Amnésia colectiva, ignorância geral, estupidez militante

Foi, pelo menos parcialmente, sob este cenário neo-imperialista que o chamado “centrão”, os partidos políticos do “arco da governação”, PS e PSD, fizeram passar a tremenda aldrabice no Parlamento. Foi por isto e foi também por motivos bem mais objectivos e comezinhos: por uma questão de “disciplina partidária“, por não saberem sequer, ao certo, aquilo em que estavam a votar, mas também — nos casos dos deputados mais “militantemente” acordistas — porque se tinham deixado deslumbrar por um sentimento neo-imperialista que parecia prometer um novo mundo de oportunidades; com sorte, quem sabe, se calhar até algumas oportunidades pessoais.  Influiu neste processo, igualmente, e provavelmente até mesmo de forma decisiva, o chamado “jogo político” (vocês deixam passar agora o nosso projecto-de-lei, depois nós deixamos passar o vosso); quantas reuniões “informais”, quantas negociações avulsas, quantas conversas “de pé-de-orelha” se terão cochichado naqueles palacianos passos perdidos para garantir a aprovação da maldita Resolução parlamentar?

Não será pelo menos “um bocadinho” estranho que tão patente quanto absurda vigarice tenha sido aprovada por esmagadora maioria, com apenas quatro votos contra, com apenas dezassete abstenções e com algumas ausências extremamente convenientes no exacto momento da votação?
Uma história (muito) mal contada [VII] – Os passos perdidos

«Como foi possível?»
«Algumas pessoas nos perguntam e muitas outras se interrogam: como foi possível que a entrada em vigor do “acordo ortográfico” de 1990 tenha sido aprovada pelo Parlamento? Se a esmagadora maioria do povo português demonstra a sua aversão “àquilo”, como espectacularmente demonstram todos os inquéritos e sondagens de opinião, como puderam 230 deputados aprovar a RAR 35/2008 com 17 abstenções e apenas quatro votos contra?»
O que foi afinal a aprovação da RAR 35/2008?

 

Parlamento votou por unanimidade candidatura de Lisboa a agência europeia, mas a maioria esqueceu-se

Foi há pouco mais de um mês que os deputados, todos, por unanimidade, saudaram e apoiaram a candidatura de Lisboa para sede da Agência Europeia de Medicamentos. Agora, alguns questionam a escolha e sugerem alternativas.

A acta das votações está online, para quem não acreditar. No dia 11 de Maio último, “a Assembleia da República, reunida em plenário, saúda e apoia a candidatura de Portugal à fixação da sede da Agência Europeia de Medicamentos em Lisboa, como de interesse nacional”. Esta era a conclusão do “voto de saudação”, que refere Lisboa por três vezes, aprovado por unanimidade pelos deputados. Para os mais cépticos, é o “voto n.º 306/XIII/2.ª” e também pode ser consultado no site do Parlamento o resultado da votação: “Aprovado por unanimidade.”

Porém, nos últimos dias, depois das críticas de alguns autarcas (do Porto, sobretudo), vários deputados começaram a criticar o sentido do seu próprio voto. E também aqui quase que há unanimidade. A falta de memória varreu todos os quadrantes (com a excepção aparente do PCP).

Cecília Meireles, do CDS, acha agora que é um “provincianismo”. Catarina Martins, do Bloco, deu uma pirueta e afirmou: “Eu julgo até que se devia decidir que Lisboa não era a melhor opção e depois olhar para as outras cidades do país que estão em condições de o fazer, seguindo exemplos de outros países que não concentraram as agências europeias nas capitais.” Um grupo de deputados do PS, o partido proponente da “saudação” à candidatura de Lisboa, quer, agora, estudos que comprovem a validade do que há um mês não teve dúvidas de votar. Outros deputados, do PSD, avançam com localizações melhores: Braga, Coimbra… O vice-presidente social-democrata, Miguel Santos, quer até um “toque de verdade”: “Consegue o ministro da Saúde verbalizar, com um toque de verdade, das razões para tal decisão e dos argumentos para preterir outras cidades portuguesas?”.

O alerta para esta crise de memória colectiva foi dado pelo investigador Nuno Garoupa, ex-presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que na sua página na rede social Facebook, lembrou o sentido da votação de Maio para criticar a “hipocrisia” geral, dos partidos aos media: “O que impressiona mais não é a hipocrisia dos partidos. Nem dos seus deputados por Porto, Braga ou Coimbra que aprovaram o Voto de Saudação na Assembleia para depois romperem as vestes na praça pública! O que mais impressiona é a comunicação social tolerar este espectáculo!”.

“Público”, 15.06.17

“Post” sugerido por Octávio dos Santos

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1 Comment

  1. Olga Rodrigues

    O que mais impressiona é nós todos irmos tolerando este espectáculo.

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