Dia: 1 de Outubro, 2017

As eleições autocráticas

«Como foi possível?»
«Algumas pessoas nos perguntam e muitas outras se interrogam: como foi possível que a entrada em vigor do “acordo ortográfico” de 1990 tenha sido aprovada pelo Parlamento? Se a esmagadora maioria do povo português demonstra a sua aversão “àquilo”, como espectacularmente demonstram todos os inquéritos e sondagens de opinião, como puderam 230 deputados aprovar a RAR 35/2008 com 17 abstenções e apenas quatro votos contra?» [“Post” da ILC em 25.09.12.]

«Na votação de hoje na Assembleia da República, estava em causa apenas a adesão de Timor-Leste ao Acordo Ortográfico e a possibilidade deste poder entrar em vigor após três ratificações, como estabelece o segundo protocolo modificativo.» [“Despacho” da agência Lusa, 16 de Maio de 2008. Este “despacho” foi reproduzido na altura pela generalidade da imprensa portuguesa.]

Eu próprio, tal como muitos Sr.as e Srs. Deputados, assisti a um lancinante apelo de um português que está em Timor e que pedia que se ratificasse este Acordo Ortográfico para que possa ser uma realidade o ensino do Português em Timor Leste, com professores portugueses mas também brasileiros, ou angolanos, ou moçambicanos. [Excerto de intervenção em plenário de Pedro Mota Soares (deputado), durante a discussão da RAR 35/2008, em 16 de Maio de 2008.]

Nove anos depois da inacreditável aldrabice que foi a sua  aprovação pelo Parlamento e passados sete anos desde que entrou em vigor, podemos agora fazer um diagnóstico fidedigno do embuste a que se convencionou chamar “acordo ortográfico”, seus desastrosos efeitos, suas tenebrosas consequências.

Toda a gente já percebeu que o AO90 consiste basicamente (ou exclusivamente) na “adoção” da ortografia brasileira.

“Adoção” essa que se tornará integral a partir do momento em que for aprovada a respectiva “revisão” e que, portanto, seja definitiva e oficialmente extinta, liquidada, exterminada a ortografia portuguesa propriamente dita.

Já sabemos que o Brasil em absolutamente nada cedeu e que o extermínio, qual “solução final”, sucedeu apenas em Portugal e nos países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP).

Por conseguinte, depois de um dia para “refletir”, chegou mais um dia para (não) ir à “seção” de voto legitimar a aldrabice que foi — por esmagadora maioria — a aprovação do AO90, sancionar a destruição do património nacional que TODOS os partidos políticos legitimaram com a sua bovina aquiescência; hoje, 1 de Outubro de 2017, é um dia (que amanheceu bonito e tudo) para de novo negar que o “fato” está de facto consumado, ou seja, que a coisa “já era”, acabou-se, “adotamos” a ortografia brasileira e pronto, não se fala mais nisso.

Não, de todo. Ou, pelo menos, há um português — entre muitos outros, estou certo — que jamais admitirá tão inconcebível humilhação, imperdoável capitulação, nojenta bajulação.

Por isso, não, não irei votar. Recuso-me a escolher entre mercenários, aldrabões, traidores e vendidos.