Dia: 10 de Dezembro, 2017

Pèidéluó, Pútáoyá (2)

(continuação)

As generalizações são, por definição, terreno perigoso: podemos incorrer no pecado da soberba e cair na tentação de trocar o arquétipo pelo estereótipo ou de promover algo que ocorre regra geral a fenómeno obedecendo a uma pretensa lei universal.

Existem, contudo, traços distintivos geralmente (e pacificamente) aceites como características típicas: por exemplo, os destros distinguem-se dos canhotos porque todos estes são canhotos, nem de propósito; mas tal característica — individual e colectiva — não deve nem pode ser confundida com uma qualquer imagem estereotipada e caricatural.

Como aquela que, também por exemplo, brasileiros traçam do “português”: chama-se invariavelmente Manoel, é padeiro, está casado com uma tal Maria, senhora que jamais apara seu farfalhudo bigode e que passa o tempo todo a dançar com “Seu Manoel” o “Vira”.

Não sei se haverá alguma amostra de achincalhamento deste tipo — verdadeiramente racista — em sentido contrário, ou seja, presumo que não exista uma única gravação de portugueses aos saltos a guinchar insultos contra o povo brasileiro.

Não, ora cá está uma característica geral dos portugueses, nós gostamos mais de gozar connosco mesmos. Por vezes até gozamos com aquilo em que nos achamos os melhores do mundo e arredores: “o português tem muito jeito para as línguas”, dizem muitos com orgulho, do que se riem alguns outros com gosto.

Trata-se de outra forma de generalização abusiva, se bem que não incrivelmente estúpida, como aquela dos “Mamonas Assassinas” (raio de nome), mas ainda assim houve logo alguém que se lembrou de virar a gabarolice do avesso: o humorista Herman José, português de ascendência alemã, criou um excelente “boneco”, Lauro Dérmio de sua graça, para caricaturar o português sem jeito nenhum para falar “estrangeiro”.

Trata-se de um realizador de cinema cujo “jeito” para a Língua inglesa deixa um bocadinho a desejar. Sem mais demoras, letes luque éta treila.

Temos, portanto, por um lado a “falta de jeito” (Lauro, Sócrates, Mourinho, Soares) e por outro lado temos, além dos casos pontuais de inépcia individual na pronúncia, a própria incapacidade fisiológica dos falantes na articulação de certas sonoridades “alienígenas”, como nos já citados casos de chineses e anglófonos com os “érres” e de portugueses quanto à pronúncia do inglês “TH”.

Ora, se podemos delinear nesta matéria traços distintivos, de forma geral, genérica e prototípica quanto a chineses, americanos, ingleses e lusitanos, então porque não tentarmos ao menos espreitar o caso brasileiro? Haverá algum traço comum, deste mesmo ponto de vista, que se possa designar como “tipicamente brasileiro”?

Bem, talvez seja de pesquisar um pouco. Vejamos se os brasileiros dizem sobre isto alguma coisa de si mesmos.

Alguns trabalhos já foram realizados sobre o assunto e verificaram que, em grande parte do território nacional, predomina a variante vocalizada dessa consoante, ou seja, o /l/ em final de sílaba transforma-se em uma semivogal [w], formando, muitas vezes, um ditongo com a vogal do núcleo da sílaba. Sendo assim, palavras como mal e mau (ou vil e viu) confundem-se numa mesma pronúncia: mau e viu. Podemos, portanto, afirmar que ocorre um processo de neutralização entre esses dois fonemas quando esses ocorrem em final de sílaba.

Como podemos observar, há duas principais realizações do fonema na posição de coda. Uma que se denomina de velarizada […], mais próxima da lateral plena [l], e uma variante vocalizada [w].

Dialetalmente falando, a variante velarizada é própria do português de Portugal, ao passo que a variante vocalizada é uma marca bem clara do português falado no Brasil (SÁ, 2006).

A VARIAÇÃO DA LATERAL POSVOCÁLICA /L/ NO PORTUGUÊS DO BRASIL, Antonio José de Pinho

Ah, cá está, já se conseguem vislumbrar as primeiras diferenças e até parece que — desde que as fontes estejam plasmadas numa linguagem hermeticamente académica — afinal o assunto não é tabu e nem mesmo roça a fronteira do politicamente incorrecto.

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Size matters…

Muito haveria a dizer sobre esta (capciosa) entrevista de um jornal (?) brasileiro a uma linguista portuguesa. No fundo, nada de novo, é só mais uma tuga que foi ao Brasil prestar vassalagem ao “gigantismo” daquele “imenso” país “continental” onde, ao que parece, se come menos mal, há uns petiscos jeitosos, e assim.

