Dia: 14 de Abril, 2018

FAQ AO90 — 1

1. O que é o “acordo ortográfico” de 1990?

Segundo alegam os que o inventaram, seria uma forma de “unificar” a Língua Portuguesa fundindo as duas variantes numa só — uma espécie de “Português universal”. Redonda mentira. O AO90, que ninguém pediu e que não serve para nada, é uma manobra política, com intuitos não apenas políticos mas também economicistas, impingida sob aparente cobertura técnica de “linguistas”, que consiste basicamente em impor a ortografia brasileira a todos os países da CPLP (outra invenção neo-imperialista brasileira).

2. Como surgiu o “acordo ortográfico” de 1990?

Surgiu do nada, sem qualquer necessidade ou justificação: nunca alguém pôs em causa a coexistência — até então pacífica — das duas variantes do Português. O “acordo ortográfico” foi assinado em 1990 mas já tinha havido tentativas de aniquilação da norma-padrão em 1975 e, de forma especialmente descarada, em 1986. Esta segunda versão de ensaio funcionou como chantagem: fingindo os “arquitetos” da fraude ceder em alguma coisa, pela eliminação de uma ou outra imbecilidade mais evidente ou escandalosa desse texto de 1986, criaram as condições para que, quatro anos depois, o AO90 parecesse um “mal menor”.

3. Porque foi feito o “acordo ortográfico” de 1990?

Para impor a “norma ortográfica” brasileira a Portugal e a todos os demais países (ex-colónias portuguesas) de Língua oficial portuguesa que sempre seguiram a norma-padrão.  Esta imposição, de indisfarçável cariz neo-colonialista, foi inventada por motivos políticos com finalidades políticas e para facilitar as ambições brasileiras, servindo-se de uma “justificação” tão absurda quanto estúpida: o Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes e é um país-continente, uma  “potência” mundial (de segunda ordem mas isso não interessa), portanto há que “dar a primazia ao Brasil“.

4. Quem foram os autores morais do “acordo ortográfico” de 1990?

O AO90 é uma invenção cuja autoria moral é geralmente atribuída, entre outros, aos brasileiros Antônio Houaiss e Evanildo Bechara e aos portugueses Malaca Casteleiro e Luís Filipe Lindley Cintra. Estes foram assessorados na elaboração e difusão daquela aberração por mais uns quantos linguistas escolhidos a dedo pelos dois cabecilhas e pelo patronato político (e financeiro) destes. Concebido e posteriormente promovido por académicos (e técnicos) pagos pelo erário público, todo o processo deverá ter tido — embora disto não existam provas materiais, evidentemente, já que tal seria facilmente desmascarável — a inerente supervisão política por parte de agentes dos mandantes.

5. Como, quando, onde e por quem foi feito o “acordo ortográfico” de 1990?

A parte do “como” é um mistério insondável. Ninguém faz a mais pequena ideia de “como” foi esgalhada semelhante porcaria. O poviléu, por regra, não tem nada que meter o bedelho nestas coisas das “grandes esferas” em que gravitam, quais querubins luminosos, uns tipos com asinhas nas costas que sabem o que é que convém às massas ignaras.

Segundo a versão oficial, o AO90 foi elaborado em apenas 6 dias, entre 6 e 12 de Outubro de 1990, na Academia das Ciências de Lisboa, pelos representantes de

  • Angola: Filipe Silvino de Pina Zau
  • Brasil: Antônio Houaiss e Nélida Piñon
  • Cabo Verde: Gabriel Moacyr Rodrigues e Manuel Veiga
  • Guiné-Bissau: António Soares Lopes Júnior e João Wilson Barbosa
  • Moçambique: João Pontífice e Maria Eugénia Cruz
  • Portugal: Américo da Costa Ramalho, Aníbal Pinto de Castro, Fernando Cristóvão, Fernando Roldão Dias Agudo, João Malaca Casteleiro, José Tiago de Oliveira, Luís Filipe Lindley Cintra, Manuel Jacinto Nunes, Maria Helena da Rocha Pereira e Vasconcelos Marques
  • São Tomé e Príncipe: Albertino dos Santos Bragança e João Hermínio Pontífice

Todos os países enviaram dois representantes, Portugal avançou com dez. Esta ridícula e pacóvia discrepância explica-se pela ânsia de fingir que era Portugal quem liderava o processo. Quando, é claro, nada disso, o golpe era brasileiro com a cobertura de mercenários nascidos em Portugal.

