Mês: Janeiro 2017

“Ou” o quê?!

Para variar, não concordo. Parece-me, aliás, de certa forma surpreendente este artigo de Nuno Pacheco.

Pelo tom conciliador e pela concomitante admissão tácita de que afinal é possível “aperfeiçoar” (ou “despiorar”, como diz Anselmo) aquilo a que o próprio, com imenso rigor terminológico, chama “o monstro”: «Que se cheguem à frente defensores e detractores do acordo, porque já chega de conciliábulos mornos. Que volte tudo à mesa, para que, “remendando” o AO ou deitando-o fora, não haja mais escolhas impensadas, baseadas em panaceias há muito desmentidas.»

Uma inovação absoluta, vindo isto de uma pessoa que sempre se bateu contra, contra e nada mais do que contra o aleijão ortográfico, sem tergiversações (“conciliábulos mornos”, diz bem), sem hesitações ou tibiezas e, sobretudo, sem concessões de qualquer espécie.

“Ou”? “Ou” o quê?!

“Aperfeiçoar” o  monstro para ele ficar ligeiramente menos monstruoso? “Rever” o cAOs para o tornar um bocadinho menos caótico? “Remendar” o maltrapilho a ver se ele deixa de ser miserável?

Discussão? Ah, está bem, isso pode ser: discuta-se então qual a melhor forma de acabar com o miserável, maltrapilho, caótico, monstruoso AO90.

Acordemos, para desacordar de vez

Nuno Pacheco

19 de Janeiro de 2017, 7:30

Que se cheguem à frente defensores e detractores do acordo, porque já chega de conciliábulos mornos. Que volte tudo à mesa

————-

Neste Janeiro pleno de sol, eis que regressam as acaloradas discussões sobre a Língua Portuguesa. Voltou à RTP, na passada terça-feira, o magazine Cuidado com a Língua!; foi lançado um novo livro do tradutor, revisor e professor Marco Neves intitulado A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa (Guerra & Paz); e o PEN Clube promoveu no Goethe Institut, em Lisboa, no dia 9 de Janeiro, mais um debate sobre o acordo ortográfico (AO90). Aliás, é este último que mais promete dar que falar, com o anunciado “aperfeiçoamento” que a Academia de Ciências de Lisboa prepara e de que já foram surgindo alguns tópicos: regresso à diferenciação de “óptico-ótico” e de “pára-para”, clarificação do uso dos hífens, reposição de consoantes ditas mudas (pelo menos as que permanecem no Brasil, caso de recepção-receção); ou revisão do uso dos sufixos pan- e com-. Haverá conciliação? Arriscando uma metáfora marítima, esta tentativa de “aperfeiçoamento” arrisca-se a ser vista por uns como um inadmissível rombo no navio, e por outros como o lançamento de bóias de ferro aos náufragos.

Recordando os alertas dos saudosos José Pedro Machado e Vasco Graça Moura, entre tantos outros que se cansaram de argumentar contra os perigos do “monstro” que aí vinha, é possível olhar para a tentativa da ACL como a confirmação clara de um falhanço: se o AO precisa de emendas, e não serão poucas, nunca devia ter entrado em vigor no estado em que está. Os que lamentam a sorte das “pobres criancinhas” caso haja agora mudanças, deviam ter pensado na quantidade de disparates que as obrigaram a aprender para agora, aos poucos, terem de os desaprender. É por isso que os fautores do acordo não querem mudar uma só vírgula: para não ajudarem a sublinhar a sua incompetência.

É, pois, tempo de deixar a habitual lassidão portuguesa e enfrentar o problema. Que se cheguem à frente defensores e detractores do acordo, porque já chega de conciliábulos mornos. Que volte tudo à mesa, para que, “remendando” o AO ou deitando-o fora, não haja mais escolhas impensadas, baseadas em panaceias há muito desmentidas. É curioso que um defensor do AO (considerando-o, ainda hoje, “obra meritória”, que “já não pode ser denunciado por Portugal, como país digno”), D’Silvas Filho, tenha publicado há dias no seu blogue e no Pórtico da Língua Portuguesa um texto onde condena, nos vocabulários ortográficos, “a sanha contra as consoantes não articuladas” por uma “obsessão no simplificacionismo. A língua é um complexo que traz consigo a herança de muitas gerações de falantes que a foram aperfeiçoando na comunicação. A língua é mais do que ortografia, mas esta tem interferência na linguagem, por exemplo, nos retornos sobre a fonia. Só se deve alterar a ortografia com pinças, com ciência, senão a fluidez da comunicação intergerações e o encanto das virtualidades da língua podem perder-se.” Foi isto que foi feito com o AO90? Só um lunático responderá pela afirmativa.

