Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Dia: 14 de Fevereiro, 2017

«O “corretor” aperfeiçoado» [Nuno Cardoso Dias, “Açoriano Oriental”]

O “corretor” aperfeiçoado

Nuno Cardoso Dias / 13 de Fev de 2017, 12:00

O Acordo Ortográfico é, desde o início, uma trapalhada. Veio resolver um problema que não tínhamos: vivíamos bem com as muitas matrizes identitárias do português. Pelo contrário hoje em dia não nos reconhecemos numa língua que só o “corretor” ortográfico chama sua. Se queria unificar a língua falhou estrondosamente, porque o problema nunca foi a ortografia. Mais: ainda bem que falhou estrondosamente. A riqueza do português está na sua diversidade, não só mas também ortográfica.

Mas se falhou nos objectivos, o AO foi profícuo a criar problemas, dificuldades, ambiguidades e incertezas. Há até um blog que indica os erros sucessivos do Diário da República, desnorteado entre uma e outra norma ortográfica.

A única oportunidade de negócio que o AO criou foi o dos guias que tentavam explicá-lo a uma mole de gente desconcertada e, sobretudo, a substituição de livros escolares ainda em vigor por outros com a nova grafia, impedindo a sua reutilização – à custa dos de sempre – as famílias, e em especial as famílias com filhos em idade escolar.

O AO afastou, mais uma vez, os filhos dos pais, tornando impossível corrigir a ortografia por uma norma que não se conhece, que não é clara, que não é razoável.

E, note-se, o problema não está na imutabilidade da língua, mas na artificialidade da sua alteração: na língua a prática deve preceder a regra e não o contrário. Desta forma, só artificialmente, por uma imposição estatal, administrativa e ilegal – esta ortografia encontrou aplicação.

A Academia das Ciências de Lisboa produziu agora um documento que faz diversas sugestões para aperfeiçoar o acordo ortográfico. O documento centra-se em três aspectos: acentuação, sequências consonânticas (consoantes mudas) e emprego do hífen e as sugestões que faz resolvem muitas das confusões e incoerências que frequentemente são apontadas.

Se, por um lado, este documento é um passo no sentido certo, que traz alguma razoabilidade a esta novigrafia, é também verdade que fica muito por resolver. Por outro lado, parece que ainda é óbvio para alguns que a língua não se pode andar sempre a mudar, mesmo que isso seja consequência das mudanças passarem a ser ordenada por decreto.

A maior vantagem deste documento da Academia de Ciências é demonstrar, quer pelo seu conteúdo, quer pelos argumentos que reúne a seu favor ou contra si, que o acordo ortográfico não serve, não resolve e não devia ser aplicado.

Fonte: O “corretor” aperfeiçoado – Açoriano Oriental

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O senhor Dezporcento

«(…) na altura da sua aprovação, a contestação foi pouca. Os governos de Portugal, Brasil e dos outros países de língua portuguesa mostraram-se de acordo, e os linguistas de cá e de lá também.»

33 palavras, 3 mentiras

 

Malaca Casteleiro: novas mudanças no Acordo Ortográfico “não têm pés nem cabeça”

Rita Cipriano

“Observador”, 13 Fevereiro 2017

João Malaca Casteleiro é um dos responsáveis pelo Acordo que aproximou a ortografia de Portugal e Brasil. Em entrevista, diz que “voltar atrás seria um atentado ao bom senso”.

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Os filhos estão sempre a dizer-lhe para se deixar disso, mas João Malaca Casteleiro acredita que tem de defender a sua “dama”. A sua “dama”, como lhe chama, é o Acordo Ortográfico de 1990, que ajudou a construir (foi ele, aliás, o principal responsável da Academia de Ciências de Lisboa pela elaboração do documento e autor do anexo de seis páginas que o encerra) e que tanta polémica tem causado.

