O camartelo (2)

«Os portugueses são exemplares. Têm sido exemplares desde o começo; eu tenho muitos amigos portugueses, tenho contacto com vários deles, contacto constante, pela Internet, e há um movimento geral entre os intelectuais portugueses, das mais várias procedências, contra este acordo que é uma fraude. Isto não unifica nada! Isto piora o que existe e não unifica nada. Então para quê mexer? Isto é uma fraude! Uma fraude promovida no Brasil pela Academia Brasileira de Letras. A verdade é essa. Pura e simplesmente. Por um professor de língua portuguesa que também usa fardão; é membro do clube. Ele de repente se transformou no campeão desse novo acordo. E é até hoje. E ganhou dinheiro com isso. Então não há nada a fazer. Salvo dizer a verdade, quando necessário, como eu estou fazendo agora. Até porque eu já não tenho mais nada a perder.»
Sérgio de Carvalho Pachá

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Como já vimos no primeiro texto desta curta série, de forma geral e a propósito de simples pesquisas na Internet, o que está em causa não é “apenas” abater umas consoantes mudas, não é “só” usar uma espécie de português “segundo as regras” do AO90.

Trata-se de, sem qualquer espécie de alternativa ou escapatória, levar com a construção frásica brasileira, o léxico brasileiro, as expressões idiomáticas e até o jargão técnico  brasileiro.

Com a espectacular excepção do WordPress-Portugal e de mais alguns honrosos e exemplares bastiões de coerência, a verdade é que a maior parte dos sistemas informáticos ou plataformas e serviços da Internet forçam os utilizadores a conviver  com a “língua brasileira” (quando não obrigam a utilizá-la mesmo) em toda a sua especificidade — a qual nada tem a ver com o Português de Portugal e dos PALOP.

Qualquer “corretor” ortográfico, por exemplo, em sistema operativo ou em “browser”, ou, pior ainda, nos programas de processamento de texto, sugere sempre “correções” não só conforme a “norma” ortográfica brasileira (vulgo, AO90) mas também segundo o próprio léxico brasileiro. Em alguns casos, dependendo do aparelho e do programa em uso, esta insuportável intrusão não se limita a sugerir brasileirismos — vemos em tempo real os nossos textos “corrigidos” para “brasileiro”, à má-fila; o António passa automaticamente a chamar-se “Antônio”, por exemplo, ou o bebé, pobre criança, converte-se em “bebê”.

Não há escapatória, realmente.

Sem entrar em fastidiosos pormenores técnicos, note-se que esta espécie de neo-imperialismo virtual não tem absolutamente nada a ver com as configurações específicas do aparelho, dos programas, dos sistemas ou das determinações do utilizador; o que acontece é que todos esses programas, parâmetros e opções já vêm, de e da origem, configurados para utilizar preferencialmente sugestões de léxico especificamente brasileiro. E as configurações determinadas pelo utilizador já deixaram liminarmente de aceitar a destrinça entre Pt-Pt e Pt-Br; agora só é possível escolher entre Pt-Br e… Pt-Br. “Eles” bem tentam convencer os incautos de que não é tanto assim mas é, sim, é rigorosamente assim. Aquilo que hoje em dia aparece por aí como sendo uma opção “Português (Portugal)” é de facto e apenas “Português (Brasil)”.

E se a “correção” instantânea ainda não fosse suficiente, enquanto processo de extermínio  linguístico, verificamos algo de muito mais grave, se tal é possível: a “correção” sistemática do passado, ou seja, a acordização (e concomitante brasileirização) com efeitos retroactivos

Vejamos, com algum detalhe, o caso específico da Wikipedia “lusófona”

No (excelente) serviço WayBack Machine existem 43*** registos do endereço web http://wikipedia.pt desde Dezembro de 2010. Tentemos entender o que aconteceu ao que lá estava, apesar de já não existir (a não ser, porventura e por acaso, em alguma imagem ou cópia perdida nos “blogs”) o mais ínfimo rasto dos conteúdos originais.

Se abrirmos um qualquer daqueles registos históricos é accionado redireccionamento automático (código 301) para a respectiva página actual, “revisada” segundo o AO90 e, portanto, com conteúdos reescritos à maneira brasileira. Com efeitos retroactivos, bem entendido.

De novo sem entrar em tecnicidades maçadoras, bastará referir sobre este particular que todos os domínios parcelares, separados por Língua (En, Es, Pt, Fr, De, etc.), passaram a integrar o domínio comum www.wikipedia.org num processo de transferência que decorreu entre 2008 e 2011. Até nisto os acordistas portugueses da Wikipedia tiveram sorte; caso contrário, teriam de ser eles os únicos a apagar mesmo tudo até não ficar o mais ínfimo rasto (como acabou por realmente acontecer) daquilo que entre 2004 e 2008 foi a Wikipedia portuguesa.

Ora, curiosamente, o histórico da chamada Wikipedia “lusófona” (ou seja, brasileira) mostra mais de 1600* registos desde o ano de 2003.

Ainda mais curiosamente, já em 2005 os conteúdos aparecem grafados em “brasileiro” e/ou dizendo respeito ao Brasil. Ali tropeçamos amiúde nos “contatos” e em imensas outras coisas “atuais”.

O que se passou então?

Será que afinal nunca houve uma Wikipedia portuguesa, escrita em Português de Portugal (e dos PALOP)?Jamais existiu nem alguma vez funcionou a Wikipedia portuguesa alojada em www.wikipedia.pt?

Bem, no endereço http://dez-anos.wikipedia.pt/ encontramos ainda hoje isto.

É certo que se trata de um endereço autónomo mas o facto é que este conteúdo está alojado no domínio wikipedia.pt.

O mistério adensa-se. Como e porquê terão estes conteúdos escapado à razia geral? E em que misteriosa incineradora terão sido queimados todos os outros?

Uma pesquisa Google devolve ainda 113*** resultados de conteúdos em endereços subordinados (isto é, dentro do “domínio”) www.wikipedia.pt. E restam imensas imagens guardadas nesse mesmo “domínio” wikipedia.pt…

Mas… será que até aqueles 113 já foram também exterminados, ou seja, constam da pesquisa no domínio original mas redireccionam automaticamente para o “atual”?

Bem, nestas coisas não há nada como cada qual verificar por si mesmo. Eu cá, à cautela, guardei a “fotografia” da pesquisa. Para memória futura.

E para que estas memórias, ou o que delas resta, fiquem gravadas em algum lugar menos volátil do que o “millieu” virtual e em pelo menos algumas consciências livres. Memórias abrigadas, portanto, daqueles que se entretêm a reescrever o passado para destruir a História e assim fazê-la encaixar à força nas suas alucinações.

(continua)

***Situação no momento em que os dados ou a imagem foram obtidos. Podem existir alterações a posteriori nos respectivos “sites.

[Os “links” associados a imagens abrem em nova “janela”.]

 

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