«Encontros e recontros« [Aurélio Moreira, “Público”]

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Texto de Aurélio Moreira • 30/11/2016 – 11:45

Uma vez por semana, vou tentar concentrar-me na tarefa que me foi pedida de tentar salvar deste mar de uso indevido, desatenção, desprezo ou esquecimento algumas palavras da língua portuguesa

“Caro Senhor, hesitei em escrever-lhe. Não por escrúpulo moral, mas por receio de que encontrasse nas minhas mal-alinhavadas linhas material de que alimentar as suas crónicas – quem sabe se pelo ridículo…”, respigo, ao acaso, de uma simpática correspondente epistolar que, a partir deste ponto ainda pouco prometedor, foi sempre a subir nos elogios e nas confidências.

Compreendo o seu receio, mas rogo-lhe que não consinta deixar-se tolher por essa assunção, quando já tão tolhidos andamos quer pela “falsa austeridade”, quer pela “verdadeira”, quer pelo “colossal aumento de impostos”, quer pela “justiça fiscal”, consoante vemos uns ou outros, fora os desgraçados que os vêem a todos, sem a protecção de filtros cor-de-rosa ou cor de laranja. Mas, se que ser minha amiga – ou se posso pedir-lhe essa hipótese –, faça como os meus amigos, que se me escrevem pouco não é com medo de que eu os ridicularize por terem aproveitado o tempo a praticar os erros de formação que, de boa-fé, receberam do sistema de ensino. Não. É antes – os cabelos brancos por vezes permitem ver isto – por haver tão perfeita sintonia entre nós que as ideias e as lembranças viajam livremente pelo éter (esse poético e misterioso corpo rarefeito aparentado, pelo lado pobre, com os miasmas), em chamadas telefónicas inteiramente telepáticas, imunes a escutas e gravações, quebras de cobertura pela rede de telecomunicações radioeléctricas e ainda não sujeitas a IVA no Orçamento do Estado de 2017.

Fora as alterações climáticas, a criação de gado, a guerra da Síria, a guerra do Iraque, a guerra do Afeganistão, o conflito israelo-palestiniano, o terrorismo, o desemprego, os “recibos verdes”, o cancro, a diabetes, a hipertensão, a falsificação de medicamentos, os resultados eleitorais nos EUA, o “Brexit”, as próximas eleições na Europa, o desflorestamento, a monocultura de palmeira-do-azeite, a falta de água potável, a depauperação genética da banana, a seca, as inundações, os furacões, tempestades e ciclones, os políticos carismáticos, as más traduções e o acordo ortográfico, nada tema. Escreva sempre e dê-me o prazer da sua companhia, já que a situação de cronista, enquanto dura, é de alguma ansiedade e muita solidão (ou ao contrário).

“Exmo.º Senhor, no meu dicionário não consta a palavra contrafagote. Será erro?…”, pergunta, com uma certa ambiguidade, J. Costa, ex-tanoeiro aposentado. Ambiguidade porque da sua formulação sincopada não concluo se inferia tratar-se de erro meu, por ter inventado um nome de instrumento que me servisse para fazer chalaça, ou do dicionário de que se fez consulente, por não incluir verbete essencial. Faço o que devo: defendo a minha reputação desfazendo a do dicionário, truque aprendido nas transmissões dos debates da Assembleia da República, nome que oficialmente designa a nossa Câmara de Deputados. “Nome masculino MÚSICA instrumento musical de palheta dupla, da família do fagote, mas de maiores dimensões e som mais grave” (Infopédia, Porto Editora). Salvo.

E em completa relação com isto, finalizo dando a palavra à leitora M. da Anunciação Huguenote, regente de banda de música, que me corrige, dizendo: “Exm.º Senhor, poderia dizer-me onde encontrou uma banda de música com um contrafagote? Então nós não temos dinheiro para comprar um par de pratos e íamos comprar um contrafagote de dez quilos?!… E para ser tocado por quem, se os músicos andam todos as recibos verdes, mal ganham para comer e já temos o mais encorpado encaixado na tuba, e sabe Deus?… Por essas e por outras é que não podemos progredir para um sousafone.

Peço-lhe o favor de ter mais cuidado a falar de bandas de música. Não sou de fazer ameaças, mas arranjam-se uns colegas de bigode na Banda de Música de Cête [Cete] e outros sem bigode na Banda de Música das Minas do Pejão para lhe fazer uma serenata debaixo da janela até às três da manhã, a tocar uma rapsódia de êxitos como o ‘Hino da Patuleia’, o ‘E Viva España’ e o ‘Passarinhos a Bailar’. Não lhes faça chegar a mostarda aos grandes narizes… Ponha-se à tabela…” Muito saborosa esta expressão idiomática: “Pôr-se à tabela”. Tanto pode causar reminiscências de parentes afastados como ser tão familiar como formigos.

Ir ao encontro de, ir de encontro a

Perpassa por cartas, notícias, reportagens, crónicas, romances e transmissões directas televisivas, para não dizer intervenções públicas em seminários, palestras e congressos, quando não – credo! – em teses de mestrado e de doutoramento. Falo, desta vez, da troca da expressão “ir ao encontro de” (estar de acordo) por “ir de encontro a” (contrariar, opor-se).

Um exemplo: “Ainda bem, sr. secretário de Estado, que as políticas do Governo a que V. Ex.ª pertence vieram ao encontro dos anseios deste grupo profissional que denodadamente labuta em prol do bem comum”.

Esquecendo o que esta frase tem de auto-elogioso, pomposo e retoricamente esquemático, o que nos interessa é a parte em que as “políticas vieram ao encontro dos anseios”, o que, se não for reconhecido universalmente como potencialmente sensual, pelo menos deverá sê-lo como correctamente construído. Mas, em muitos casos, não acontece assim. É bastante comum ler-se ou ouvir-se que as “políticas vieram de encontro aos anseios”, o que desfeia o caso. Em vez de correcção dão-nos impropriedade, em vez da subentendida sensualidade agridem-nos com um tudo-nada de brutalidade. E se digo tudo-nada, é para não ser brutal. Diga-se “ao encontro de” e não “de encontro a”. Pelo menos naqueles casos em que se quer mesmo indicar concordância.

Aurélio Moreira

Source: Encontros e recontros | P3

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