Dia: 13 de Junho, 2017

Adeusinho

Deve ser embirração minha, então. Nunca pude com aquele programinha pretensioso, paternalista e petulante (ou “peneirento”, no jargão do milieu), e muito em especial desde que o dito programinha assumiu o papel de órgão central de propaganda e intoxicação acordista.

É surpreendente, por conseguinte, que uma pessoa com idade mais do que suficiente para ter tento na bola (e na língua) esgalhe tão rasgados encómios àquela tremenda pepineira. A função daquilo consiste basicamente em enfiar ao povo o AO90 goela abaixo.

Ah, vai acabar? Ora ainda bem. Adeusinho, sim?

Li no Ciberdúvidas um texto que me entristeceu: o de que a RTP irá interromper (terminar?) o programa “Cuidado com a Língua”. Trata-se de um didáctico magazine, iniciado em 2006, e que vai na sua 9ª série. Um projecto interessante de promoção da nossa língua, “ao mesmo tempo informativo e lúdico, divertido e com algum humor q.b.”.

A confirmar-se este óbito linguístico, e embora desconhecendo o contexto da decisão, não posso deixar de criticar mais um duro golpe no quase deserto de iniciativas públicas para se bem falar e escrever. Neste caso, tratando-se de um programa do serviço público de televisão, bom seria sabermos as razões que levam a esta sentença. Questão de audiência? Desconsideração do tema? Outras prioridades de programação?

Parte da linguagem televisiva deixou-se capturar pela indigência semântica, gramatical e fonética. Há jovens profissionais, no seu esplendor de idade e de ignorância, a debitarem um paupérrimo português com a mais convencida conversa para “com vocês”. Por sua vez, oráculos surgem nos nossos ecrãs com erros linguísticos primários. Tudo rápido, tudo excitante, tudo avassalador, tudo misturado, mas tudo cada vez com menos atenção ao pobre português falado e escrito.

Se alguém estiver disposto a coligir erros na nossa língua, sugiro um lápis e um bloco para apontar o que se diz em certos programas de televisão. Há de tudo em avantajadas doses. Deixo aqui o que anotei em poucos dias. Há, evidentemente, os já batidos erros desde “interviu” a “entreteu”, “hadem de ser” a “houveram”, “há tempos atrás” a “à condição”, e a fonética nunca emendada dos “acórdos”, das “hepátites” e “bácterias”, dos “juniores” e “seniores” (que são graves com a tónica na penúltima sílaba), dos “lidéres” em vez dos líderes, da “rúbrica” em lugar da rubrica e do “tem a ver” pronunciado como se fosse “tem a haver”. Ouvi, também, a “hetacombe” de “quaisqueres” crises qualificadas como humanitárias, “despoletadas como constrangedoras e confrangedoras, entendidas como vocábulos sinónimos. “Dignatário” sem dignidade é o que há para aí mais, eminentes trocados por iminentes nem só com eminências pardas, “encapuçados” sem capuz também abundam no crime e “cônjugues” com dois u é meio-caminho andado para o divórcio. Tudo com o bem-estar linguístico do mal “mau-estar”. Tudo “expontâneo” nos “mídia” (que fino, hem!). Entre o uso de de ou que é um fartote: “deve de ser”, mas “tem que ser” “enquanto que for”). E é claro que se agradece aos convidados “terem aceite em vez de “aceitado”. “Precaridade” (sem o pobre e) “empreendorismo” e “competividade” (engolindo uma sílaba), perca (não me refiro ao peixe do Nilo) no lugar de perda, por ventura em vez de porventura, “concerteza” com certeza, “prejorativo”, “preverso” e “previlégio” são erros que “saiem” à “descrição”.

Cuidado com a língua” alertava para exemplos concretos de erros nos noticiários, que, todavia, persistem. É que, nesta matéria, o erro faz parte da moda. Ou porque se acha que o erro deixou, aparentemente, de o ser (correndo-se até o risco de quem diz correctamente ser olhado como usando mau português), ou porque a correcção exige predisposição para tal e isso dá muito trabalho…

Há, ainda, a “terceira via” do “pós-acordismo” ortográfico, em que, no meio de tanta confusão, se escrevem palavras que nem correspondem à anterior escrita, nem ao AO (por exemplo, fato para facto e contato sem tacto…). Imagino a trapalhada nas escolas!

Em suma, vai acabar o que creio ser o único programa televisivo sobre a nossa língua. Resistiu muito tempo, mas cai no tempo onde falar e escrever melhor conta pouco. No entanto, não há dia que não se fale da lusofonia e se lhe teçam louvaminhas. Tudo teatro, tudo encenação, quando, ao mesmo tempo, se menospreza a essência e pureza da língua.

António Bagão Félix

[“Público”, edição em papel, 13.06.17. Adicionei “links”.]

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