Dia: 3 de Abril, 2018

«Admirável Língua Nova (Parte VII)» [Manuel Matos Monteiro, “Público”]

Admirável Língua Nova (Parte VII)

Manuel Matos Monteiro
“Público”, 02.04.18

Afinal, ainda é preciso ir atrás da pronúncia da moda para saber escrever. Há quem chame a isto “simplificação”. Eu chamo-lhe “pesadelo”.

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Copio abaixo excertos de duas respostas acerca das grafias acordizadas de “ceptro” e “veredicto”. Devo, antes de mais, sublinhar a extrema importância do Ciberdúvidas ao serviço da língua, aliando saber e generosidade. Sublinho ainda o excelente trabalho desenvolvido na área da língua do autor da primeira resposta. Lamento o caminho que seguiram quanto ao Acordo.

Sobre a grafia acordizada de “ceptro”, lemos:

“Voltando ao Ceptro/cetro, esta palavra não está indicada com pronúncia do p em nenhum dos dicionários actuais (mas simplesmente ¦cetro¦), nem existe a variante ceptro no Brasil. Ora o companheiro diz que há comunidades que pronunciam o p. Nesta base, passo a aceitar a necessidade da dupla grafia e deixei, portanto, de lhe fazer objecções.”

Com o Acordo, a ortografia já não mora nos dicionários? É essa a grande novidade? Bastará que uma pessoa reivindique a pronúncia da terra em que mora? De qualquer lugar do globo em que se fale português? E se a terra dessa pessoa não tiver sido abençoada pela “pronúncia culta” nas consoantes mudas e falantes? Ou a “pronúncia culta” é, afinal, uma grande treta? Se há uma “pronúncia culta”, como se justificam tantas duplas grafias?

Na mesma resposta, lemos ainda:

“Como nunca me canso de repetir, na pronúncia não há critérios taxativos de correcto ou incorrecto.”

Como se defende então um Acordo que põe a grafia correcta (a ORTOgrafia) a reboque de algo em que “não há critérios taxativos de correcto ou incorrecto”?

E ainda da mesma resposta:

“Por exemplo, para ovelha, o dicionário da Academia indica restritamente a pronúncia ¦vâ¦, quando Rebelo Gonçalves aceitava como legítimas: ¦vâ¦, ¦vâi¦ e ¦vê¦ …”

Por aqui se vê a dificuldade em fixar pronúncias. Se o espírito acordista da pronúncia porventura ou desventura migrasse para aqui, teríamos – só para duas fontes! – uma grafia e uma tripla grafia.

Noutra resposta, acerca de “veredicto”, é dito:

“No Brasil, a forma veredicto, com c pronunciado, era a recomendada até há pouco tempo, mas a{#c¦}tualmente é mais comum ouvir a forma sem essa consoante, daí a legitimidade de veredito (informação dispensada pelo consultor Luciano Eduardo de Oliveira).”

Como disse?! Teremos, portanto, de ir modificando a ortografia ao sabor de todas as modas e de todas as terras?! “Actualmente é mais comum”, mas “há pouco tempo” não era… e daqui a uns tempos, como será? E noutros lugares da lusofonia? O consultor vai escutando mais de duzentos milhões e enviando para cá as alterações da pronúncia do Brasil (e de qual Brasil?) com que periodicidade? A ortografia navega assim ao grado da corrente… Agora, há uma certa trepidação no sentido de pronunciar… Agora, já não… No limite, será o que cada pessoa vai escutando que irá moldando a ortografia – uma ortografia unipessoal? É isso?!

Não bastava já a trapalhada de termos de distinguir as palavras de dupla grafia por flutuação de pronúncia dentro de Portugal das palavras de dupla grafia por diferença de pronúncia entre Portugal e o Brasil, não bastava já os dicionários e prontuários não se entenderem quanto às palavras que são de dupla grafia (e a qual dos dois grupos pertencem) e quanto às locuções que perderam os hífenes – coitados dos professores e dos encarregados de educação que levarem isto do Acordo a sério e consultarem mais do que uma fonte para saber se há dupla grafia quanto à consoante ou se os hífenes de uma locução – e são tantas! – desapareceram. Não bastava tudo isso – afinal, ainda é preciso ir atrás da pronúncia da moda para saber escrever. Há quem chame a isto “simplificação”. Eu chamo-lhe “pesadelo”.

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