Dia: 14 de Outubro, 2017

O camartelo (2)

«Os portugueses são exemplares. Têm sido exemplares desde o começo; eu tenho muitos amigos portugueses, tenho contacto com vários deles, contacto constante, pela Internet, e há um movimento geral entre os intelectuais portugueses, das mais várias procedências, contra este acordo que é uma fraude. Isto não unifica nada! Isto piora o que existe e não unifica nada. Então para quê mexer? Isto é uma fraude! Uma fraude promovida no Brasil pela Academia Brasileira de Letras. A verdade é essa. Pura e simplesmente. Por um professor de língua portuguesa que também usa fardão; é membro do clube. Ele de repente se transformou no campeão desse novo acordo. E é até hoje. E ganhou dinheiro com isso. Então não há nada a fazer. Salvo dizer a verdade, quando necessário, como eu estou fazendo agora. Até porque eu já não tenho mais nada a perder.»
Sérgio de Carvalho Pachá

————————

Como já vimos no primeiro texto desta curta série, de forma geral e a propósito de simples pesquisas na Internet, o que está em causa não é “apenas” abater umas consoantes mudas, não é “só” usar uma espécie de português “segundo as regras” do AO90.

Trata-se de, sem qualquer espécie de alternativa ou escapatória, levar com a construção frásica brasileira, o léxico brasileiro, as expressões idiomáticas e até o jargão técnico  brasileiro.

Com a espectacular excepção do WordPress-Portugal e de mais alguns honrosos e exemplares bastiões de coerência, a verdade é que a maior parte dos sistemas informáticos ou plataformas e serviços da Internet forçam os utilizadores a conviver  com a “língua brasileira” (quando não obrigam a utilizá-la mesmo) em toda a sua especificidade — a qual nada tem a ver com o Português de Portugal e dos PALOP.

Qualquer “corretor” ortográfico, por exemplo, em sistema operativo ou em “browser”, ou, pior ainda, nos programas de processamento de texto, sugere sempre “correções” não só conforme a “norma” ortográfica brasileira (vulgo, AO90) mas também segundo o próprio léxico brasileiro. Em alguns casos, dependendo do aparelho e do programa em uso, esta insuportável intrusão não se limita a sugerir brasileirismos — vemos em tempo real os nossos textos “corrigidos” para “brasileiro”, à má-fila; o António passa automaticamente a chamar-se “Antônio”, por exemplo, ou o bebé, pobre criança, converte-se em “bebê”.

Não há escapatória, realmente.

Sem entrar em fastidiosos pormenores técnicos, note-se que esta espécie de neo-imperialismo virtual não tem absolutamente nada a ver com as configurações específicas do aparelho, dos programas, dos sistemas ou das determinações do utilizador; o que acontece é que todos esses programas, parâmetros e opções já vêm, de e da origem, configurados para utilizar preferencialmente sugestões de léxico especificamente brasileiro. E as configurações determinadas pelo utilizador já deixaram liminarmente de aceitar a destrinça entre Pt-Pt e Pt-Br; agora só é possível escolher entre Pt-Br e… Pt-Br. “Eles” bem tentam convencer os incautos de que não é tanto assim mas é, sim, é rigorosamente assim. Aquilo que hoje em dia aparece por aí como sendo uma opção “Português (Portugal)” é de facto e apenas “Português (Brasil)”.

E se a “correção” instantânea ainda não fosse suficiente, enquanto processo de extermínio  linguístico, verificamos algo de muito mais grave, se tal é possível: a “correção” sistemática do passado, ou seja, a acordização (e concomitante brasileirização) com efeitos retroactivos

(mais…)