Pèidéluó, Pútáoyá (2)

(continuação)

As generalizações são, por definição, terreno perigoso: podemos incorrer no pecado da soberba e cair na tentação de trocar o arquétipo pelo estereótipo ou de promover algo que ocorre regra geral a fenómeno obedecendo a uma pretensa lei universal.

Existem, contudo, traços distintivos geralmente (e pacificamente) aceites como características típicas: por exemplo, os destros distinguem-se dos canhotos porque todos estes são canhotos, nem de propósito; mas tal característica — individual e colectiva — não deve nem pode ser confundida com uma qualquer imagem estereotipada e caricatural.

Como aquela que, também por exemplo, brasileiros traçam do “português”: chama-se invariavelmente Manoel, é padeiro, está casado com uma tal Maria, senhora que jamais apara seu farfalhudo bigode e que passa o tempo todo a dançar com “Seu Manoel” o “Vira”.

Não sei se haverá alguma amostra de achincalhamento deste tipo — verdadeiramente racista — em sentido contrário, ou seja, presumo que não exista uma única gravação de portugueses aos saltos a guinchar insultos contra o povo brasileiro.

Não, ora cá está uma característica geral dos portugueses, nós gostamos mais de gozar connosco mesmos. Por vezes até gozamos com aquilo em que nos achamos os melhores do mundo e arredores: “o português tem muito jeito para as línguas”, dizem muitos com orgulho, do que se riem alguns outros com gosto.

Trata-se de outra forma de generalização abusiva, se bem que não incrivelmente estúpida, como aquela dos “Mamonas Assassinas” (raio de nome), mas ainda assim houve logo alguém que se lembrou de virar a gabarolice do avesso: o humorista Herman José, português de ascendência alemã, criou um excelente “boneco”, Lauro Dérmio de sua graça, para caricaturar o português sem jeito nenhum para falar “estrangeiro”.

Trata-se de um realizador de cinema cujo “jeito” para a Língua inglesa deixa um bocadinho a desejar. Sem mais demoras, letes luque éta treila.

Temos, portanto, por um lado a “falta de jeito” (Lauro, Sócrates, Mourinho, Soares) e por outro lado temos, além dos casos pontuais de inépcia individual na pronúncia, a própria incapacidade fisiológica dos falantes na articulação de certas sonoridades “alienígenas”, como nos já citados casos de chineses e anglófonos com os “érres” e de portugueses quanto à pronúncia do inglês “TH”.

Ora, se podemos delinear nesta matéria traços distintivos, de forma geral, genérica e prototípica quanto a chineses, americanos, ingleses e lusitanos, então porque não tentarmos ao menos espreitar o caso brasileiro? Haverá algum traço comum, deste mesmo ponto de vista, que se possa designar como “tipicamente brasileiro”?

Bem, talvez seja de pesquisar um pouco. Vejamos se os brasileiros dizem sobre isto alguma coisa de si mesmos.

Alguns trabalhos já foram realizados sobre o assunto e verificaram que, em grande parte do território nacional, predomina a variante vocalizada dessa consoante, ou seja, o /l/ em final de sílaba transforma-se em uma semivogal [w], formando, muitas vezes, um ditongo com a vogal do núcleo da sílaba. Sendo assim, palavras como mal e mau (ou vil e viu) confundem-se numa mesma pronúncia: mau e viu. Podemos, portanto, afirmar que ocorre um processo de neutralização entre esses dois fonemas quando esses ocorrem em final de sílaba.

Como podemos observar, há duas principais realizações do fonema na posição de coda. Uma que se denomina de velarizada […], mais próxima da lateral plena [l], e uma variante vocalizada [w].

Dialetalmente falando, a variante velarizada é própria do português de Portugal, ao passo que a variante vocalizada é uma marca bem clara do português falado no Brasil (SÁ, 2006).

A VARIAÇÃO DA LATERAL POSVOCÁLICA /L/ NO PORTUGUÊS DO BRASIL, Antonio José de Pinho

Ah, cá está, já se conseguem vislumbrar as primeiras diferenças e até parece que — desde que as fontes estejam plasmadas numa linguagem hermeticamente académica — afinal o assunto não é tabu e nem mesmo roça a fronteira do politicamente incorrecto.

Mas há mais, muito mais. Citemos, porém, apenas um outro trecho de fonte diversa, para não maçar muito as pessoas. O que se diz na vulgaríssima Wikipédia “Lusôfona”, ou seja, brasileira?

Na maioria das regiões do Brasil, [ʀ] (o som do dígrafo RR) é enfraquecido a [χ] ou [h], e o som representado pela letra R em fim de sílaba (qualquer que seja esse som no dialeto em questão), quando está no fim de verbos, costuma ser suprimido em contextos não formais. Assim, matar e correr são normalmente pronunciados como [maˈta] e [koˈhe].

Paralelamente, o som /l/ em fim de sílaba é pronunciado como [u̯] em quase todos os dialetos do país. Esses fenômenos, combinados com o fato de que /n/ e /m/ não ocorrem em fim de sílaba em português (sendo substituídos pela nasalização da vogal anterior), fazem com que o PB tenha uma fonologia que favorece fortemente sílabas abertas. Na quase totalidade do Brasil, a letra ‘r’ possui fonologia de [h], como exemplo a palavra “porta” fica pronunciada [‘pohta].

