Mês: Março 2018

A EMEL de fato conosco

 

«O ePARK conta já com 240.000 utilizadores, reflexo de um crescimento forte e sustentado. Estamos empenhados em fazer crescer ainda mais as vantagens e as funcionalidades da App para garantir que a experiência de utilização é cada vez mais simples, mas mais eficiente.

De forma contínua, a EMEL tem vindo a introduzir pequenas melhorias e novas soluções que são celebradas pelos utilizadores. A criação do ePARK Empresas ou a possibilidade de pagar apenas o tempo que de fato se consome, são disso bom exemplo.

Vamos por isso lançar em breve uma nova versão da App ePark que mantém – para já – as funcionalidades, imagem e usabilidade do seu ePARK atual, mas que prepara a plataforma para novas evoluções. Esta atualização é essencial para permitir uma evolução focada na segurança e numa – cada vez melhor – experiência de utilização.

Para os utilizadores do sistema Android e do sistema iOS 9.0 (ou superior), bastará atualizar a App e continuar a usar.

Os utilizadores com equipamentos mais antigos (iPhone 4 ou inferior), como resultado da descontinuação do apoio Apple para versões de sistemas operativos anteriores, deixarão de conseguir utilizar a App.

Aproveitando esta mudança, vai ser introduzida uma melhoria no processo de pagamento recorrente com PayPal, que agiliza a utilização da App após carregamento e diminuiu a probabilidade de duplicar a instrução de carregamento. Essa é a forma mais rápida de carregar a conta ePARK e com este ajuste conseguimos acelerar também a utilização da App após o carregamento.

Para qualquer dúvida ou apoio (nomeadamente nas dúvidas relacionadas com equipamentos mais antigos) pode falar conosco através do telefone 211 163 060, selecionando opção 6.

Continuamos a trabalhar para melhorar a sua mobilidade e a da cidade.

EMEL»


Aqui está verdadeira uma pérola ou, melhor dizendo, um colar de pérolas, já que são várias de enfiada. Foi-me enviado por email por um veterano da Causa anti-AO90, a quem agradeço a deferência.

E assim vai Portugal, uma nação em vias de extinção em que, à semelhança do que sucede no Carnaval (que aqui é todos os dias), ninguém leva nada a mal.

Nem que lhe espetem um obelisco no esfíncter o português (dito “médio”) não se apercebe de coisíssima nenhuma.


«Admirável Língua Nova (Parte VI)» [Manuel Matos Monteiro, “Público”]

Admirável Língua Nova (Parte VI)

Manuel Matos Monteiro, “Público”, 09.03.18

Não há revisão possível que limpe a face do Acordo e todos os caçadores dispostos a encontrar a “pronúncia culta” voltaram de mãos vazias. Citando Einstein: “Não se resolve um problema com as ideias que o criaram.”

Procurava explicar numa aula que devemos distinguir “manuscritos” de “dactiloscritos” – os primeiros são escritos à mão; os segundos, à máquina – e logo me lembrei: deixa lá ver como é que os dicionários acordizados acolhem o segundo verbete.

A Infopédia (Porto Editora), um dos dicionários mais consultados, da editora com mais penetração nas escolas, regista o seguinte:

  • dactiloscrito
    dac.ti.los.cri.to
    nome masculino
    original datilografado
    Do grego dáktylos, «dedo» +escrito

O “daCtiloscrito” é, portanto, o original “datilografado”. E que dirá o verbete “datilografado”?

  • datilografado
    da.ti.lo.gra.fa.do
    adjetivo
    escrito à máquina
    Particípio passado de dactilografar

“Datilografado” é, afinal, o particípio passado do verbo “daCtilografar”.

Em se tratando do infinitivo impessoal e do particípio passado do mesmo verbo, ora se preserva ora se mutila a consoante. É isto simplificar a ortografia?! É esta salgalhada um melhor caminho para a aprendizagem da língua portuguesa?!

Continuemos a digressão.

  • tactilidade
    tac.ti.li.da.de
    nome feminino
    1. qualidade do que é táctil
    2. qualidade das substâncias que exercem ação especial no sentido do tato
    De táctil+-i-+-dade

“TaCtilidade” é a qualidade do que é “táCtil”, aquilo que se refere ao sentido do “tato”. O “tato” opera no ecrã “táctil”, muito bem.

