Dia: 3 de Abril, 2017

Os números não mentem – 1


«O responsável pelo vocabulário ortográfico no Brasil, Evanildo Bechara, defendeu hoje que o Brasil fez mais concessões para o novo Acordo Ortográfico do que Portugal, atribuindo a tese contrária defendida por muitos ao “abuso” das consoantes mudas.»
“JN”

«O Brasil não vai cumprir seja o que for que não lhe interesse. Dizer que o Brasil cedeu alguma coisa é de uma hipocrisia total.»
Artur Anselmo

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Pois está claro, “hipocrisia”, sim, mas na acepção de redonda mentira. O que aliás é natural, vindo de quem vem, já que a incontinência mental e a dissimulação verborreica são características intrínsecas de qualquer mentiroso compulsivo.

Porém, se qualificar patranhas e designar aldrabões — ainda que, polidamente, com adjectivação inócua — é algo meritório, não basta qualificar, há que também quantificar: aquela é mais uma mentira de todo o tamanho, pois, mas de que tamanho é esse “todo”, ao certo?

Vamos a números, então.

Entre Setembro e Outubro de 2008 apurei os primeiros resultados sobre a base-de-dados que na altura se chamava “Mordebe” e cujo “Vocabulário de Mudança” compreendia então um total de 4497 entradas.

Nessa época toda a gente dava palpites sobre o assunto mas ninguém podia dizer (e muito menos comprovar) quais eram os níveis de afectação (infecção) ou de incidência do AO90 sobre o Português-padrão, por um lado, e sobre a variante brasileira, por outro. Ou seja, quantas “palavras” (lemas) mudavam à força, de um lado e do outro do Atlântico, e que percentagens comparativas os dois totais representariam.

Contas à moda do merceeiro da esquina, evidentemente, pois bem sabemos que as palavras não são todas iguais, não têm o mesmo “peso” no uso quotidiano e no registo, nível ou tipo de texto, em que as ocorrências dependem (não apenas em frequência) de inúmeras variáveis.

Mas adiante. Se era números que pretendiam, já em 2008, pois então lá foram esses números, tudo importado página a página para folha-de-cálculo, tudo contado, comparado e analisado com fórmulas específicas (há um programa Excel…ente para análise estatística de texto), até chegar às primeiras respostas.

A começar por esta: em que percentagens “afetou” o AO90 o Português-padrão e a variante brasileira?

Resposta: 1,6% e 0,6%, respectivamente.

Ou 1,5% e 0,5%, claro, porque pode haver oscilações de uma décima para mais ou para menos, dependendo de algumas variáveis, como será o caso do montante total considerado como termo de comparação, isto é, o universo lexical considerado na análise: 90 mil, 100 mil ou, no limite, 230 mil verbetes dicionarizados.

Mas isto foi há quase nove anos. Então e agora, em 2017, como está a coisa? Tudo na mesma, como a lesma, ou não há novidades, como no quartel-general de Abrantes?

Bem, agora, oito anos e meio depois, o dito “Vocabulário de Mudança” inchou, por assim dizer: passou de 4497 para 6621 entradas (lemas).

Fartaram-se de trabalhar, pelos vistos, lá pelo “Portal da Língua”; ao longo de 3060 dias conseguiram desencantar mais 2124 palavrinhas demolidas pelo aleijão. No entanto, mesmo descontando as palavras entretanto integradas no “corpus” linguístico, como no caso das provindas das chamadas “novas tecnologias”, ainda assim as diferenças não bulem com os resultados iniciais.

Uma percentagem é uma percentagem (ou seja, é para alguns um aborrecimento) e portanto a coisa pouco ou nada oscilou neste interim: se à partida o Português-padrão sofreu quase o triplo das alterações que tocaram ao Brasil, agora a situação global mantém-se mas… a dobrar!

Não existe contradição alguma na formulação antecedente: em 2008 concentrei-me apenas nos totais globais, em bruto, enquanto que nesta actualização incluí um parâmetro de análise absolutamente essencial: dos 0,6% que “afetam” a variante brasileira, quantos casos dizem respeito à abolição do trema? .

Pois isto é que é mesmo surpreendente: 0,3%!

Metade (0,3%) da afectação total do AO90 sobre a variante brasileira (0,6%) corresponde a palavras em que desaparece aquele sinal de acentuação. O que significa, na prática, que a incidência (a destruição) no Português-padrão afinal não é de quase o triplo, é superior a o quíntuplo, é cinco vezes mais, mudou mais 500% do que a variante brasileira!

