Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

O camartelo (3)

By An Siarach at English Wikipedia [Public domain], via Wikimedia Commons

«O objectivo da Novilíngua não é apenas oferecer um meio de expressão para a cosmovisão e para os hábitos mentais dos devotos do IngSoc, mas também impossibilitar outras formas de pensamento. Tão logo for adoptada definitivamente e a Anticlíngua esquecida, qualquer pensamento herético será literalmente impossível, até ao limite em que o pensamento depende das palavras. Quando esta for substituída de uma vez por todas, o último vínculo com o passado será eliminado.» [George Orwell, “1984”]

……….

Reescrever a História significa apagar, fazer desaparecer, eliminar tudo aquilo que não interessa à narrativa que alguém pretende transformar em facto consumado, em verdade incontestável. 

Primeiro, impõe-se essa narrativa com uma premissa minimalista, algo como “é assim porque tem de ser assim” e depois, caso surja alguma espécie de resistência (o que varia na razão directa do nível de imbecilidade veiculada pelo absurdo narrado), então altera-se o passado em conformidade e, por conseguinte, a premissa inflecte imbecilmente: “é assim porque sempre foi assim”.

No que diz respeito a Língua e a ortografia, em particular, este mecanismo eminentemente político — ou seja, de condicionamento mental das massas, vulgo, chicote mental  — implica, como é evidente, técnicas de apagamento da memória utilizando mecanismos com efeitos retroactivos.

Em “1984“, obra publicada em 1949, vemos legiões de funcionários — do Ministério da Verdade, nem de propósito — alterando laboriosamente, dia após dia, 24 sobre 24 horas, todos os documentos, as edições de livros, jornais e revistas, as placas toponímicas e letreiros, as gravações, registos ou inscrições em qualquer suporte. O trabalho daqueles funcionários consiste em quatro directivas simples, claras, objectivas e consequentes entre si:

  1. Todos os factos actualmente determinados como correctos pelo Partido sempre foram estes, jamais se verificaram outros e nunca estes factos se passaram de outra forma que não desta forma.
  2. O que vale para os factos vale para as pessoas, que não passam de factos com pernas, apenas existem enquanto fizerem parte da narrativa oficial: se alguma dessas pessoas cair em desgraça ou por algum motivo deixar de interessar ao Partido, isto é, à “verdade” única, universal e eterna, então essa pessoa será eliminada (“vaporizada”, literalmente, é o termo técnico) sem deixar qualquer vestígio, desaparece o seu nome, nunca existiu, foi uma “não-pessoa” da qual muito em breve ninguém conservará a mais vaga recordação.
  3. E o que vale para factos e para pessoas vale também para a linguagem, para as próprias palavras: a língua antiga deve ser integral e radicalmente substituída pela Novilíngua,  vaporizando-se aquela por grosso e qualquer vestígio dela por atacado.
  4. As três directivas anteriores não existem, nunca existiram e quem disser o contrário também nunca existiu.

Está aqui implícita uma mais do que óbvia analogia, quanto ao que nos interessa em especial:

  • O Partido é o AO90, ou seja, a amálgama de interesses económicos e políticos em que se consubstancia tão horripilante maquinação.
  • Os funcionários do Ministério da Verdade são os mercenários pagos para substituir a língua antiga pela Novilíngua (enfim, o AO90 é mais uma espécie de salgalhada ininteligível).
  • A finalidade prática dos trabalhos de revisão sistemática do passado e de reescrita da História é que a língua antiga seja esquecida.
  • A finalidade política, o objectivo do Partido, é que a Novilíngua substitua a antiga e assim qualquer pensamento herético será literalmente impossível, até ao limite em que o pensamento depende das palavras. Quando esta for substituída de uma vez por todas, o último vínculo com o passado será eliminado.

Ora, o Partido já procedeu à liquidação sumária da diferenciação entre as duas variantes do Português (em teclados, sistemas operativos e programas de computador, nas plataformas e redes virtuais), o Partido já levou à quase extinção a bandeira portuguesa (e respectivos “interfaces”) nos mais diversos “sites” internacionais, incluindo os institucionais, o Partidotornou obrigatório nos organismos do Estado algo que absolutamente nada tem a ver com o Estado.

