Dia: 7 de Setembro, 2017

“O idioma faz a nossa identidade”

Mais uma reversão ortográfica, salvo seja. Mesmo após todos estes anos desde que nos caiu em cima a malaquenha maldição, as pessoas continuam a acordar para a realidade — ou seja, vão desacordando.

Este é outro caso flagrante: oito anos depois, um “blogger” que apoiara entusiasticamente o AO90 declara agora que o rejeita categoricamente e rebate, um por um, todos os argumentos que ele próprio tinha enumerado para sustentar esse apoio.

É natural. Esmoreceu no entusiasmo, primeiro, faliram os argumentos, depois, e volatilizou-se-lhe o apoio, por fim, porque a realidade é mais sólida do que uma parede; mas, felizmente, não partiu a cabeça quando bateu com estrondo na dita parede. Pelo contrário, a pancada, digo, o embate, terá sido com certeza absolutamente indolor, uma espécie de despertar súbito e clarividente.

Como por definição acontece quando um chorrilho de mentiras esbarra e espatifa-se contra factos concretos, dúvidas feitas em cacos transformam-se — suave milagre — em sólidas convicções.

Em 2009 o Mark dizia “sim”, em 2017 o Mark diz — definitivamente — Acordo Ortográfico: Não!

E diz muito bem. É esta a nossa identidade.

Ainda o Acordo Ortográfico.

Mark às 16:20

O assunto está praticamente dado por encerrado entre todos, não obstante ainda proliferarem movimentos que se lhe opõem. Entre os organismos estatais, foi adoptado; órgãos de Comunicação Social e demais imprensa, de igual modo, gradualmente o implantaram, com uns quantos que se recusam. Há individualidades que lhe fazem frente, e eu, um fiel apoiante, vejo-me do outro lado. Não farei militância anti-AO, se bem que lhe retirei todo o apoio. Torna-se oportuno contextualizar.

Quando o AO entrou em vigor em Portugal, adoptei-o na minha escrita, inclusive no blogue. Por pouco tempo, porque cedo me dei conta da minha impossibilidade em adaptar-me às novas regras, ainda que as tenha, por conta própria, estudado. Esteticamente, foi-me impossível. Mantive, entretanto, o meu apoio ao Acordo. Perfilhei da maioria das razões invocadas pelos seus defensores, as quais expus aqui no blogue – tenho textos escritos, antigos, sobre esta matéria; por 2011, inclusive, lerão textos meus com a ortografia reformada. O principal argumento prende-se à disparidade entre as normas portuguesa e brasileira. Consoantes mudas, acentuação gráfica, sobretudo, o que levava, numa primeira análise, a que os leitores se apercebessem das divergências quase incomportáveis num mesmo idioma, divergências essas que o enfraqueciam no plano internacional, designadamente na hora de um aluno escolher entre qual norma aprender. Anos depois, continuo a considerar este argumento como aceitável e pertinente. A Língua Portuguesa queda enfraquecida com tamanhas, embora não abismais, diferenças, que existem nalguns idiomas, como no inglês, mas que não existem noutros, como no castelhano, sendo que o português goza de bastante menos prestígio do que ambos.

O que terá mudado? Sucintamente, o modo como encaro o Acordo. Continuo a ser partidário de uma uniformização, opondo-me veementemente ao processo em curso de simplificação. O Acordo Ortográfico de 1990 descaracteriza o idioma. A raiz etimológica, em detrimento do critério meramente fonético, sofreu um duro golpe. O primeiro foi-lhe dado justamente por Portugal, em 1911. Não sou um purista; todavia, não posso compactuar com este atentado ao idioma. Uniformização ortográfica, sim; AO de 1990, não.

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