Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Dia: 8 de Fevereiro, 2018

“Pimbolim é matraquilhos”

Se a estupidez pagasse impostos, Portugal teria superavit suficiente para que todos os portugueses possuíssem a sua própria mansão de 1500 metros quadrados (com piscina, sauna, ginásio e campo de ténis), dois Ferrari F40 por família e um avião a jacto privativo..

Português ou inglês?

Jorge Fonseca de Almeida
07 de Fevereiro de 2018 às 10:00

Os preços dos livros estão a matar o português. Hoje é mais barato comprar em Portugal um livro escrito em inglês do que esse mesmo título traduzido para a nossa língua.

Ontem, ao procurar na Fnac o último romance do escritor negro norte-americano Colson Whitehead, vencedor do Prémio Pulitzer de 2017, “A Estrada Subterrânea”, dei-me conta de que se comprasse a edição em inglês da editora britânica Fleet pagaria 10,25 euros mas se optasse pela tradução portuguesa lançada pela Penguin Random House desembolsaria 19,90 euros, isto é, praticamente o dobro!

Naturalmente, escolhi o livro que além de ser o original era mais barato.

Curiosamente, no dia anterior chegara ao meu conhecimento o fecho, por insolvência, da cadeia de livrarias Bulhosa, que vinha a lutar pela sobrevivência desde o início da década.

Num tempo de internet, em que comprar livros está ao alcance de um simples clique, a política de preços e margens dos editores nacionais parece simplesmente suicida.

Se num primeiro momento a concentração do mercado funcionou como balão de oxigénio para as maiores editoras portuguesas agora o crescimento destas empresas depende exclusivamente da capacidade de atrair mais leitores. Em vez disso, a estratégia seguida é a de extrair o máximo de um mínimo de compradores de livros.

É uma estratégia condenada ao fracasso. Primeiro porque as alternativas mais baratas abundam noutros idiomas, depois porque o inglês é hoje uma língua com um alcance significativo entre os leitores portugueses.

Sou um leitor compulsivo e grande comprador de livros, nado e criado em Portugal sinto-me mais confortável com o português, mas estou prestes a abandonar a compra de livros na nossa língua devido à escandalosa diferença de preços.

Esta política de preços, a par com o facto de na maior parte das disciplinas científicas os clássicos e as novidades não se encontrarem em português, e que já obriga muitos a ter de recorrer ao inglês, pode, a prazo, prejudicar ainda mais o português que tenderá a transformar-se numa língua inútil.

O português de Portugal pode encontrar-se sem serventia na ciência, em que o inglês é já obrigatório, sem uso na leitura profissional, em que a falta de tradução já impele para o livro em inglês, sem utilidade na literatura, porque os preços são proibitivos, remetido apenas para a simples oralidade.

O Brasil salvará o português? Infelizmente, não. Uma política errada de falta de cooperação separou já o português do Brasil do português de Portugal de forma irreversível. Em termos escritos, o português do Brasil é hoje uma língua estranha e estrangeira.Com os seus duzentos milhões de falantes, o português do Brasil sobreviverá, sem que com isso salve o nosso português.

As autoridades deviam reflectir nos incentivos que dão aos portugueses ao nível do domínio e uso da sua língua. Para que não passemos a falar uma língua, de facto, morta.

Source: Português ou inglês? – Jorge Fonseca de Almeida – Jornal de Negócios

[O texto em acordês no original foi corrigido automaticamente para Português-padrão pela solução Firefox contra o AO90.]

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“Arranha-nos a mente” [Francisco Vale, director da editora “Relógio d’Água”]

O responsável pela Relógio d’Água, considerado um dos mais destacados editores nacionais, fala da sua relação com os livros, do sector livreiro e dos desafios que se colocam hoje aos jornalistas.

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Números recentes do sector livreiro mostram que há chancelas que, em Portugal, publicam 20 ou 30 livros por mês. Publica-se demasiado?

Isso é subjectivo. Globalmente, não há leitores para tanta edição. Por dia, em Portugal, e considerando todo o género de títulos, publicam-se 30 livros. É excessivo tendo em conta a capacidade da rede livreira, de exposição, divulgação e número de leitores disponíveis. Mesmo que só se editem dez livros de literatura e ensaios, por dia, já é excessivo. Por outro lado, como as tiragens médias baixaram, também se percebe que se esteja a publicar mais. Além disso, a edição tem particularidades que não se verificam noutros sectores. Por exemplo, quase 80% das nossas exportações são para a União Europeia, mas uma editora não pode exportar para a UE. Podemos fazê-lo para os países de língua oficial portuguesa, mas todos eles atravessam problemas graves. Em Angola há umas quatro livrarias. Na Guiné, existe uma pequena livraria, dentro de um hotel. O Brasil, que tem uma rede livreira grande, atravessa dificuldades e é um país continental, o que impossibilita colocar livros em certos locais. Além disso, há a dificuldade da língua.

Mas as editoras nacionais esperavam que o Acordo Ortográfico abrisse as portas desse mercado.

Essa foi uma das razões invocadas para se avançar com ele. Mas, nem todos os países aderiram, em especial, os maiores países africanos. O que se verifica é que o Brasil aderiu, mas Angola e Moçambique continuam a usar a versão europeia anterior da ortografia. De qualquer modo, mesmo em relação ao Brasil, não se trata de uma simples questão de ortografia, é o léxico e a sintaxe, que são muito diferentes. Um livro de Portugal, para os brasileiros, que inovam muito em termos linguísticos, soa sempre a arcaico. É muito difícil exportar para lá. E quando um livro em português do Brasil aparece em Portugal, escrito por um autor mais idiossincrático, parece mais estranho do que ler em francês ou inglês. Arranha-nos a mente. O Acordo Ortográfico não facilitou o intercâmbio cultural e não teve qualquer papel positivo nas exportações.

[Excerto de entrevista publicada pelo “Jornal de Leiria” em 07.02.18. Ver no original e na íntegra:  Francisco Vale: “Só um editor que não lê se pode dar ao luxo de publicar maus livros”]

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