Disto já todos sabemos, isto já todos vamos vendo quotidianamente.

Mas aquilo de que ainda muito pouco ou nada se fala (porque será?) é o sinistro processo em curso de revisão do passado. O Partido necessita de “corrigi-lo” para que ele encaixe definitivamente (“porque sempre foi assim”) na tal narrativa oficial que para o dito Partido é a única aceitável — e portanto jamais poderá ter existido qualquer outra.

Só assim se “compreende”, por conseguinte, a campanha de revisão e “correcção” da História  que agentes e mercenários acordistas têm levado sistematicamente a cabo.

Pois que outro motivo pode explicar que as legendagens de filmes antigos, a começar pelos grandes clássicos do Cinema, estejam a ser acordizadas em série? Porque é que, por exemplo, e citando apenas um caso de memória, o filme “Morte no Nilo”, com Peter Ustinov como protagonista, aparece agora com legendas em pseudo-brasileiro?

Na própria RTP Memória, um canal do chamado serviço público de televisão, todas as séries estrangeiras (O Santo, Os Vingadores, Uma Casa na Pradaria, Bonanza, Missão Impossível, etc.) têm já legendas traduzidas (“corrigidas”) para acordês.

Segundo a mesma lógica de acordização com efeitos retroactivos, não é por mero acaso que todas as colecções de clássicos da Literatura têm sido reeditadas a um ritmo frenético e sem precedentes, a eito e à pressa.

Tão à pressa, aliás, que os funcionários até deixam escapar inúmeras palavras intactas, à mistura com outras já estropiadas “segundo” o AO90, no mesmo livro, jornal ou legenda de filme, por vezes na mesma página, entrada, parágrafo ou até na mesma frase.

fotografia de Rui Valente

Escusado será dizer que todos os filmes, séries e documentários, desde a década de 30 do século passado e até há poucos anos, estavam traduzidos/legendados em Português legítimo e essas traduções e legendagens estavam evidentemente já pagas, Então para que diabo fazem acordistas estas “revisões” à pressão? Por que outro motivo poderia esta demolição em série acontecer se não fosse mesmo para “corrigir” o passado?

E não se ralam nem um bocadinho, esses acordistas do camartelo, com os direitos de autor das traduções! Como não se ralam nada as entidades envolvidas, algumas delas do Estado, com os custos acrescidos destas novas “traduções” para acordês, à custa do contribuinte, de trabalhos que já estavam feitos há décadas!

E a quanto montam, ao certo, estas empreitadas de re-legendagem, de recomposição tipográfica a martelo? E quem paga tudo isso?

Bom, claro, mas que raio de perguntas redundantes! Não há dinheiro para nada, em Portugal, mas para estas empreitadas de “correção” há dinheiro a rodos e, pior ainda, ninguém sabe ao certo quanto está a ser gasto nem quem está a delapidar o erário público. É fartar, vilanagem.

Bem sei que a alguns estas verdades não convém sejam vistas, a outros não agrada ver ou recusam-se a ver e bem sei também que à esmagadora maioria tanto se lhes dá, é-lhes de todo indiferente ver ou não ver que a Língua Portuguesa está a ser exterminada de trás para a frente e  da frente para trás, qual trituradora acoplada a uma máquina de viajar no tempo.

De certa forma, àqueles que não querem ver e que, portanto, fingem ignorar, sucede um fenómeno de defesa natural, um simples reflexo, é como quem fecha os olhos quando há uma explosão muito forte e demasiado próxima, é como desviar o olhar perante uma cena de puro horror,  é como recusar-se o nosso cérebro a crer naquilo que os olhos vêem.

Pois é precisamente nestes últimos que podemos ainda depositar as derradeiras esperanças de que o processo de demolição em curso seja parado.

Ainda não é tarde demais, ao contrário daquilo que nos querem fazer crer.

Nunca é demasiado tarde para abrir os olhos. Ou, não os tendo cerrados, usá-los para aquilo que eles servem.

 

“Uma grande civilização não pode ser conquistada por fora antes de
se destruir por dentro”

Will Durant

 

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