Dia: 30 de Janeiro, 2017

“Aperfeiçoamento”? Conversa da treta!

Rever, corrigir, melhorar o AO90. A ideia tem barbas e já se percebeu que a isso mesmo se resumem as intenções de assumidos acordistas e de supostos anti-acordistas em igual número. Ambas as seitas passaram todos estes anos a entreter o pagode, uns fingindo que o aleijão era para ficar assim mesmo, outros a fingir que pretendiam acabar com a maleita, mas por fim, conforme infalíveis sinais emitidos por uns e por outros desde pelo menos 2013,  aí os temos chegando a uma forma explícita de entendimento tácito — desde há muito delineado, se não mesmo combinado ao pormenor — em que os interesses de todos eles (os assumidos e os supostos) ficarão salvaguardados.

15/03/2016

 

Revista “Sábado”, 28 Janeiro 2017 • Lusa

Academia sugere regresso de acentos, hífen e não só ao Acordo Ortográfico

O documento Sugestões para o aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 foi aprovado em plenário, na quinta-feira, por 18 votos, com cinco votos contra

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O documento de aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), aprovado na quinta-feira pela Academia de Ciências de Lisboa (ACL), propõe o regresso de consoantes mudas, do acento gráfico, em alguns vocábulos, do circunflexo, noutros, assim como do hífen.

O estudo propõe o regresso das consoantes mudas em palavras como “recepção” e “espectador”, ou seja, nos casos em que geram uma concordância absoluta de sons (homofonia) que podem causar “ambiguidade”.

O documento “Sugestões para o aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa” de 1990 foi aprovado em plenário, na quinta-feira, por 18 votos, com cinco votos contra.

Segundo a proposta apresentada, deve regressar o acento agudo em palavras com pronúncia e grafia iguais, as palavras homógrafas, referindo, entre outras, “pára”, forma do verbo parar, que se confunde com a preposição para, também “péla”, nome e forma do verbo pelar, que se confunde com a preposição “pela”.

Também é recomendado o regresso do acento circunflexo em diferentes vocábulos que são homógrafos a outros, por exemplo, o verbo “pôr”, para evitar confundir com a preposição “por”.

Defende o estudo o emprego do acento circunflexo “nas flexões em que a vogal tónica fechada é homógrafa de outra flexão da mesma palavra”, como os casos de “pôde”, forma do pretérito perfeito do indicativo do verbo “poder”, para se distinguir de “pode”, forma do presente do indicativo do mesmo verbo.

Também a forma “dêmos”, presente do conjuntivo do verbo “dar”, para se distinguir de “demos”, pretérito perfeito do indicativo, do mesmo verbo.

O acento circunflexo é igualmente recomendado para as terceiras pessoas do plural do presente do indicativo, casos de “crêem”,” lêem”, “vêem”, ou do conjuntivo, como “dêem”, dos verbos “crer”, “ler”, “ver”, “dar”, e seus derivados “relêem”, e “desdêem”, por exemplo.

O estudo defende a acentuação gráfica na terminação verbal “ámos”, relativa ao pretérito perfeito do indicativo dos verbos da 1.ª conjugação, todos os que terminam em “ar”. Esta acentuação da terminação verbal “amos” visa “distinguir da terminação ‘amos’ do presente do indicativo dos mesmos verbos”, como “terminámos” e “terminamos” ou “afirmámos” e “afirmamos”.

Quanto às consoantes mudas, nos casos em que geram uma concordância absoluta de sons (homofonia), sugere a Academia os termos “aceção”, que se pode confundir com “acessão” (consentimento), “corrector”, que se pode confundir com “corretor” (intermediário), “óptica”, relacionado com a visão, que se confundirá com ótica (audição), além de “receção” (recebimento) que se confunde com recessão (retrocesso), e “espectador”, diferente de “espetador” (o que espeta).

Conserva-se também quando a consoante muda “tem valor significativo, etimológico e diacrítico”, como por exemplo “conectar”, “decepcionado” e “interceptar”.

Segundo a argumentação da ACL “eliminam-se [as consoantes mudas] nos casos em que são invariavelmente mudas em todos os países de língua oficial portuguesa”

Deste modo “a grafia passa a ser única” nas palavras “acionar”, “atual”, “batizar”, “coleção”, “exato”, “inspetor” ou “projeto”.

Todavia, quando “se verifica oscilação de pronúncia na variedade portuguesa da língua”, recomenda a Academia, “preferencialmente, nestes casos, a manutenção da grafia com a consoante, para evitar arbitrariedades”.