Temos…

  • circunspecto
    cir.cuns.pec.to
    adjetivo
    1. que olha em torno de si
    2. prudente; ponderado; acautelado
    Do latim circumspectu-, «idem», particípio passado de circumspicere, «olhar em volta»
  • circunspeto
    adjetivo
    1. que olha em torno de si
    2. prudente; ponderado; acautelado
    Do latim circumspectu-, «idem», particípio passado de circumspicere, «olhar em volta»

… mas apenas uma grafia para:
(mais…)

“Horror e espanto”


Fascinante entrevista de nosso actual Ministro da Cultura, verdadeiro poço de contradições com pernas, salvo seja, pessoa capaz de dizer uma coisa e de imediato o seu contrário, mas sempre sem se rir, com o ar mais sério deste mundo e do outro. Enfim, mais do outro do que deste — daí rir-se a gente por ele, porque de facto tem Sua Excelência sua piada.

Luís Filipe Castro Mendes: “Este Acordo Ortográfico não é perfeito”

(…)

Pode dizer-se que A Misericórdia dos Mercados é onde essa afirmação de vida mais existe?

Esse livro tem que ver com uma revolta com determinado discurso que nos foi imposto e tendia a negar aquilo que é mais humano em nós: a capacidade de transformar e a dignidade de quem trabalha. O livro revolta-se contra uma ordem do mundo que assenta na lógica puramente financeira, daí ser vincadamente de protesto, apesar de igualmente melancólico porque manifesta a desilusão com uma ordem política e económica que parece negar o que há-de mais importante na humanidade.

No prefácio é referido que esta é uma “poesia culta”. Revê-se?

Mesmo que se queira muito ingénua, a poesia tem de ser culta porque está sempre em diálogo. Tem sempre que ver com o que já foi escrito, mesmo que se a queira muito vanguardista e a arrasar todo o passado. Diz-se que esta poesia é culta porque cita muito. É verdade, existe grande vontade de citar e falar para o círculo dos que conhecem o mundo poético. Gostaria que tocasse mais gente, porque há muitos poemas que procuram ir ao coração das pessoas.

A grande alteração está na utilização do Acordo Ortográfico em vigor. Não lhe foi difícil?

Não considero que este Acordo Ortográfico seja perfeito e penso que há coisas susceptíveis de melhoria, mas sendo o que se utiliza oficialmente achei que seria hipócrita não o fazer. Isto sem criticar outras pessoas, até porque não tenho ideias tão fortes sobre ortografia como elas. O acordo não é o melhor possível mas está vigente e segui-o para horror e espanto de muitos amigos. Não porque lhe tenha um grande amor, mas porque para mim a ortografia é uma convenção e não considero que a anterior seja a maior das maravilhas. Tudo se pode aperfeiçoar, é a minha opinião. Enquanto estiver em vigor vou segui-lo e lamento os meus amigos que consideram isto uma traição. Há como que uma luta de religiões em torno do acordo, só que eu não tenho religião. Acredito que esta opção vá ser muito criticada, mas é assim.

(…)

A língua portuguesa falada nesses países entrou nos poemas?

Sim, em Os Dias Inventados tenho um poema em que escrevo “Se eu beijar você na tua boca”. Tem que ver com a diferença do português de Portugal e o do Brasil, e mostra como a linguagem íntima deles faz-se com o “você” e que para nós usar essa palavra num momento de maior arrebatamento de paixão não faz muito sentido.

Tem diálogos poéticos com Bandeira, Caetano, Chico… O brasileiro é assim tão imponente?

Há uma grande unidade da língua apesar dos vários padrões. Quando se vive no Brasil, verifica-se que falamos a mesma língua se não tivermos em conta o nível semântico em certas palavras e a pronúncia.

(…)

[Source: Livro – Luís Filipe Castro Mendes: ″Este Acordo Ortográfico não é perfeito″, “DN”, 10.03.18. Transcrição parcial. “Links” e destaques meus. As letras em falta no original foram automaticamente repostas pela solução Firefox contra o AO90 através da “extensão” FoxReplace do “browser”.]

To P or not to P

Surdos dos olhos, cegos dos ouvidos

Nuno Pacheco
“ípsilon” (suplemento do jornal “Público”), 08.03.18

Chamaram ao livro O Nervo Ótico. Ou seja: a senhora vê com os olhos mas regista o que vê com um “nervo” auditivo.

