“Letras que atrapalham”

Deve ser estreia absoluta aqui no Apartado: mais uma transcrição para efeitos de constituição de acervo documental, como todas as outras, mas desta vez “a contrario” — visto que se trata de algo escrito por um acordista (de quem aliás nunca tinha ouvido falar, peço desculpa pela minha gritante ignorância).

O qual acordista, porém, não deixa de ter alguma razão quanto ao aspecto “sulista, elitista e liberal” que arvoram certos “notáveis” anti-acordistas.

Tem neste particular o articulista alguma razão, repito, enquanto vai nadando nas águas revoltas do nacional-pedigree, mas começa imediatamente a afundar-se assim que larga essa tábua e tenta agarrar-se com desespero a outra. A tábua ortográfica, por assim dizer. Nessa é que o homem desatou a engolir “pirolitos”.

 

Como sabe qualquer português que se preze, há por aí uma gente que segue com alegria e pujança a máxima o fado é que induca e o futebol é que instrói. O resto, para esse tipo de aglomerados lenhosos, é treta e só atrapalha.

Então as letras, ui, as letras é que atrapalham, é um horror, as malditas letras emaranham-se umas nas outras, são umas melgas, as letras, não se percebe nada de nada, nadinha!

Aliás, váláver, para que raio precisamos nós de 26 letras, hem? Isso é uma enormidade de letras, bálhamedeus! 26 letras?! Paquê, pá?! Atão a gente não se entendia com metade, pá, hem, hã, hum? Prizemplos.

Asarmasius varões açinalads pá
K da ocidental praia lusa pá
Forem cus porks indalém do Tabopan

Ora virem? Aí terem vcs akela ceninha do zarolho mas com munta menos letras, pá, ya, tásaver, até rima e tudo, ó ali, pá com Tabopan, eich!

Á letras a +, prontes, toca a aparar-zi-as, cambada, num sejem eletristas.. errr… elitr… elit… bem, coiso.

Superioridade cultural ou mero conservadorismo?

José Cabrita Saraiva
Jornal “i”, 28/02/2018

Os erros do acordo ortográfico podem – e devem – ser corrigidos. Mas há quem não deseje nada disso, para poder continuar a zurzir na nova ortografia e a dizer como é horrível, mostrando assim a sua superioridade cultural

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Existe no seio de uma certa elite nacional bem-pensante um consenso alargado contra o acordo ortográfico. A nova norma já não é assim tão nova (remonta a 1990) e, no entanto, continua a encontrar fortes resistências vindas de todos os lados.

Ainda por estes dias o Partido Comunista tentou reabrir a questão no Parlamento e, face à recusa do PS, voltaram a ouvir-se os protestos indignados dos defensores da língua de Camões.

Nas páginas dos jornais multiplicam-se as críticas violentas e tornou-se chique colocar um asterisco no final dos artigos de opinião a informar que o autor escreve “de acordo com a antiga grafia”, como se de um atestado de nobreza se tratasse. Inversamente, julgam os detractores do acordo, só os pacóvios, sem pergaminhos culturais e sem berço, acatam as novas regras.

O acordo é perfeito? Creio que mesmo os seus mais acérrimos defensores não terão problemas em admitir que tem erros, incongruências, omissões que dão azo a situações com o seu quê de absurdo.

Mas a grande questão não é essa. É, em primeiro lugar, se esses erros podem ser corrigidos. E, em segundo lugar, se o acordo tem virtudes. A resposta a qualquer destes pontos é positiva: o acordo tem virtudes e, na sua maioria, os erros podem – e devem – ser corrigidos. Mas há quem não deseje nada disso, para poder continuar a zurzir na nova ortografia e a dizer como é horrível, mostrando assim a sua superioridade cultural (e, porventura, moral). Creio que essa atitude revela, acima de tudo, aversão à mudança (aliás não é por acaso que a suspensão do acordo foi proposta pelo mais conservador dos partidos, o PCP).

Querem continuar a escrever como sempre escreveram? Compreendo perfeitamente. Eu também acho que os pês e os cês mudos dão um certo pedigree e elegância à escrita. Mas quando vejo textos dos tempos em que se escrevia “descripção”, “typographia”, “litterario”, “antiguo” ou “ahí” percebo que há letras que só atrapalham. Não fazem falta nenhuma.

[Transcrição integral de artigo com o título Superioridade cultural ou mero conservadorismo?, da autoria de José Cabrita Saraiva, publicado pelo Jornal “i” em 28/02/2018. Acrescentei dois “links” com respectivas “legendas”. Imagem de topo de: Tabopan – Laminados de Madeira, Lda. As letras em falta no original foram automaticamente repostas pela solução Firefox contra o AO90 através da “extensão” FoxReplace do “browser”.]

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2 Comments

  1. Este José Cabrita Saraiva é filho do José António Saraiva, neto do António José Saraiva e sobrinho do José Hermano Saraiva. Fica demonstrado que o património genético pode, efectiva e infelizmente, deteriorar-se ao longo das gerações.

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