Um dos exemplos dados é “fato”, na grafia brasileira, e “facto”, na grafia portuguesa.

Quanto ao hífen, é recomendação geral, por “clareza gráfica”, o emprego quando os elementos dos compostos, com a sua acentuação própria, não conservam, considerados isoladamente, a sua significação, ou seja, quando “o sentido da unidade não se deduz a partir dos elementos que a formam”.

Argumenta o estudo que se exige o emprego do hífen, em vocábulos como “água-de-colónia”, “braço-de-ferro”, “entra-e-sai” e “pé-de-meia”, e mantém-se nos termos que já o tinham como por exemplo “trouxe-mouxe”.

O hífen deve ser restaurado em expressões em que a soma dos elementos forma um sentido único, como por exemplo “faz-de-conta” e “maria-vai-com-as-outras”.

Também no interior de certos compostos vocabulares deve manter-se o hífen e o apóstrofo, como em “borda-d’água”, “cão-d’água”, “copo-d’água”, “mãe-d’água”, “marca-d’água”, “pau-d’água” e “pau-d’arco”, entre outros.

Já os vocábulos, dos quais se perdeu a noção de composição, como “mandachuva”, “paraquedas” e “paraquedista”, devem escrever-se aglutinadamente, o que não se deve cumprir relativamente aos “compostos com a forma verbal ‘manda-‘ e ‘pára-‘” que devem continuar “separados por hífen conforme a tradição lexicográfica”, casos de “manda-lua”, “pára-choques”, “pára-brisas”, e “pára-raios”.

O documento com as “Sugestões para o aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa” de 1990, aprovado pela Academia das Ciências, está disponível aqui.

Fonte: Academia sugere regresso de acentos, hífen e não só ao Acordo Ortográfico – Vida – Sábado

 

 

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A “revisão” no Correio da Manha

Sinais de fumo

A única solução para o infeliz acordo passaria por rasgá-lo.

Por João Pereira Coutinho | 28.01.17

O acordo ortográfico é uma aberração linguística e um exercício de autoritarismo cultural. E não houve cultor da língua que, nestes últimos anos de polémica, não tenha denunciado o arranjo – em livros, artigos ou meras proclamações públicas. Isto, que devia ter levado o país ‘oficial’ a desconfiar, manifestamente não levou. E o acordo foi airosamente adoptado em documentos, escolas, jornais, quem sabe em sinais de fumo. Agora, a Academia de Ciências voltou a olhar para o mostrengo. E concluiu que, afinal, a ‘simplificação’ foi longe de mais porque a língua não é propriamente uma transcrição fonética. Coisas como consoantes mudas, acentos ou hífenes talvez devam regressar. Pessoalmente, a única solução para o infeliz acordo passaria por rasgá-lo. Mas ‘repensar’ também serve, desde que isso sirva para cobrir de vergonha a parolada nativa que abraçou o acordo sem parar para pensar.

Ler mais em: http://www.cmjornal.pt/opiniao/colunistas/joao-pereira-coutinho/detalhe/20170128_0026_sinais-de-fumo?ref=opiniao_outras

Criatura para durar

Os donos da Língua Portuguesa não reconhecem o que fizeram.

Por Leonardo Ralha | 29.01.17

Tal como o Viktor Frankenstein de Mary Shelley, também os membros da Academia de Ciências de Lisboa tiveram que olhar para a sua criatura. Pena que, ao contrário do médico que decidiu criar vida a partir dos mortos, os donos da língua portuguesa escolham não reconhecer o que fizeram, garantindo que “aperfeiçoar o Acordo Ortográfico não significa rejeitar a nova ortografia, mas antes aprimorar as novas regras ortográficas e retocar determinados pontos”. Certo é que recomendam o regresso de hífenes, acentos e até de algumas consoantes mudas, ainda que pelas piores razões. O documento divulgado pela Academia de Ciências de Lisboa mantém que as consoantes são “invariavelmente mudas em todos os países de língua oficial portuguesa” em palavras como ‘inspector’ e ‘projecto’, o que só se pode explicar por surdez. São no mínimo tão mudas quanto em ‘corrector’, só poupado à amputação devido à existência da palavra ‘corretor’, num sinal de que a criatura está para durar.

Ler mais em: http://www.cmjornal.pt/opiniao/colunistas/leonardo-ralha/detalhe/criatura-para-durar?ref=opiniao_outras

 

A tese da “revisão“, a vingar, representará (representaria) a consumação de uma espécie de “solução final” (Endlösung) para a liquidação sumária da ortografia da Língua Portuguesa.
1 de Janeiro de 2014

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