Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

‘A noiva cadáver’

O acordismo militante ou o doce dom de iludir

“Público”, 16 de Fevereiro de 2017, 7:50

Nuno Pacheco

O acordo ortográfico foi feito “porque havia duas ortografias oficiais para a língua portuguesa”. É curioso: continua a haver.

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Isto talvez pareça demasiado bizarro para o comum dos mortais, mas as guerras da ortografia em Portugal continuam acesas e, pelo menos aos interessados (que deviam ser todos), recomendam-se. Depois das propostas de revisão apresentadas pela Academia e da polémica que opôs o ministro Santos Silva a Manuel Alegre, veio a terreiro o “pai” da coisa, em defesa da sua “dama” (salvo seja). Primeiro num artigo de opinião no Expresso (intitulado, bombasticamente, de “Atentado na Academia das Ciências”) e depois numa longuíssima entrevista ao Observador, João Malaca Casteleiro veio dizer que mudanças no acordo ortográfico “não têm pés nem cabeça”.

O que argumenta, então, o insistente Malaca? Que o acordo foi feito “porque havia duas ortografias oficiais para a língua portuguesa”. E que isso trazia problemas ao ensino. É curioso: continua a haver duas ortografias e pioraram (bastante) os problemas no ensino. Depois, diz que outra das razões a ter em conta é “os alunos nas escolas fugirem dos acentos como o diabo da cruz” [e, segundo a transcrição, riu-se]. E o que fazer a alunos que fogem das aulas como o diabo da cruz? Libertá-los em definitivo do ensino? Terceiro argumento: fez-se esta “unificação” (a “98%”) porque a “unificação absoluta é inviável”. Deve ter sido por isso que Portugal criou divergências na escrita de numerosas palavras (receção agora em Portugal, contra recepção no Brasil) que antes se escreviam da mesma maneira?

Querem mais argumentos fantásticos? Vejam este: ele diz que, em 1990, “tínhamos admitido algum aperfeiçoamento”. Porém, até hoje não mexeu uma palha para mudar fosse o que fosse; e agora diz que mudar seja o que for “é contraproducente” e “não tem pés nem cabeça”. Ora bem: sendo assim, porque é que noutra passagem da entrevista ele admite que podem ser feitas correcções no Vocabulário Ortográfico Comum? Então afinal pode-se mudar ou não se pode? Já agora, falando do almejado Vocabulário, recorde-se que Malaca, num parecer de 2005, garantia estar pronto (no Instituto de Lexicologia da Academia das Ciências, quando ele por lá imperava) “para efectuar, num prazo de seis meses, uma primeira versão do referido Vocabulário, com cerca de 400 mil entradas lexicais.” Passaram uns bons doze anos e o VOC? Nem vê-lo. Prometem-no agora para Maio. Seis meses, hã? 400 mil entradas lexicais, hã? O que é que parece errado aqui, digam? Deve ser, com certeza, o calendário. Outro argumento para não mexer em nada é que o acordo é internacional. Pois é. Mas por um passe de pantomina jurídica até entrou em ordens jurídicas nacionais sem ter entrado primeiro, como devia, se isto não fosse uma farsa (Moçambique e Angola ainda não o ratificaram), na ordem jurídica internacional.

A leitura da entrevista é muito instrutiva, para quem queira dar-se a esse trabalho. A um trabalho devia dar-se o Observador, já agora: substituir na entrevista “retificado” e “retificação” por “ratificado” e “ratificação”, já que é uma ratificação pelo parlamento que o texto refere. Mas se disso Malaca não tem culpa (e sim o jornal), tem culpa de tudo o resto. Diz, por exemplo: “Não estou a participar nem estou a acompanhar a questão do Vocabulário Comum”; mas logo umas linhas abaixo, esclarece: “Acho que eles têm feito um bom trabalho”. Acha? Mas acha como, se não acompanha? Deve ser da mesma forma que acha que “as vozes contra não tiveram grande expressão” no momento em que se discutiu e votou o acordo, quando é público que foram pedidos vários pareceres e que todos eles, incluindo o da Comissão Nacional da Língua Portuguesa, foram desfavoráveis ou bastante críticos excepto um. Adivinham qual? O assinado pelo próprio Malaca, orgulhoso defensor da sua “dama”.

O problema, mais para todos nós do que para Malaca (que continua arauto do inqualificável texto que patrocinou sem que lhe peçam, seriamente, contas pelas muitas promessas não cumpridas), é que a “dama” dele é mais aparentada à “noiva cadáver” inventada por Tim Burton do que a uma senhora a quem devamos respeito. “Não podemos andar a mudar a ortografia assim de forma ligeira. Qualquer alteração tem de ser muito ponderada porque afeta [sic] muita gente”. É Malaca Casteleiro quem o diz, a fechar a entrevista. Devia tê-lo dito em 1990. Poupava trabalho e muito dinheiro.

[“Público”, 16.02.17. Adicionei “links”. A imagem de topo é cópia de uma das centenas ou milhares disponíveis na Internet.]

   

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