A escritora argentina María Gaínza (nascida em Buenos Aires, em 1975) estreou-se na novela com uma obra a que deu o nome de El Nervio Óptico. O livro, lançado em 2014, não teve ainda edição no Brasil; mas, se a tivesse, chamar-se-ia O Nervo Óptico. Editado em Portugal, pela D. Quixote, puseram na capa a fotografia de uma sala de museu com uma senhora a olhar para uma parede com quadros e este título em letras garrafais: O Nervo Ótico. Ou seja: a senhora vê com os olhos mas, pelo título, regista o que vê com um “nervo” auditivo. Consulte-se o dicionário Priberam brasileiro, numa edição recente, e o que lá vem é isto: “ótico adj. 1. Relativo ou pertencente ao ouvido. 2. Diz-se do medicamento que se emprega contra doenças do ouvido.” Nenhuma dúvida. E com P? “óptico [ót] adj. 1. Relativo à óptica ou à visão. = OCULAR, VISUAL (…).” [Portugal] Grafia de ótico antes do Acordo Ortográfico de 1990.” Para os brasileiros parece não haver aqui dúvidas quanto à escrita ou quanto à fala. Repare-se que escrevem “óptico” e, à frente, indicam que se deve ler “ót”, “ótico”, não “ópt”, “óptico”. Ora, se bem se lembram, um dos mais fortes argumentos para banir as ditas “consoantes mudas” em Portugal era que não se liam; e “o que não se lê não se escreve.” Verdade? Mentira. O “óptico” brasileiro prova-o de forma categórica: não lêem o P mas escrevem-no. Porque entendem que não se pode ser surdo dos olhos e cego dos ouvidos.

Ou pode? Em Portugal pode. Com o acordo ortográfico (AO), a palavra é a mesma, ouvidos e olhos tudo misturado, numa lamentável miscelânea pós-cubista que nada deve à arte. “Óptico” ou “ótico”? Vai-se aos vocabulários oficiais do acordismo (os do IILP) e lá está: nos vocabulários nacionais de Portugal, Cabo Verde, Timor-Leste e Moçambique (até neste, que nem ratificou o AO), ao inserirmos a palavra “óptica” recebemos por resposta: “A forma óptica não se encontra atestada neste vocabulário”. Mas está no do Brasil; neste e no chamado “vocabulário comum”, que mistura tudo sem critério só para fingir que há unificação na escrita. Há alguma vantagem neste inominável disparate, que ainda por cima foi inventado aqui, para consumo interno e para imposição colonial a terceiros pelas áfricas e orientes? Nenhuma vantagem. Um exemplo: os ingleses pronunciam “no” e “know” da mesma exacta maneira, tal como “night” e “knight”, ou “right” e “wright”. Imaginam alguém a sugerir que tais palavras passem a ser escritas da mesma forma porque têm o mesmíssimo som? Não, loucos desses só existem por cá. O que se passa com “óptico” e “ótico”, ou “acto” e “ato” é similar: lêem-se da mesma maneira mas são palavras diferentes, com raízes diferentes e sentidos diferentes. Custa muito entender coisa tão simples?

Hoje é Dia da Mulher e provavelmente esta crónica devia falar de outras coisas. Mas já que o livro aqui citado (devido ao assassinato do seu título) foi escrito por uma mulher, juntemos-lhe textos recentes de duas escritoras, ambos a propósito. No Expresso de 3 de Março, numa crónica intitulada “Ninguém para o AO (lê-se à vontade do freguês)”, escreveu Ana Cristina Leonardo: “Continuamos a não conseguir distinguir ‘óptica’ (vista) de ‘ótica’ (audição), palavras que se tornaram homónimas em nome da uniformização da língua, mas só em Portugal, já que no Brasil a distinção se mantém e também em nome da uniformização da língua. Confused?” Não, que ideia, é tudo claro como água! No dia anterior, 2 de Março, já Alexandra Lucas Coelho escrevera, no Sapo24, um texto revoltado e notável, intitulado “Este país partido ao meio pela própria língua”. Um pequeno excerto: “Supostamente este acordo era para aproximar os países de língua portuguesa. Mas o que separa os países de língua portuguesa são muitas outras coisas, muitas delas de facto políticas, muitas delas de facto incómodas, muitas delas de facto sistematicamente ignoradas, ou menosprezadas, enquanto um acordo totalmente desnecessário, supostamente a bem da lusofonia, nos mói o juízo há 28 anos.”

Diz-se que água mole em pedra dura… O resto já sabem. Mas não há água, mole ou dura, que lave tais misérias e nos deixe definitivamente em paz. Só mesmo uma enorme vaga, temível como as da Nazaré, será capaz de arredar tanto disparate do nosso quotidiano, deixando a língua viver e respirar como lhe compete. Tardará muito? Talvez não.

