Dia: 29 de Abril, 2017

“Voltar a aprender Português” [Ana Mesquita, deputada]

Confesso que foi difícil ouvir esta… “audição”. De facto, levar com a longa arenga inicial de Malaca Casteleiro é estucha que não se deseja a ninguém. No seu característico tom enfastiado e gemebundo de quem faz um tremendo favor à humanidade por aturá-la, o homem desfia as patranhas do costume, todas e, desta vez, mais algumas; chega até a fingir, este poeta do fingimento, verdadeiro artista incontinente, que é dor a dor que deveras não sente. Enfim, resumamos a estopada: são 15 excruciantes minutos de “exposição”, logo de entrada, e mais à frente o homem serve outras doses de maçada (Patranhas à Malaca, um pitéu).

Mas nem tudo se perde nesta “audição”. Quem porventura conseguir chegar ao minuto 31 da gravação sem adormecer, saltando por cima das tergiversações de uma deputada do PSD e de um colega dela do PS, então poderá escutar algumas observações acertadas da autoria da deputada Vânia Dias da Silva (CDS-PP). E de seguida, a partir do minuto 37:30, destaque especial para a extraordinária desmontagem que Ana Mesquita (PCP) faz de todos os “argumentos” aduzidos por Malaca.

Eu disse “desmontagem”? Foi lapso, peço desculpa. É uma verdadeira demolição.

Transcrevo em baixo o grosso das pancadas do camartelo.

[38:25] Ana Mesquita

Relativamente a esta questão, e a algumas questões que aqui nos trouxe, nós temos de facto muitas dúvidas. Por um lado, quando se fala da questão da uniformização, e o senhor professor colocou de outra forma, de uma “unidade essencial”, temos alguns problemas quando há criação de novas palavras, que não existiam sequer no português do Brasil, tudo bem, nós sabemos que depois há aqui questões próprias de cada Língua mas parece-nos que vamos então em sentido diverso, vamos num sentido de divergência. Por outro lado, quando nós fazemos uma análise comparativa relativamente a esta matéria é impossível afirmar que esta uniformização da grafia possibilite de facto uma suposta “unidade essencial”. E eu aqui passaria a um exemplo mais concreto. É porque, se nós tivermos a oportunidade de fazer uma análise comparativa do que são versões portuguesas e versões, por exemplo, de português do Brasil, de obras comuns, substituindo apenas e só a questão da grafia, no sentido da sua uniformização, o texto continua a não fazer sentido nenhum! Ou seja, há diferenças que suplantam imensamente a questão da tal “unidade gráfica essencial”. E, portanto, até que ponto é que, então, conseguimos algum tipo de uniformização? Porque não nos parece que esteja a ser conseguida! Porque se nós fizermos esta leitura vamos continuar a ter, de facto, imensas, um mundo, um mar de diferenças, que não é fácil ultrapassar. Gostaríamos também de perceber, e isto aliás até se liga com outra questão: é que no próprio “Guia Rápido para a Aplicação da Nova Ortografia”, já de há algum tempo, se dizia que o acordo uniformizava não a forma de todas as palavras mas as regras da escrita. Ora, se nós fizermos esta comparação, nem uma coisa nem outra. De facto! E, portanto, o que é que nós temos aqui em cima da mesa, verdadeiramente?

Outra questão que nós colocamos é que consideramos que a política da Língua não pode ser um resultado, um mero resultado da dimensão das comunidades falantes, dos interesses editoriais subjacentes a cada uma destas comunidades, e que deve partir de um pressuposto que é a igualdade entre os vários países. Ora, assim sendo não podemos nunca falar de dois lados neste acordo. Temos de falar de uma vasta comunidade com muitos países e, portanto, até que ponto nós estamos a falar efectivamente disto, porque o que nos parece é que há uma subjacência, o que está subjacente aqui é fundamentalmente Portugal e o Brasil. Ora, há mais países aqui envolvidos. 

Por outro lado, temos outra dúvida relativamente a uma questão que foi aqui levantada, e muitas vezes é levantada, é que este processo foi também um processo de simplificação, no sentido de ser mais fácil para as crianças aprenderem a Língua e poderem de facto entendê-la melhor e que, portanto, voltar para trás era um desastre porque já houve muitos milhares de crianças que foram formadas com esta nova grafia. Não estaremos nós a menorizar quer as crianças, quer os professores, que nomeadamente aprendem línguas estrangeiras com uma complexidade em termos daquilo que é a escrita e a não correspondência da fórmula escrita àquilo que é expresso, imensa, não é?, pensemos, se calhar, no Inglês, no Francês, no Alemão, em que se nós formos a ler aquilo, tal e qual, para nós é dificílimo, e no entanto as crianças todos os dias aprendem uma Língua nova, se for necessário. Portanto, porque é que é tão mais difícil voltarem a aprender o Português?! Numa formulação antiga. Seria assim tão complicado? Num contexto que eu aqui também deixava, que é o seguinte: é verdade ou não é verdade que a esmagadora maioria dos livros que existem, nos acervos públicos, estão ou não estão escritos na grafia anterior? E, portanto, se a maior parte dos suportes, hoje em dia, da Língua, ainda hoje, não estão eles ainda produzidos no acordo anterior ao acordo ortográfico de 1990? E se essa não é de facto a maior base de suporte que, ainda assim, temos disponível.

São questões que nós temos e evidentemente interessa-nos detalhá-las e perceber um pouco o seu alcance e eu deixava de facto uma última questão. Que é: qual é o actual ponto da situação? Porque nos parece, efectivamente, que a aplicação e o uso corrente, que está neste momento, quer nas escolas — onde também há muitos problemas — mas ao nível  da sociedade em geral, na comunicação social, nos documentos oficiais, é de facto de uma grande irregularidade, que eu não sei se alguma vez, nos tempos mais recentes, tivemos a oportunidade de assistir a um fenómeno desta dimensão.  É porque em certas alturas, e nomeadamente na comunicação social, ninguém se entende a escrever! Todos os dias temos exemplos que nos devem merecer preocupação e reflexão.

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