Apesar da vã retórica, nenhum benefício foi ainda mostrado como resultante da imposição das regras do AO90. O silêncio dá jeito, porque encobre todo o tipo de más opções e desvarios. Mas na língua não há silêncios. Ela rodeia-nos a toda a hora, falada, escrita, viva, múltipla. Um exemplo: numa extensa entrevista que o escritor brasileiro Pedro Maciel fez a Mário Soares e que permaneceu inédita até a Folha de S. Paulo a publicar postumamente, no dia 9, a última questão foi sobre a língua. Perguntou Pedro Maciel: “Não é uma bobagem a reforma ortográfica da língua portuguesa, já que a língua é um organismo vivo, dinâmico e muda-se conforme as novas gerações?” Respondeu Mário Soares: “O que é admirável na nossa comunidade é a variedade, a riqueza e as diferentes contradições. Os brasileiros têm locuções, maneiras de escrever e de falar diferente dos portugueses que enriquecem extraordinariamente a nossa língua, da mesma forma que os africanos e os portugueses. Cada um dá o seu tributo. Eu não sou um grande purista da língua e acho que as línguas são organismos vivos e são os povos que fazem as línguas. Não sou pela uniformização, mas pela variedade e pela diversidade dentro de uma unidade.”

Que siga a discussão.

Nuno Pacheco

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Nuno Pacheco, jornal “Público”, 19.01.17. Destaques meus.]

Admirável Língua Nova (Parte II) [Manuel Matos Monteiro, “Público”]

Admirável Língua Nova (Parte II)

Manuel Matos Monteiro

17 de Janeiro de 2017, 14:32

Nunca ocorreu a nenhuma das luminárias do Acordo Ortográfico que não se encontram dois falantes de português em 261 milhões que pronunciem exactamente do mesmo modo todos os vocábulos que conheçam?

——————-

Com o Acordo, se ler que “Cristiano Ronaldo tem pé de atleta”, poderá tratar-se de um elogio ao talento do futebolista ou de uma micose superficial na pele dos pés do herói nacional, provocada por fungos. Se não adoptar o Acordo, a micose é grafada com hífenes. É essa a lógica da língua portuguesa. (Lógica que o Acordo mutila) [ver texto anterior, Admirável Língua Nova, Parte I] Quando queremos ler meramente a soma dos seus constituintes, naturalmente não hifenizamos.

Repare o leitor nas seguintes construções frásicas: “O robô tem um braço de ferro e outro de metal” e “As confederações patronais entraram num braço-de-ferro com os sindicatos”. O hífen desfaz o valor literal e confere outro sentido. Pense-se no cavalo. Um rabo de cavalo não é um “rabo-de-cavalo”, tal como um cavalo de batalha não é um “cavalo-de-batalha” (várias acepções). Pense-se no camelo. O asco que seria engolir baba de camelo e o prazer suave e demorado (para alguns) que é a baba-de-camelo.

A grande farra

Este simpático pasquim não permite qualquer espécie de reprodução a não ser por esta via, ou seja, a partilha do título…

Publicado por João Pedro Graça em Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2017

Primeiras entradas da anunciada “revisão” do AO90.

Mas em que consistirá ao certo a dita “revisão”, hem?, perguntareis. Bom, responderei então de novo, haja pachorra, que seja pelas alminhas de quem já lá mora, salvo seja: a “revisão” do AO90 consiste, ao certo, em proibir que se chame “revisão” à coisa (é obrigatório dizer “aperfeiçoamento”, não “revisão”) e em fazer umas “concessões” aos portuguesitos, coitadinhos, enquanto se “adota” definitivamente — na íntegra e agora à descarada, já sem qualquer disfarce — a ortografia brasileira.

Quanto às “concessões” aos portuguesitos, coitadinhos, a “revisão” (ai, não, o “aperfeiçoamento“) resume-se ao que aparece no artigalho hoje publicado (e blindado contra cópia ou sequer citação) pelo pasquim electrónico “ptjornal”: a “Academia das Ciências de Lisboa” (uma coisa parecida com a Academia do Sporting, em Alcochete, com a diferença de que nesta treina-se o pontapé na bola e naquela aperfeiçoa-se o chuto na cabeça) vai determinar que “para” volta a ter acento para que para se distinga de para o que significa, portanto, que a ACL para para “refletir” de vez em quando sobre a melhor forma de por por cima o que não pode por por baixo da mesa.

