Dia: 6 de Outubro, 2017

«Admirável Língua Nova (Parte IV)» [Manuel Matos Monteiro, “Público”]

Admirável Língua Nova (Parte IV)

Senhores acordistas, por paradoxal que possa parecer, é com o vosso Acordo que nasce uma profusão de erros nas consoantes mudas – eis mais um pretenso problema que o Acordo veio resolver, mas que apenas agudizou.

Manuel Matos Monteiro

 

Observe o leitor ou a leitora o seguinte passo de um livro publicado em 2011.¹

“Contar uma história bem contada, fazer um texto ficar filé. E como é que a gente faz um texto ficar filé? Queimando as pestanas no estudo da parada da literatura. O vô do Tom pediu pra gente contar a tal história do nosso reino, mas tudo o que a gente fez até agora é só garranchos, só xaboque que a gente escreve nas coxas… A gente escreve mal pra chuchu… A parada só entra areia… Mó xaropada…”

Creio que não precisarei de lhe dizer se se trata de um texto em português de Portugal (ou, se preferir, em português europeu) ou em português do Brasil. Não há – felizmente! – acordo ortográfico que ate com uma corda esta diversidade. Não deixa de ser curioso que, no passo transcrito acima, a aplicação do Acordo não altere rigorosamente nada, ou seja, não crie um átomo de aproximação entre o português do Brasil e o português de Portugal – o que é ‘per se’ bem ilustrativo da particular inutilidade desse documento de engenharia verbal quanto ao seu propósito principal. O que é diferente é irreconciliavelmente diferente. Tal diversidade (ortográfica, sintáctica, prosódica, lexical, semântica) é, ademais, prova viva da riqueza da nossa língua.

Sucede que o Acordo é aprovado (é importante ler estes documentos oficiais…) porque “constitui um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa e para o seu prestígio internacional”. Acaso alguém deu conta de que o Acordo constituiu um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa?, de que a nossa língua adquiriu mais prestígio internacional com o dito? Estará o prestígio internacional do inglês (que tem dezoito variantes) pelas ruas da amargura? O francês, coitado, tem quinze, e o castelhano, pobre dele, tem vinte e uma.

O argumento da unificação é de uma colossal ignorância – aquilo que se tentou foi apenas uma ligeira aproximação no plano da ortografia. Citando a Nota Explicativa do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa: “As palavras afectadas por tal supressão [das chamadas ‘consoantes mudas’] representam 0,54% do vocabulário geral da língua […] .» Mas essas cinquenta e quatro centésimas (mais as alterações de hífenes e acentos) podem certamente operar maravilhas – não é difícil imaginar que os Brasileiros acorrerão num frenesi às livrarias para ler Camões e Pessoa acordizados, porque “hei-de” perde o hífen e “actor” se passa a escrever “ator”, e que os Portugueses passarão a ler Guimarães Rosa e Machado de Assis como novidades fresquinhas, excitados que estão com a perda das ditas consoantes mudas.

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