Nuno Pacheco

[Transcrição integral. Os “links” a verde foram adicionados por mim. Imagem em baixo copiada de “Clube dos Livros“.]

 

P.A.O.

«Criamos edições de preço acessível sem descurar a qualidade, com regularidade e sem acordo ortográfico.»

Publicado por João Pedro Graça em Sábado, 3 de Março de 2018

Esta (honrada) editora passaria a constar do 71.º “post” mas a série “Em Português” fica-se, pelo menos até ver, no número 70.

Em princípio, a dita série equivaleria a (70X3=) 210 “entradas”, no total. Porém, desde que a lancei, tenho notado um estranhíssimo fenómeno: 28 anos depois da assinatura do AO90 e 8 anos após a entrada em vigor dessa asquerosa mentira de Estado, eis que — de repente — algumas das entidades aqui referidas “decidem” roer a corda. Não é pelo menos um pouco estranho que se tenham “lembrado” de acordizar os seus “sites” ou a respectiva página do Facebook poucos dias depois de terem passado a constar desta lista? Mas que tremenda coincidência!

Fui contando os abates ao efectivo e, evidentemente, retirei as respectivas “entradas”: menos 1, menos 2, menos 3, menos 4…

Mau. E se afinal isto não for mera coincidência? Será que existe mesmo uma espécie de PIDE acordista? Dar-se-á o caso de os frenéticos agentes dessa novel polícia política darem-se à maçada de vir aqui, a este microscópico, insignificante, geralmente ignorado “blog”, para espiolhar quais as empresas, companhias ou entidades financiadas pelo Estado que devem ser reprimidas por andarem a mijar fora do penico malaquenho-becharino?

Podemos tentar rir à conta da bófia, num qualquer “sketch” de televisão, mas a realidade não tem piada alguma porque não é feita em vídeo.

A coisa — isto é, o rasto dos bófias da escrita que andam por aqui a farejar — pode ser detectada através, por exemplo, do contador de acessos e de “pageviews”: quando existem “picos” assinaláveis (muito mais “pageviews” do que acessos), isso significa, por regra, que andou por cá a PIDE (ou assimilados) a abrir páginas em série.

 

Ora bem, então, mesmo que a hipótese seja remota, ainda que na verdade não se verifique esta espécie de teoria da conspiração, não serei eu quem fornecerá pistas aos acordistas, não será por mim que eles terão uma lista exaustiva de nomes e endereços que facilite a sua campanha repressiva.

Fica aqui então apenas uma pequena amostra da imensa resistência — após oito anos de acordização forçada, violenta e com efeitos retroactivos — que perdura em todo o tecido cultural, empresarial, comunicacional e institucional: Em Português.

«Língua de papel» [Eurídice Monteiro, “Expresso das Ilhas” (Cabo Verde)]

Língua de papel

Por Eurídice Monteiro
“Expresso das Ilhas” (Cabo Verde), 6 Março 2018

 

Para a valorização do multilinguismo e da diversidade linguística e cultural dos povos, assistimos à comemoração, a 21 de Fevereiro, do Dia Internacional das Línguas Maternas, por expediente da UNESCO e com o apadrinhamento das Nações Unidas.

 

Não é segredo que, particularmente no mundo moderno ocidental, desde o longínquo século dezasseis e em especial com a intensificação dos processos de globalização cultural, política, financeira e económica em curso, as línguas do poder e do saber científico têm estado relacionadas com a expansão imperial. É por esta razão que, nas emergentes sociedades crioulas, como a nossa, fruto do colonialismo europeu no além-mar e com pouco mais de quinhentos anos de história, a situação linguística caracteriza-se, ainda nos dias da actualidade, pela coexistência hierarquizada entre uma língua europeia oficial e uma língua local (ou várias línguas locais).

É ainda mais profundo esse fosso quando se vislumbra que as línguas coloniais, consideradas – desde a revolução científica de Copérnico, Galileu e Newton – como línguas científicas e veículo do saber moderno, continuam a ser adoptadas como veículo, por excelência, de difusão da literacia. Daí o carácter subalterno que muitas línguas maternas ainda detêm, por as línguas coloniais e o sentido colonial do poder as terem relegado a um estatuto ideológico inferior. Constata-se que um dos fenómenos que tem permitido a perpetuação desta situação de subalternidade das línguas maternas é talvez a inexistência de escrita e a acentuada força da oralidade, fenómenos que são descartados do quadro de legitimação de conhecimento da modernidade ocidental.