Destaco, porém, do arrazoado habitual — isto é, do paleio do costume –, um pedaço que sobressai pela sua inusitada… hum… malandrice.

«”Se nós insistimos em dizer que há duas línguas, nós perdemos no panorama mundial, porque no limite iríamos ter um português de Angola, outro de Moçambique etc… O que é mais importante para nós, é dizer que somos uma língua, como dizem os ingleses, os americanos ou os de Singapura, ou dizer que temos não sei quantas linguazinhas?“»

Com que então “linguazinhas”, hem, s’tora? Assim com’assim, s’tora, ele há “linguazinhas” (o Flamengo, por exemplo?, ou o Hebreu, hem?) e portanto, se há “linguazinhas”, isso significa que há “linguazonas”, tipo a brasileira com seu anexo europeu; é isto, em suma, não é, s’tora?

Mas que bem. Bem mal. Temos em Portugal uma linguista para a qual as línguas não são todas Línguas, há umas que são mais línguas do que outras — é consoante o tamanho: se forem grandes são boas línguas, se forem pequenas não servem para nada.

Português brasileiro pode vir a ser um idioma separado?

Cristina Mestre

“Sputnik News” (Brasil), 08.12.17

A Sputnik Brasil falou com a professora catedrática portuguesa Inês Duarte, do Departamento de Linguística Geral e Românica da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, para saber se realmente há uma possibilidade de separação linguística entre Portugal e o Brasil.

Não é segredo que no Brasil já começaram a se ouvir vozes de que o português brasileiro se distinguiu demasiadamente do português europeu. A linguista Duarte acusa o purismo na linguística brasileira que depois foi substituído por modernismo radical:

“O século XIX no Brasil, sobretudo os últimos 50 anos do século XIX, é um tempo em que aparece um purismo em relação à língua. Há intelectuais brasileiros a pedirem que os brasileiros falem a língua de Camões. Quando digo a língua de Camões não é metaforicamente, é literalmente, isto é, que vão aos textos do século XVI, falar como supostamente aqueles escritores falavam, o que é completamente idiota.”

Para Inês Duarte, uma das consequências desse purismo é a atitude que os modernistas brasileiros têm em relação ao idioma apostando na distinção como se fossem idiomas diferentes.

“O que acontece é que o modernismo insiste na especificidade do brasileiro. Curiosamente, o que nós temos depois, nos anos 70 e 80, são linguistas que, ao contrário dos antigos gramáticos (o Brasil teve gramáticos surpreendentes, melhores que os portugueses, durante o século XX, há um espetacular, Manuel Said Ali). O que acontece é que a nova geração de linguistas brasileiros dos anos 70 e 80 entram nessa onda do modernismo, eu penso que em alguns casos não como afirmação da cultura brasileira, é mais por desconhecimento do que era o português falado em Portugal”, afirma.

Porém, agora a situação tenta se moderar e linguistas brasileiros já entendem que as duas variedades do idioma português não são tão diferentes no fim das contas, acredita a professora. Isto já cria condições para uma cooperação maior entre Portugal e o Brasil na área linguística.

“Agora decidir que as duas variedades são línguas diferentes tem mais a ver com questões políticas e econômicas do que com questões linguísticas”, disse.

Porém, este cenário é ruim para a linguista portuguesa:

“Se nós insistimos em dizer que há duas línguas, nós perdemos no panorama mundial, porque no limite iríamos ter um português de Angola, outro de Moçambique etc… O que é mais importante para nós, é dizer que somos uma língua, como dizem os ingleses, os americanos ou os de Singapura, ou dizer que temos não sei quantas linguazinhas?”

E os outros?

Obviamente, a situação entre português brasileiro e português europeu não é a única. Há outros exemplos de diferenças até mais explícitas que não resultam em separação linguística por razões políticas e econômicas, explica a professora Duarte.

“Se nós olharmos para o que se passa nas línguas dos antigos impérios coloniais, o inglês, o espanhol, o francês, aquilo que nós verificamos é que, por exemplo, as diferenças entre o francês falado na França ou no Canadá são gigantescas, mas ninguém diz que o francês do Canadá não é francês. As diferenças entre o espanhol falado na Península Ibérica ou em São Domingos [capital da República Dominicana] são gigantescas, mas ninguém diz que há dois espanhóis.”

[Transcrição integral de artigo, da autoria da brasileira Cristina Mestre, publicado por “Sputnik News” (Brasil), 08.12.17. Imagem de topo copiada de: YouTube]

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