Note-se que os brasileiros assinaram e depois denunciaram o AO de 45, no qual a abolição do trema já estava prevista. Portanto, isto não é uma “mudança” imposta pelo AO90, é apenas uma reposição do acordado em 1945. E não pode tal “pormenor” ser invocado como “cedência” da parte brasileira, evidentemente, porque isso mesmo já tinha feito a outra parte 45 anos antes.

E se isto é assim no que respeita ao trema, o que sucederá quanto a outros diacríticos? E no que diz respeito a questões de hifenização, já agora?

De facto, a questão não é apenas que Bechara minta com quantos dentes tem na boca ou que Malaca outro tanto faça amiúde, com igual desfaçatez e ainda que use dentadura postiça integral. Isso já é folclore, por conseguinte, a questão agora será responder finalmente a isto: quantas palavras mudam efectivamente no Brasil, ao certo?

Sempre tivemos a resposta para tão singela pergunta mesmo debaixo de nossos fungantes narizes mas, por algum motivo que em absoluto me escapa, jamais alguém se atreveu a verbalizá-la.

Pois bem, digo eu, que devo ter um apêndice nasal pouco fungante, ele é mais para o fumegante.

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AO90: imposição ‘manu militari’ [Pacheco Pereira, “Público”]

 

https://www.facebook.com/Publico/posts/10155188183691983

O nó górdio

O prémio a Frederico Lourenço não nos deve iludir. O mundo sobre o qual ele estuda, escreve e traduz é cada vez menos presente no espaço público do saber, onde cada vez menos se sabe sobre o mundo clássico.

José Pacheco Pereira
3 de Abril de 2017, 6:30

Dedicado à memória de José Medeiros Ferreira,
que uma vez, numa entrevista, falou do “nó górdio”
a uma jornalista, que lhe disse que não sabia o que aquilo era
e recebeu como resposta: “Se não sabe, devia saber”.

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Um Prémio Pessoa mais que merecido foi atribuído a Frederico Lourenço, pela sua obra de especialista e tradutor de literatura clássica, em particular literatura grega. A sua recente tradução da Bíblia a partir do texto grego tem sido saudada como um acontecimento cultural de relevo, mas Frederico Lourenço já tinha traduzido muitos outros textos clássicos, com relevo para Homero. É apenas pena, mas as coisas são como são, que muitos Prémios Pessoa sejam para o homem que foi falado nos seis meses anteriores ao prémio, mas isso é infelizmente um costume cada vez mais comum, resultado da mediatização de toda a vida pública. Num dos sítios em que esta mediatização mais estragos faz é na cultura, mas isso não invalida o mérito do prémio a Lourenço.

O prémio a Frederico Lourenço, no entanto, não nos deve iludir. O mundo sobre o qual ele estuda, escreve e traduz é cada vez menos presente no espaço público do saber, onde cada vez menos se sabe sobre o mundo clássico, e, embora nunca se soubesse muito comparado com os países da Reforma, também cada vez menos se sabe sobre a Bíblia. Não nos devemos iludir quanto ao valor que a escola, a universidade, a sociedade, a comunicação – já para não falar das chamadas “redes sociais” – e a política hoje dão às humanidades e aos estudos clássicos. Esse valor é quase nulo. Pelo contrário, é entendido como um conhecimento inútil, que justifica o corte de financiamentos, a colocação no último lugar da fila, quando não da extinção curricular, das disciplinas do Latim e do Grego, que conseguem ficar atrás da Filosofia. E não é só este cerco às humanidades clássicas — em bom rigor a todas as humanidades — é a sua desvalorização pública implícita em muito documento, declaração política, e em acto.

O mais flagrante exemplo é a defesa de um Acordo Ortográfico que se pretende impor manu militari, e que corta as raízes ortográficas do português no latim. Já para não falar das invectivas contra o conhecimento daquele “comissário” jovem que melhor do que ninguém explica a atitude do extinto Governo PSD-CDS para com estas matérias. E quem escreve isto considera que se é tanto ignorante se não se souber o que é o princípio de Arquimedes, ou a segunda lei da termodinâmica, como desconhecer quem era Polifemo ou Salomão, ou Judite ou o Bom Samaritano.

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