«Breve reflexão sobre a minha esquisitíssima profissão» [Pedro Barroso, músico]

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Breve reflexão sobre a minha esquisitíssima profissão

Tenho um grave problema pessoal e profissional. Não sei o que faço.

Normalmente as pessoas sabem o que andam a fazer: – são canalizadores, médicos, professores, carpinteiros, coisas assim.

Ora eu não. Desde que fabricaram este “acordo ortográfico” desconheço a minha profissão, e peço misericórdia por isso.

Vejamos. Eu conto.

Em pequenino era prendado e dava sempre zero na redacção. Hoje “redação, fato, receção e direção” entre muitas outras palavras, perderam o “c” portanto a coisa ficou de “facto” complicada e sem …”direcção”. Perturba. Desorienta.

Hoje digo ao autocarro “pára” e ele diz que é “para”. Quero um autocarro “para” qqr lado e ele baralha-se e …”pára”! Caos absoluto.

Em jovem, fui “actor” no TEC. Mas essa profissão, estranhamente, desapareceu. Hoje existe uma coisa a que se chama “ator” que eu situo entre os atilhos de sapatos e sei lá o quê. E eu, sinceramente, custa-me cada vez mais a dobrar; uso sapatos de pala e calçadeira e acabei por dedicar-me mais à composição e à música. Tive de abandonar.

Mas continuo com o mesmo problema grave. Não saber no fundo, como se chama aquilo que faço.
Costumo chamar ao que produzo “concertos”; embora sinta que, de facto – embora toque piano e fale francês…- um concerto é uma coisa com maestros de labita, Beethoven, Rachmaninov, etc. Ora bem. Coisas sérias, a preto e branco etc. Não é propriamente o caso. Normalmente levo camisa e vou até com a fralda de fora. Não deve ser concerto, portanto. Já não sei.

Provável alternativa deveria ser “espectáculo”. Estou hora e meia, duas horas seguidas em palco com os músicos, enfim. “Espectáculo”. Talvez. Contudo, essa expressão parece-me mais adequada ao Circo, lembra-me mais uma trupe do Circo Chen ou talvez os trapezistas do circo de Moscovo. Isso sim. Espectáculo. Ou o “Preço certo” do Fernando Mendes. “Espectáculo”! Portanto, também fico aflito perante o desafio, como podeis supor, por razões de total incapacidade em assumir tal tipo de arriscadas “performances”.

“Performances”. Bem lembrado! Poderia também usar, de facto, este termo estrangeirado; mas, francamente, “performance” parece mais tirado do Atletismo, Ciclismo ou Natação, cujos também já não são de minha pratica corrente. E quando subo ao palco, raramente é na intenção de entrar no Guiness por qualquer “conseguimento”, como pretendia a nossa inefável “Presidenta” da AR.

Um amigo pianista sugeriu-me que passe a usar e expressão “mostra”. Ora bem, eu já não digo nada, estou por tudo. Porém, em português a palavra “mostra” tem uma pejorativa conotação de exibição pública e eu, – além de já não ter grande vaidade pessoal em mostrar esta galopante perda de charme físico…- não quero problemas do género com a Policia. Sou um cidadão de bem. Mostra?! Deus me livre.

Mostra, em inglês seria “show”; mas isso está destinado, penso eu, a actuações de Casino, às “Blue Belle girls e seus partenaires”, coisa que por razoes óbvias, nunca poderei integrar.

Em brasileiro – traduzido um pouco à pressa, penso eu…- a coisa virou “xô”. Ora “xô” é uma forma que minha avó me ensinou para afastar as galinhas. Fico sem perceber. Fazer “xô” resultará à frente de espectadores? Estranho. Tenho de experimentar um dia; mas não quero ninguém ofendido. Preciso de viver.

“Actuações” também já não existem, suponho. Hoje são “atuações”, o que fica confuso. Imaginem eu tratar assim por tu toda a gente. Não concordo. Sou uma pessoa educada e tiro o chapéu às senhoras e tudo. “Atuações” parece-me uma intimidade muito mal-educada. Recuso.

Isto recorda-me que me habituei na vida a considerar que à minha frente estavam “espectadores”. Era um caminho – para quem está assim perdido – saber pelo menos a quem se destina o que faz. Uma ajuda. Mentira. Hoje os pobres foram remendadamente convertidos em “espetadores” coisa que lhes deve doer imenso e afasta as pessoas. Tenho pena.

Vou continuar assim, sem saber o que faço; e peço encarecidamente que mudem este acordo ortográfico para não ter de emigrar para um pais que preserve os cês, onde os factos não sejam fatos, até porque de facto não uso fato, e gostava de ganhar a vida sem ter de espetar ninguém. Incomoda-me.

Atentamente. Muito obrigado.

Pedro Barroso

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