Tomando, em parte, estas asserções podemos entender melhor o que tem acontecido com as duas línguas em Cabo Verde. Proliferam-se, hoje, estudos sociais, culturais e linguísticos em torno do crioulo cabo-verdiano ou da língua caboverdiana, destacando-se, pelo menos desde princípios do século vinte ao início do terceiro milénio, a contribuição de uma multiplicidade de renomados estudiosos nacionais e estrangeiros (Adolpho Coelho, António de Paula Brito, Baltasar Lopes da Silva, Dulce Almada Duarte, Armando Napoleão Rodrigues Fernandes, Donaldo Macedo, Deirdre Meintel, António Carreira, Dulce Fanha Pereira, Manuel Veiga, Nicolas Quint, Jürgen Lang, Marlyse Baptista, Itzel Salas Barrena, Adelaide Monteiro, Dominika Swolkien, entre outros mais ou menos conhecidos).

Admite-se que, não obstante as excepções, a língua caboverdiana tem sido confinada ao domínio do privado, tratada como uma língua materna, de comunicação na família, da oralidade, das situações informais de comunicação e, já agora, da comunicação instantânea nas redes sociais; ao passo que a língua portuguesa – que, contrariamente à primeira, é uma língua estandardizada de há séculos – tem sido remetida para o domínio público, sendo a língua oficial e do ensino formal, da escrita, dos meios de comunicação social, das relações internacionais e das demais situações formais de comunicação. Tornou-se uma verdade corriqueira reconhecer que a língua cabo-verdiana é, por excelência, uma língua da oralidade, enquanto a escrita se afigura quase restrita à língua portuguesa.

A distribuição do espaço destinado a cada uma revela a interiorização das dicotomias impostas pelo discurso colonial. Por outras palavras, apesar do uso informal (oral) da língua cabo-verdiana tenha sido sempre indexado, antes e depois da independência, um forte sentido de solidariedade identitária e, em certos contextos, de resistência cultural em Cabo Verde e na diáspora, este uso é menos valorizado ou inclusive indesejado nos contextos públicos, mormente na administração, na educação, na comunicação social e nas relações externas.

Kwame Appiah não ignora a persistência do estatuto oficial das línguas coloniais nos territórios africanos outrora colonizados pelos países europeus, chamando atenção para o facto dessas línguas europeias, portanto estrangeiras, cujo domínio antes havia marcado uma elite colonial, tenham-se transformado em marcas de status nas sociedade ex-colonizadas, preciosas demais para serem abandonadas pela classe que doravante herdou o Estado colonial. Isto é tanto mais sintomático na concepção de MyersScotton, que chega a identificar o que designa por elite closure, ou seja, retrata a estratégia de demarcação do acesso a uma elite, pela via da fluência da eurofonia (língua oficial). Na mesma linha, Étienne Balibar refere que “L’héritage du colonialisme est en réalité une combinaison fluctuante d’extériorisation continuée et d’exclusion intérieure.” Em boa medida, isto ajuda a compreender as disparidades no investimento e na valorização das línguas.

Em Cabo Verde, ao contrário do que aconteceu com muitas línguas em outros contextos de enfrentamento, que foram completamente assimiladas por línguas socialmente dominantes ou deixarem de ter falantes, a língua materna resistiu. Constata-se que, cada vez que uma língua [se] extingue, desaparece com ela a memória cultural do grupo a que pertencia, de maneira que a afirmação das línguas locais, em certa medida, constitui um instrumento fundamental para a valorização dos conhecimentos do povo que a pratica. Posto isso, e se é verdade que a afirmação da língua cabo-verdiana potencializa a revitalização dos saberes catalogados como tradicionais, não é menos verdade que tais saberes deram também grandes impulsos para que a língua cabo-verdiana, para além de ter resistido, reclame um novo estatuto, o de língua oficial, em paridade com a língua portuguesa. Ou seja, o seu reconhecimento nas situações formais de comunicação e o seu desenvolvimento na comunicação escrita, até torná-la, quem sabe talvez um dia, também uma língua de papel, o que ela ainda não é.

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 848 de 28 de Fevereiro de 2018.

[Transcrição integral de: Língua de papel, “Expresso das Ilhas”, 06.03.18. Destaques e “links” meus. Imagem de topo: By TenIslands (Own work) [Public domain], via Wikimedia Commons]