«Acordo ortográfico: uma morte assistida» [Artur Coimbra, “Correio do Minho”]

Acordo ortográfico: uma morte assistida

Artur Coimbra

 

É um dos temas do momento, se bem que com impacto menos popular que o futebol ou a morte assistida, o da eventual revisão e melhoria do famigerado Acordo Ortográfico de 1990 (por alguns apelidado de “aborto ortográfico”), proposto, pasme-se, pela própria Academia das Ciências que desajeitadamente o deitou ao mundo. Que 26 anos depois, ainda não foi ratificado por todos os países lusófonos, o que é de per si uma enormidade e um motivo para o mandar às malvas, como devia ser, se houvesse um pingo de vergonha na cara de governantes e outros desgovernados.

Mas Sua Excelência o Ministro dos Negócios Estrangeiros, que até é professor universitário e deveria ter um pouco mais de abertura de espírito para estas questões, voltou a sublinhar que o AO90 está em vigor em Portugal e que é preciso esperar que todos os países o ratifiquem. Augusto Santos Silva admite discutir eventuais melhoramentos, mas esse momento ainda não chegou. E talvez nunca chegue, com a pressa com que esta gente se atira para canto e assobia para o lado, como se a língua fosse propriedade dos governos ou das academias, e não usufruto do povo, que se está marimbando para as consoantes mudas ou para os factos que hoje comezinhamente são dados como fatos, numa promiscuidade absurda que deita por terra qualquer objectivo de seriedade que não existe.

Por isso, Manuel Alegre, que da língua, da poesia e da literatura percebe mais que todo o governo junto, acusou Augusto Santos Silva de autoritarismo. Alegre defende que o Acordo Ortográfico deve ser melhorado, porque há situações que estão a gerar grande confusão. O Ministro dos Negócios Estrangeiros repetiu que este não é o momento para pensar em alterações. Obviamente, nunca será. Ou será quando o governo já lá não estiver, e quando aparecer gente esclarecida, competente e não enfeudada às pressões dos interesses económicos e dos lóbis livreiros e afins.

É por isso que gente ilustre advoga que não há que aperfeiçoar o “aborto ortográfico”, porque não tem emenda, o importante é rejeitá-lo, liminarmente, porque a esmagadora maioria dos portugueses não se revê nem respeita um documento que suscita as maiores dúvidas legais, porque entrou em vigor em Portugal sem estar aprovado por todos os países lusófonos. Não é acordo nenhum, não é reforma nenhuma, é capitulação económica perante o Brasil, e que, no fim de contas, nem é respeitado em Portugal, nem em terras de Vera Cruz, porque não serve para nada.
E, convenhamos, não é a ortografia que vende sapatos ou deixa de vender electrodomésticos, como não é o pretenso AO90 que retira da língua a dupla grafia em Portugal e no Brasil.

Para que serve então? Rigorosamente para nada!… Pura inutilidade!

Correio do Minho, 12.02.17

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