Confuso? Nada disso. É lá agora confuso! Basta saber onde colocar os acentos que o AO90 “mandou” tirar e agora a ACL “manda” tornar a por por cima das letrinhas de quem para para pensar como “há de” escrever em acordês.

Pelos vistos devemos todos desde já agradecer penhoradamente pelas (duas!) “concessões”. Por mim, cá vai disto, fica já a minha parte dos obrigadinhos despachada: um ganda “brigádjinhu, viu” aos brasileiros, esses altruístas, e um não menos ganda “obrigadão” aos senhores da ACL, esses mãos-largas, essas grandes cacholas que vão “melhorando” (ou “despiorando”, como há quem diga, aliás com imensa lata) o AO90, a mais extraordinária aldrabice de aquém e de além-mar.

Depois destas (duas!) “concessões”, portanto, que são assim uma espécie de entradas ou aperitivos, os comensais da ACL vão atirar-se imediatamente ao conduto (ervilhas) e ao presigo (língua), tudo ao molho, toca a enfardar que isto nas academias não há fome, o que há é muito apetite: corta daqui, retalha dali, mistura d’acolá, reponha-se o P em “receção”, ó parceiro, chegue-me daí o sal, olha o facto, pois, vá lá, aquele C pode voltar, sim, os tugas vão adorar isso, e como fica “confecção”, hem?, os brasileiros pronunciam éqção ou éção?, não há mais língua, hem?, pst, ó menina, trazia mais uma travessazinha de língua com ervilhas, hem?

Enfim, tenhamos um módico de pudor, ao menos desviemos o olhar de tão deprimente espectáculo, os ilustres comensais a refocilar nas travessas, a empanturrar-se alarvemente com seus assados, refogados e estufados de língua cortada em fatias muito fininhas.

Em todos estes cozinhados os tachos pegaram mesmo, curioso paradoxo. O alarve repasto descambou numa farra ignóbil. Compete-nos a nós, que não fomos tidos nem achados e não tivemos absolutamente nada a ver com semelhante patuscada, pôr fim ao regabofe, ir lá dar-lhes sopa.

imagem de IMDB

Lisboa: veredicto ou veredito? Porto: beredito ou beredicto?

http://www.cmjornal.pt/maissobre/veredito

c) Conservam-se ou eliminam-se facultativamente, quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral, quer restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o emudecimento: aspecto e aspeto, cacto e cato, caracteres e carateres, dicção e dição; facto e fato, sector e setor, ceptro e cetro, concepção e conceção, corrupto e corruto, recepção e receção».

A palavra veredicto/veredito insere-se, portanto, nos casos mencionados na alínea c), aqueles que, por haver oscilação na pronúncia, aceitam dupla grafia.

1 No Brasil, a forma veredicto, com c pronunciado, era a recomendada até há pouco tempo, mas a{#c|}tualmente é mais comum ouvir a forma sem essa consoante, daí a legitimidade de veredito (informação dispensada pelo consultor Luciano Eduardo de Oliveira).

https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/sobre-a-palavra-veredictoveredito/29722

«No Brasil, a forma veredicto, com c pronunciado, era a recomendada até há pouco tempo, mas a{#c|}tualmente é mais comum ouvir a forma sem essa consoante, daí a legitimidade de veredito»

Portanto, segundo o AO90, do qual o “Ciberdúvidas” é o órgão central, a grafia de qualquer palavra depende da forma como “é mais comum ouvir”[-se] essa palavra.

Logo, a “legitimidade” da grafia de uma palavra está garantida desde que seja “mais comum ouvir” essa mesma palavra sendo pronunciada de determinada forma. Por conseguinte, certa forma de escrever certa palavra apenas será “ilegítima” caso não seja assim tão comum, ou seja incomum de todo, ou seja muito pouco “comum ouvir a forma” assim ou assado da dita palavra.

Genial. Brilhante. Supimpa. Chiquérrimo, sei lá.

Isto significa, por exemplo, que  valem num jornal lisboeta ambas as grafias “veredicto” ou “veredito”, assim como valem num jornal do Porto, Braga ou Fafe, também por exemplo, ambas as grafias “beredito” ou beredicto”. Desafio qualquer um a demonstrar que no Norte de Portugal em geral não “é mais comum ouvir” proferir beredictos, nos tribunais ou fora deles, e que, pelo contrário, de Coimbra para baixo não é muitíssimo mais “comum ouvir a forma” veredictos. E isto sempre e só em meios onde se professa a chamada “pronúncia culta”, bem entendido, que nós somos todos gente do melhorio, de Norte a Sul (e Ilhas), não queremos cá misturas nem nada, longe vá o agoiro, “pronúncia culta”, como gente fina, é outra loiça.

