Dia: 14 de Novembro, 2016

«Lá vem mais caca» [“Portal Jundiaí Notícias” (Brasil)]

Publicado em 11 novembro, 2016 | por Portal Jundiaí Notícias

Editorial: Lá vem mais caca

Oficialmente o novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa entrou em vigor em janeiro deste ano. Esse acordo é aquele que privilegia quem não estudou regras de acentuação e sempre teve dificuldade de usar o hífen e outros recursos da língua da Camões. A velha história: já que ninguém estuda, ninguém aprende, vamos simplificar tudo. Vamos nivelar o nível de aprendizado por baixo.

E mal o povo está se acostumando à mais essa ignorância, já há gente discutindo novas modificações. Gente que não é do povinho. É gente ocupando cargo em ministério e secretarias. Querem mudar mais, simplificar mais. Querem tornar a ignorância algo oficial.

Houve ministro que defendeu a burrice num passado meio recente. Foi a época em que o Ministério da Falta de Educação editou uma cartilha onde afirmava estar correto o uso de termos discordantes verbalmente, tais como “nóis vai” ou “a gente vamos”. A explicação idiota era que o importante era ser entendido.

Ser entendido e entender são a base da comunicação. Mas não se pode, em nome do entendimento, jogar no lixo uma cultura milenar. Não basta Internet produzir uma massa de ignorantes, é preciso um ministério e um governo tornar a ignorância oficial.

Defensores da teoria da burrice afirmam, e com razão, que a língua é dinâmica e precisa se adaptar aos novos tempos. A linguagem é dinâmica, mas não deve perder a essência. Um exemplo: na época do Império, as pessoas tinham o tratamento de “vossa mercê”. O termo foi simplificado, e hoje é o “você”. Na Internet foi pro lixo – agora é “vc”. Nada mais perfeito – foneticamente é igual a “wc”.

A falta de estudo da Língua Portuguesa, o desprezo pela gramática, a ignorância oficial e a burrice natural dos cérebros menos funcionais têm permitido a invasão de termos estrangeiros, hoje praticamente incorporados ao liguajar popular. Lojas não anunciam mais liquidação. Agora é off.

O contínuo do escritório se tornou office boy, ou simplesmente boy. Não se começa mais uma tarefa – se dá um start; não se melhora um produto, dá-se um up. Tente-se fazer algo parecido com os ingleses ou franceses. Nós permitimos, porque aqui a língua é tratada como lixo.

Nos tempos em que professores ensinavam e alunos estudavam de verdade – e não pensavam em ocupar escolas – as notas eram dadas conforme o grau de aprendizado. Iam de 0 a 100. Um acento errado, independentemente da disciplina, tirava meio ponto. Grafia errada, um ponto. E podia ser em História, Geografia ou Conhecimentos Gerais. Era vergonha tirar nota menor que 90. Algumas escolas reprovavam alunos com menos de 80.

E hoje? Está a farra do boi. Ninguém é reprovado, a não ser que falte, mas falte muito, às aulas. Professor que repreende aluno sabe que no dia seguinte terá pais enfurecidos na porta da escola, em defesa do pimpolho burro e mal educado. Aluno não é mais aluno. É um cliente. E cliente sempre tem razão. Cabe então aos pais o sagrado dever de pagar a mensalidade em dia. E o dever de afrontar professores.

Essa nova reforma, já em gestação no intestino dessa cúpula que se arvorou sábia, logo acontece. E certamente mandará para o lixo outros acentos. Certamente – e isso é sério – permitirá uso de “ç” ou “ss” de qualqer jeito. De “z” no lugar de “s”. Pensam até – e isso também é sério – abolir a concordância verbal.

Não sejamos eruditos. Mas também não precisamos de tanta burrice. Mantenha-se o mínimo, o aceitável. Mas não. Dia virá em que todas as proparoxítonas não precisarão mais de acento. Dia virá em que aparecerão em sua casa sua filha com o namorado, todo garboso e elegante, para avisar que “nóis vai casá”. E o melhor presente de casamento que você poderá dar aos nubentes será um um antigo dicionário.

[Transcrição de: Editorial: Lá vem mais caca – Portal Jundiaí Notícias (Brasil). Destaques e “links” meus.]

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