “notícia” — nem de propósito, debitada por um pasquim com nome de satélite artificial — está exposta, em tom declaradamente oficioso e descaradamente mentiroso, toda a real  “agenda de Brasília”: os negócios do Brasil, os interesses económicos brasileiros, as apostas especulativas, em suma, que entretêm meia dúzia de nababos em plena Avenida Paulista. Tudo isto, mui convenientemente, sob o olhar aquiescente, o beneplácito, a conivência, quando não a bênção de altos dignitários portugueses.

sputnik_brasil_logoPaíses lusófonos começam a afiar a língua

Aberta na segunda-feira, 31, e encerrada nesta terça-feira, 1º, em Brasília, a 11ª Conferência de Chefes de Estado e de Governo de Países de Língua Portuguesa (CPLP) assinou diversos acordos e memorandos para aproximar os nove países membros do bloco, que chega aos 20 anos.
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O Brasil, eleito para comandar a entidade nos próximos dois anos, apresentou uma série de estudos de cooperação com vários países, como Angola (na área energética), Cabo Verde (transporte aéreo), entre outros. Um dos temas principais do encontro foi aperfeiçoar e expandir o Acordo Ortográfico entre países lusófonos. Hoje esse acordo já está vigente no Brasil, em Portugal e em Cabo Verde, e em fase de ratificação em Angola e Moçambique.

De acordo com o subsecretário para África e Orriente Médio do Ministério das Relações Exteriores, embaixador Fernando Abreu, o acordo vai facilitar a divulgação da língua portuguesa e determinadas tarefas como a publicação de livros, na medida em que haverá uma ortografia única, respeitando-se, porém, as expressões regionais de cada país.

Para Evanildo Bechara, professor, gramático, filólogo, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e doutor honoris causa pela Universidade de Coimbra, a unificação ortográfica é muito importante não só para a parte didática do ensino da língua aos seus falantes e escritores, mas também para a difusão da língua portuguesa no mundo.

“A prova disso é que estamos há mais de 100 anos trabalhando nessa unificação. Os primeiros pasos científicos da ortografia começaram em 1911 e daí aos nossos dias. Antigamente só Portugal e Brasil eram os países de língua portuguesa oficial. Com as antigas colônias hoje emancipadas em países independentes, estamos tentando a unificação ortográfica.”

Bechara diz que, após estabelecidas as regras de ortografia, o trabalho se volta agora aos vocabulários ortográficos, que se dividem em dois grandes grupos: os vocabulários ortográficos nacionais e o vocabulário ortográfico comum (VOC), que reúne as particularidades e as pequenas divergências existentes no plano da ortografia.

Estamos esperando a chegando de um grupo de especialistas do Instituto Internacional de Língua Portuguesa (IILP) que se reunirá com nossos especialistas na ABL, principalmente nossos dicionaristas e lexicógrafos que trabalham na confecção do acordo ortográfico, para discutir alguns pontos para a saída desses vocabulários nacionais e comum para todos os países da lusofonia.”

Source: Países lusófonos começam a afiar a língua

Destaques meus. Inseri “links”.

Fotografia de topo: Marcos Corrêa / PR

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