No final do passado mês de Janeiro, a Academia de Ciências de Lisboa divulgou um documento intitulado Sugestões para o aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico, onde são sugeridas alterações a algumas das regras do Acordo Ortográfico. Entre elas incluem-se o regresso de algumas consoantes mudas, do acento agudo em palavras acentuadas na penúltima sílaba (e com pronúncia e grafia iguais), do acento circunflexo em vocábulos homógrafos, isto é, que se escrevem da mesma forma. O documento foi discutido na semana passada na Comissão Parlamentar da Cultura, onde foi ouvido o actual presidente da Academia, Artur Anselmo, a pedido do Bloco de Esquerda.

Apesar de muitos acreditarem que as Sugestões da Academia de Ciências de Lisboa poderão vir a desencadear um processo de alteração do chamado Novo Acordo Ortográfico, o ministro dos Negócios Estrangeiros já fez questão de dizer que isso está fora de questão. “A nossa posição é que devemos aguardar serenamente para que o processo de ratificação seja concluído para que o Acordo Ortográfico possa entrar em vigor em todos os países que o assinaram e o aprovaram”, disse Augusto Santos Silva, explicando que este é um “acordo internacional” a que o Estado português está obrigado.

As declarações de Santos Silva levaram Manuel Alegre, que também esteve presente na audição da Comissão Parlamentar da Cultura, a acusá-lo de ser “arrogante”, numa das muitas polémicas que o Acordo Ortográfico de 1990 já provocou e que João Malaca Casteleiro admite não conseguir compreender. É que, na altura da sua aprovação, a contestação foi pouca. Os governos de Portugal, Brasil e dos outros países de língua portuguesa mostraram-se de acordo, e os linguistas de cá e de lá também.

Passados quase 30 anos, o linguista afirma que nunca pensou que ainda estaria a falar do mesmo assunto. Apesar disso, sente que tem de o fazer para que todos percebam o que estava e está em causa, que nada foi feito ao acaso e que o Novo Acordo Ortográfico, tal como é, foi a melhor solução final possível. Apesar de defender com unhas e dentes o acordo que ajudou a criar, o linguista não põe de lado eventuais aperfeiçoamentos.

Não põe de lado eventuais aperfeiçoamentos, mas acredita que nada deve ser alterado até que entre em vigor em todos os países de língua portuguesa (falta Angola). Tece fortes críticas à Academia de Ciências, que acredita que está a desrespeitar a memória da própria instituição, uma das principais responsáveis pelo acordo hoje vigente, e ao seu actual presidente, que quer levar a cabo “um desmantelamento” do Acordo.

Fonte: Malaca Casteleiro: novas mudanças no Acordo Ortográfico “não têm pés nem cabeça” – Observador

[Destaques e “links” meus. Evidentemente, corrigi os erros de ortografia do original.]

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“Lobbies”? Cartéis? Qual quê! Nada disso existe em Portugal!

Presumo que não seja necessário enumerar as inacreditáveis aldrabices contidas nesta “notícia” (altamente suspeita, de resto, tão evidentes são os seus intuitos de intoxicação da opinião pública), mas ainda assim devo salientar — deste incrível chorrilho de patranhas — o mais flagrante insulto à inteligência das pessoas normais: as editoras, que todos os anos mudam os manuais escolares (geralmente trocando apenas de capa e movendo um ou outro parágrafo de uma página para outra), vêm agora chorar baba e ranho porque, coitadinhas, que até não ganham milhões nem nada com esta mina, teriam de «esperar que os títulos actualmente no mercado chegassem ao fim do seu período de vigência.»

Mas estes tipos julgarão mesmo que os portugueses não passam de perfeitos imbecis?

«O prazo para a estabilização dos livros também raramente é cumprido. Uma simples mudança de parágrafo ou de imagem numa capa nova e diferente tem dado origem a livros novos que a escola adopta e torna obrigatórios para todos os alunos.»
“Negócio dos manuais escolares torpedeia lei de reutilização” – RTP, 13 Janeiro 2017

Acordo Ortográfico – Ou o governo negoceia com editoras ou espera até 2023

 

Para além do problema diplomático que causaria uma iniciativa portuguesa para rever o acordo, a medida implicaria refazer um trabalho de adaptação à nova ortografia que já abrange 600 mil alunos.