Em contraste, o PE pronuncia o A átono principalmente como [ɐ], elide (não pronuncia) algumas vogais átonas ou as reduz a uma vogal [ɨ] (um som que não existe no português do Brasil). Por exemplo, a palavra setembro é [seˈtẽbɾu]/[sɛˈtẽbɾʊ] no Brasil mas [s(ɨ)ˈtẽbɾu] em Portugal.

Uma das tendências mais notáveis do PB moderno é a palatalização de /d/ e /t/ na maioria das regiões; esses sons são pronunciados como [dʒ] e [tʃ] (ou [dᶾ] e [tᶴ]), respectivamente, antes de /i/. A palavra presidente, por exemplo, se fala [pɾeziˈdẽtᶴi] nas regiões brasileiras em que esse fenômeno ocorre, mas [pɾɨziˈdẽt(ɨ)] em Portugal.

“Português brasileiro”, Wikipédia

Este caso é o mais interessante, creio: “um som que não existe no português do Brasil“.  Repita-se: “não existe”!

Não existe e não é “só” o “A átono”, é também (ou é principalmente) o “E” átono que não existe, que é impronunciável, inarticulável para o “brasileiro típico”. Isto pode até dar para um exercício interessante (e algo cómico): quem quiser peça a um natural do Brasil que tente pronunciar algumas singelas palavras como, por exemplo, “pente”, “depende”, “independentemente” e  “reagente”.

Escusado será dizer que todos os E daquelas palavrinhas (ou de quaisquer outras em que ocorra o mesmo som “átono”) soarão, quando proferidas por um natural do Brasil — mesmo que esteja em Portugal há vários anos — de forma completamente diferente (“difêrêntchi”); algo como pêntchi, indêpêndêntchimêntchi (ou indépêndêntémêntchi), rêágêntchi.

Bom, certo, e então? O que é que isto prova, se é que prova alguma coisa?

Prova não alguma coisa mas sim muita coisa. Prova, em primeiro lugar, que um dos principais fundamentos do AO90 não passa de uma mentira descarada.

Mas para demonstrar esse óbvio ululante temos de atender a um pressuposto básico. Cá vai a terceira (e última, prometo) citação de um naco de prosa em academês. De fonte portuguesa, para variar.

7.1 – Adopção de uma perspectiva profissional, não judicativa e não valorativa, perante o fenómeno da variação linguística, nomeadamente em contexto de ensino-aprendizagem da língua materna, sabendo fomentar em futuros estudantes a consciência dessa variação e das implicações sociais da mesma;
7.2 – Clara distinção entre a realização fónica e a representação gráfica da língua;
7.3 – Clara distinção entre as representações lexicais teóricas e as correspondentes realizações fonéticas;
7.4 – Adopção de uma atitude de abertura crítica perante a co-existência de quadros teóricos alternativos, traduzida num esforço de compreensão dos argumentos emanados das diferentes interpretações disponíveis e do seu confronto com os dados linguísticos e com argumentações alternativas;

Como sabemos, aquando da penosa gestação do AO90 nenhum destes pressupostos básicos quanto à variação linguística foi “interiorizado” por qualquer dos futuros parturientes. Pelo contrário, fizeram tábua-rasa não apenas dos pressupostos como também de quaisquer  princípios linguísticos, científicos e até éticos.

Pois não se resume o dito “acordo” a uma única e sumamente estúpida “norma”, a de que “se se pronuncia escreve-se, o que não se pronuncia não se escreve“?

Portanto, deixam de existir claras distinções entre realização fónica e representação gráfica, passa a não haver a mais ínfima distinção entre representações lexicais teóricas e as correspondentes realizações fonéticas.

Do que resulta a (inacreditável) “regra” imposta pelo AO90: “simplificar” ao máximo para se  “escrever como se fala tanto quanto possível”.

Ora, verificando-se que o “brasileiro típico” possui um aparelho fonador com características e limitações (tipicamente) próprias, então não terá sido certamente por mera coincidência que a ortografia “adotada” seja — literalmente, na íntegra — a brasileira.

O que significa, trocando isto em miúdos, que meia dúzia de indivíduos não autorizados e jamais mandatados para o efeito decidiram, a 12 de Outubro de 1990, que em Portugal (e PALOP) se passaria a escrever como se fala… no Brasil!

Disto mesmo, deste tão bizarro quanto horripilante fenómeno, já nos vamos podendo aperceber quotidianamente. Esta espécie de neo-colonialismo linguístico, esta contaminação transatlântica  é não apenas visível (ou seja, legível) como também audível: já há por aí imensa gente que pronuncia claramente aberrações sonoras tais como “contatos, contatar”, “adução, adutei” e até “fatos” e “fatualmente”.

O que está em causa não é “só” a ortografia, é bem mais do que “só” a ortografia.

E não sou só eu quem o diz.

 

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