Mas olha qu’isto não está mesmo nada mal visto, não senhor: o AO90 diz que a escrita de cada qual depende da zona de cada um. Maravilha.

E não apenas a grafia das palavras é determinada geograficamente, segundo o AO90, consoante a região onde o escrevente costuma estar, como a coisa pode variar dentro dessa região, de cidade para cidade ou até, não sejamos picuinhas, dentro do próprio aglomerado populacional, de uma Freguesia para outra, de bairro para bairro, de rua para rua, de um prédio para o prédio ao lado.

Excelente. E, já agora, porque não há-de a escrita mudar também dentro de cada prédio,  consoante o andar, escrevendo-se em cada um deles como “é mais comum ouvir” dizer isto ou aquilo ao pessoal do mesmo piso?

Assim com’assim, visto que no 1.º andar da Redacção do “Correio da Manhã” “é mais comum ouvir a forma” veredicto mas no segundo andar “é mais comum ouvir a forma” veredito, bom, então está tudo explicado, é normalíssimo que um jornalista do 1.º escreva “veredicto” (a forma que para ele é mais comum ouvir) e três jornalistas do 2.º andar escrevam “veredito” (a forma que o trio mais comummente escuta, note-se).

Caramba! As coisas que a gente aprende, à conta da “maravilhosa língua universal”, no ILTEC, no “Correio da Manhã”, no “Ciberdúvidas”, em todos esses vespeiros onde zumbem com extraordinária pronúncia mentes cultas de elevadíssima craveira inteletual.

Fantástico.

Ver Índice cAOs

E se enfiassem o AO90 no “esfínter”, hem?


Descreve-se o caso de um doente do sexo masculino, 58 anos, com diagnóstico de Colite Ulcerosa esquerda com 17 anos de evolução, sob terapêutica com messalazina com adequado controlo, que referia sensação de tumefação anal e dor ocasional à defecação. Ao exame proctológico detetou-se uma massa com cerca de 3 cm, ao toque retal, logo acima do canal anal, bem delimitada, de consistência elástica e aparentemente extrínseca. A colonoscopia revelou doença inflamatória intestinal quiescente não se identificando expressão endoscópica da referida massa. A ecoendoscopia demonstrou lesão predominantemente hipoecogénica, heterogénea, com áreas hipo/anecogénicas, vascularizada, desde a transição anorretal até ao canal anal médio, inclusivé, com cerca de 39,5mm, na dependência da 4ª camada e em contato íntimo com a vertente posterior do esfínter anal interno a nível do canal anal médio. A ressonância magnética pélvica complementar mostrou formação nodular expansiva, de contornos bem definidos, com sinal heterogéneo, predominantemente hiperintenso em T2 e reduzido em T1, localizada posteriormente à transição anorretal, sem plano de clivagem definido e em íntima relação com o músculo elevador do anús.

Optou-se por realizar punção guiada da lesão tendo-se obtido material constituído por fragmentos de tecido muscular liso, actina e desmina positivos, sem caraterísticas de malignidade. Decidiu-se efetuar excisão cirúrgica por via posterior que decorreu sem complicações. O exame anatomopatológico confirmou tratar-se de leiomioma (actina e desmina positivo e CD117 negativo).

Os leiomiomas da região perianal são tumores de origem mesenquimatosa, raros, que podem mimetizar outras lesões subepiteliais com diferente potencial de malignidade como, por exemplo, o tumor do estroma gastrintestinal GIST. A ecoendoscopia surge como um método de diagnóstico essencial na caraterização deste tipo de lesões. Apresenta-se este caso pela sua raridade e para discussão dos diagnósticos diferenciais deste tipo de lesões.

Serviço de Gastrenterologia, Centro Hospitalar do Algarve – Hospital de Faro

Fonte: LIVRO-RESUMOS.pdf

 

“Helicótero” à venda

Já sabíamos que um helicótero (dos grandes) caiu na Alemanha, agora ficamos a saber que há um helicótero (em miniatura) à venda no OLX.

Quando aparecer algum elicótero ou mesmo um elicótru, vá, oviamente pubico-o aqui tamém.

 

Helicótero

 

Helicótero RC com 30 cm e leds coloridos embutidos, sem comando remoto, a funcionar na perfeição

Fonte: Helicótero RC com 30 cm e leds coloridos embutidos São Vicente • OLX Portugal

Ver índice cAOs