 

As “Sugestões para o Aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa” (AO), nesta semana levadas à Assembleia da República pela Academia de Ciências, dificilmente passarão do plano das ideias. E não apenas pelas falhas “procedimentais” invocadas nesta semana pelos deputados para chumbarem a proposta. Nesta fase, mesmo uma revisão parcial da nova ortografia implicaria mudanças difíceis de comportar. E com custos materiais. Desde logo na Educação.

Para além da necessidade de reeducar perto de 600 mil alunos, abrangidos desde 2011-12 pela obrigatoriedade do acordo e nada familiarizados com algumas consoantes mudas e acentuações que a Academia quer agora recuperar (ver caixa), a aplicação da proposta implicaria um processo de revisão de conteúdos pedagógicos, dos manuais escolares aos recursos online, que teria de ser negociado – ou pelo menos debatido – com os principais fornecedores desses serviços. Ou seja: as editoras.

A alternativa, no caso dos manuais, seria esperar que os títulos actualmente no mercado chegassem ao fim do seu período de vigência. Mas em muitos casos essa opção implicaria uma espera de seis anos, até 2023, para que os livros adoptados no presente ano lectivo chegassem ao final do seu ciclo natural de vida.

Nessa situação estão actualmente as obras de todas as disciplinas do 1.º ano, com excepção da Educação Moral, de todas as disciplinas do 2.º ciclo exceptuando a mesma Educação Moral, Educação Tecnológica e Educação Visual – Inglês também, mas o impacto não se reflectiria nesta obra – e ainda as disciplinas de Física e Química A, Matemática A, Matemática B, Matemática Aplicada às Ciências Sociais e Português dos cursos científico-humanísticos.

Talvez por isso, as editoras preferem manter-se à margem do debate relançado nesta semana pela Academia de Ciências. “O Acordo Ortográfico é actualmente uma questão que, por ser um tratado internacional, diz respeito à diplomacia portuguesa, com o apoio técnico dos linguistas. Qualquer avaliação do impacto de eventuais alterações ao nível do ensino é da responsabilidade do Ministério da Educação, entidade que regula o sector”, defendeu ao DN fonte oficial da Porto Editora.

Quando o actual acordo foi aplicado, recorde-se, o Ministério da Educação optou por uma introdução faseada, com os livros a serem adaptados à medida que eram introduzidos novos manuais e, também nas escolas, a optar-se pela progressividade na utilização dos novos termos. As editoras até foram fortes opositoras do acordo no passado, mas acabaram por utilizá-lo a partir do momento em que foi adoptado pelo governo e pela Assembleia da República.

Um precedente perigoso

Uma iniciativa nacional para rever o acordo poderia também abalar o equilíbrio precário em que assenta o AO. Actualmente, o entendimento vigora em Portugal, Brasil, Timor-Leste, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. A Guiné-Bissau ratificou-o, mas não o aplica na prática. Angola continua a adiar a ratificação.

Mexidas, nesta fase, poderiam pôr em causa todos os avanços dos últimos anos, o que, não desagradando aos opositores do acordo, em Portugal e nos outros países de língua portuguesa – dificilmente seria arriscado pelos partidos de governo – PS e PSD – comprometidos com a aplicação.

Na semana passada, a questão do Acordo Ortográfico foi motivo de controvérsia entre o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, e Manuel Alegre, membro da Academia das Ciências. O primeiro mostrou-se pouco disponível para mudanças no AO, acto considerado “prepotente” pelo segundo. “Como diria Salgado Zenha, unicidade e autoritarismo andaram sempre de mãos dadas”, acusou o histórico socialista, dirigindo-se ao MNE.

Fonte: Acordo Ortográfico – Ou o governo negoceia com editoras ou espera até 2023, “DN”, 12.02.17

[Destaques e “links” meus. Evidentemente, corrigi os erros de ortografia do original.]

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