Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Dia: 30 de Março, 2017

«A Polémica Ortográfica» [Maria do Carmo Vieira, FFMS]

A Polémica Ortográfica

A autora da FFMS Maria do Carmo Vieira critica o Acordo Ortográfico de 1990.

 

«Obedecer [em determinados momentos] significa que nada valho»
Henry Thoreau

«A ortografia é um fenómeno da cultura, e portanto um fenómeno espiritual. O Estado nada tem com o espírito. O Estado não tem direito a compelir-me, em matéria estranha ao Estado, a escrever uma ortografia que repugno […]»
Fernando Pessoa

As palavras de Fernando Pessoa, em epígrafe, têm sido inúmeras vezes invocadas por não-acordistas e nunca é de mais transcrevê-las para relembrar aos políticos, muitos dos quais sem curiosidade e interesse em informar-se sobre a matéria, que a Língua Portuguesa, «um fenómeno de cultura» e «um legado de séculos», não pode estar sujeita a jogadas, nem dependente de aventuras que a desvalorizam, numa leveza de atitude intolerável. Foi o que aconteceu com o processo envolvendo o Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90), praticamente decalcado daquele que foi proposto em 1986, se bem que os seus autores teimem, contrariando os factos, em dizer o contrário.

Lembro que o acordo de 1986 foi uma iniciativa de José Sarney (então, Presidente da República do Brasil) muito mal acolhida em Portugal, pela ligeireza com que pretendeu varrer, entre outras situações, a acentuação – nomeadamente nas palavras esdrúxulas, o que deu azo à história hilariante de Miguel Esteves Cardoso sobre o «cágado» e no que se transformava o infeliz, respeitando-se a douta decisão. O ridículo do exemplo e o acentuar da polémica adiaram, por algum tempo, a pretensão, no intuito de acalmar as veementes reacções que, no fundo, persistiram.

Já em 1986, e, por coincidência, em sintonia com a pedagogia da facilidade e o discurso miserabilista que se ia anunciando gradualmente na Escola, os autores da iniciativa, apiedados pelas «pobres criancinhas» e pela sua aprendizagem da Língua Materna, haviam pensado na abolição dos acentos pelo facto «de os alunos nas escolas fugirem dos acentos como o diabo foge da cruz!» porque «acentos não é com eles», segundo palavras do professor Malaca Casteleiro [1]. Este virá, de novo, em favor das crianças, sugerir a «supressão de consoantes não articuladas» que, em sua opinião, se tornam «incompreensíveis para uma criança de 6-7 anos», exigindo-lhe «um enorme esforço de memorização que poderá ser vantajosamente canalizado para outras áreas da aprendizagem da língua» [2] Afiança ainda o mesmo professor, desconhecendo-se o estudo em que se terá baseado, ser «mais simples para uma criança aprender a escrever “Egito”, sem pôr o “p” porque não o articula, e “egípcios” com “p” porque o articula» [1]. No entanto, a nossa experiência mostra-nos que os alunos se surpreendem com o facto, tendo em conta a lógica existente nas famílias de palavras, e questionam precisamente os professores face a esse absurdo do AO 90.

No mesmo sentido da facilidade vêm as palavras do linguista brasileiro Evanildo Bechara, que coordenou as normas deste processo no Brasil: «Começamos a aprender a língua pelo ouvido, quando crianças. Depois aprendemos pelos olhos, porque lemos as palavras. […].  Ao abolir o trema, tiramos um peso dos ombros de quem escreve. A falta do trema, longe de ser um prejuízo, é um lucro. Deixamos de escrever o trema, mas podemos pronunciar as palavras da maneira como estamos acostumados a ouvi-las» [3]. Os dois professores esqueceram, o que é estranho, dado serem linguistas de profissão, que «A função de uma ortografia não é nem facilitar o ensino da escrita nem reflectir a oralidade; a ortografia serve para codificar e garantir a coesão da língua escrita normalizada de uma comunidade nacional.» [4]

(mais…)

Share

«Dois tempos desortografados» [Nuno Pacheco, “Público”]

.

Dois tempos desortografados

Nuno Pacheco

“Público”, 30.03.17

Regredimos, em pleno século XXI português, aos tempos em que a instabilidade ortográfica era vulgar

—————

Já aqui se falou disto várias vezes, mas como a praga não passa nem sequer se atenua, convém falar outra vez. Peguemos numa revista, entre muitas. Numa página, em título destacado, lemos a palavra “atualidades”, num texto “atuais”, lendo-se noutras páginas e em diferentes textos, “actual” e “actuais”. Lê-se também, num apontamento literário, a palavra “correta”, isto apesar de noutras páginas da revista, e em textos distintos, surgirem as palavras “correcta” e “correctamente”. Que revista pensam que é? A Atual do Expresso? Podia ser. Essa ou qualquer outra dos nossos dias. Mas é a Revista Portugueza ABC de 6 de Junho de 1929, vendida por uns módicos 1$50 e, claro, visada pela Comissão de Censura. Nela havia ainda palavras como “auctores”, “azes de cinêma”, “hespanhol”, “anciosa”, “scêna”, “sciência” e uma secção dedicada a “todos os sports” (onde se falava, claro, de “football”). Tinham passado dezoito anos sobre a reforma ortográfica de 1911 e faltavam outros tantos para a de 1945. A instabilidade ortográfica era vulgar nessa altura, não só na ABC, mas noutras revistas da mesma época. Pois em pleno século XXI português regredimos a esses tempos. Uns dirão que isso se deve à não-aplicação integral do acordo ortográfico de 1990; outros, que é precisamente a tentativa de aplicá-lo, na irrazoabilidade das suas regras, que gera o caos. E estes últimos têm comprovada razão. Basta ver o que se passa com o Diário da República, que devia ser modelar nesse zelo aplicativo, para levar as mãos à cabeça em desalento absoluto. De resto, um passeio por lugares públicos é também instrutivo a este respeito. As legendas de obras expostas em museus são uma delícia de ortografias mistas. Na exposição de Amadeo de Souza-Cardoso que esteve no Museu do Chiado, em duas paredes vizinhas e logo nos títulos de textos ali estampados, falava-se, à esquerda, da “recepção” que Amadeo tivera em Lisboa e, à direita, na “receção” que teve, à época, no Porto. Um primor. No CCB, também em cartazes enormes, lê-se que ali pode ser vista a “colecção Berardo” e, mais adiante, a “coleção Berardo”. Outro primor.

Pior, muito pior, é a sanha implacável dos que não olham a meios para aplicar o dito “acordo” a tudo o que mexa. Exemplo: um livro como Cartas e Intervenções Políticas no Exílio, de Mário Soares (edição Temas & Debates, Círculo de Leitores) está inexplicavelmente “traduzido” para acordês, isto quando qualquer carta deveria manter ao ser editada a ortografia com que foi escrita. Outro exemplo: na mais recente crónica de Ana Cristina Leonardo na revista do Expresso (a da edição de 25 de Março) ela cita António Guerreiro a propósito de Rentes de Carvalho. A frase citada (de um artigo que ele escreveu no Ípsilon em 6 de Maio de 2016) refere, a dada altura, “a tendência conservadora, regressiva e inócua de grande parte da actual ficção narrativa”. Isto foi o que ele escreveu. Na transcrição aparece “atual” em vez de “actual”. Ora sabendo que a autora, tal como o citado, não são partidários do chamado AO90, a emenda é da responsabilidade do próprio Expresso. Desrespeito absoluto. Que é norma instituída. Há editoras que forçam os autores, até os vencerem pelo cansaço, a aceitarem uma ortografia que não usam e rejeitam. E há quem fique com livros por publicar por causa disso. Até ilustres membros da Academia das Ciências de Lisboa!

Contra este estado de coisas, já muito se tem feito. Mas não chega, como é bom repetir. Entre as acções anti-acordo, está em curso uma deveras curiosa: conseguir estampá-lo em papel higiénico. Em rigor não é escatologia. Há papel higiénico estampado com quase tudo, desde coisas simpáticas até coisas repugnantes: rosas, pinguins, flamingos, sapos, pais natais, noivos sorridentes, hello kittys, jacarés, arame farpado, palavras cruzadas, grelhas de sudoku, notas de dólar e de euro, caras de políticos (Che, Fidel, Estaline, Putin, etc) ou presidentes norte-americanos como George W. Bush, Barack Obama e até já Donald Trump. A que visa o AO90 chama-se Operação Folha Dupla e está em curso. Haverá para a ortografia uma “saída airosa, para bem de todos”, como em 2106 profetizou Artur Anselmo, presidente da Academia das Ciências de Lisboa? Pois se não for airosa, ao menos que seja higiénica. Útil para muitos, talvez alguns até a emoldurem.

Nuno Pacheco

[Artigo da autoria de Nuno Pacheco, “Público”, 30.03.17. Imagem de topo copiada do “blog” Malomil. “Links” meus.]

Share
Apartado 53 © 2017 Frontier Theme