6. Quando, onde e por quem foi assinado o “acordo ortográfico” de 1990?

  • Pela República Popular de Angola: José Mateus de Adelino Peixoto, Secretário de Estado da Cultura.
  • Pela República Federativa do Brasil: Carlos Alberto Gomes Chiarelli, Ministro da Educação.
  •  Pela República de Cabo Verde: David Hopffer Almada, Ministro da Informação, Cultura e Desportos.
  • Pela República da Guiné-Bissau: Alexandre Brito Ribeiro Furtado, Secretário de Estado da Cultura.
  • Pela República de Moçambique: Luís Bernardo Honwana, Ministro da Cultura.
  • Pela República Democrática de São Tomé e Príncipe: Lígia Silva Graça do Espírito Santo Costa, Ministra da Educação e Cultura.

Santana Lopes, o mandarete de Cavaco Silva, desdobrou-se na altura em contactos e em viagens ao Brasil para tornar mais “expedito” o processo de extermínio do Português-padrão. O facto de a assinatura do AO90 “em nome de Portugal” ter ocorrido em Lisboa foi uma simples formalidade aborrecida (presumo), dada a conhecida apetência daquele “dandy” e “sportsman” por ambientes e climas mais solarengos do que, como foi o infeliz caso, o de Lisboa a tiritar em Dezembro.

imagem: Free images by pngtree.com

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Inactivismo (2)

«Um fenómeno relativamente recente, surgido com a vulgarização da Internet e em especial desde que foi inventado o conceito de “rede social”, é o das “causas de consumo”. Para haver “causas de consumo”, evidentemente, é necessário que existam “consumidores de causas”. São estes os que se abastecem periodicamente de (mais) uma causa, a qual juntam a outra ou a outras igualmente do seu agrado, por assim dizer, ou usando a nova para substituir uma que já não agrada (isto é raro mas acontece), que passou de moda ou que por algum outro motivo se extinguiu. Há consumidores para toda e qualquer causa, assim como há causas para todos os gostos, há as apetecíveis para espíritos mais combativos, as que encaixam que nem uma luva em perfis mais para o conservador ou no seu oposto diametral, há umas causas mais fofinhas e outras mais rijas e farfalhudas, há as causas cutchi-cutchi e as que têm imenso salero, enfim, isto das causas é uma alegria, uma causa por dia nem sabe o bem que lhe fazia, há por aí causas a granel, meta lá mais uma no bornal (era para rimar com “granel” mas não deu, ora bolas, diz que ele não há cá “bornel”).» [“Uma história (muito) mal contada” VI]

Como já vimos, não custa nada pular de “causa” em “causa”, como um elefante saltitando elegantemente de nenúfar em nenúfar, e ainda menos custa fabricar desculpas em série, como se fossem pipocas a sair quentinhas daquelas máquinas dos arraiais, para fazer montes de absolutamente nada.

No entanto, a preguiça, o laxismo, o fascínio pela bandalheira, o culto da inactividade, tudo isso por junto não se aproxima sequer, em termos de inactivismo “gourmet”, do que, à míngua de melhor designação, poderíamos chamar “ó bálhamedeus, vossemecês não se ralem com isso, carago”. Refiro-me, com tão informal quanto pouco científica expressão, àquele extraordinário pessoal, tuga até à medula, que debita sistematicamente esta sentença lapidar: «façam como eu, não sigam o AO90 e pronto.»

Até se me eriçam os pêlos da língua, caramba! Por vezes, quando tal oiço ou leio, chego a puxar a culatra atrás, isto é, recua-se-me a mão como se de repente ganhasse vida própria, e, em suma, ficamos ambos, eu e a minha mão, prontíssimos para esbofetear alguém: trau!

Tirando os acordistas propriamente ditos, é esta gente do partido NSAP (Não Sigam o AO90 e Pronto) que mais me tira do sério.

Partido esse cujos militantes (e simpatizantes), extremamente imaginativos, possuem um imenso arsenal de três variantes da sua imbecil ideia programática única:

  • Ah, e tal, eu cá vou continuar a escrever como aprendi e pronto.
  • Ah, e tal, eu cá levei muitas réguadas na escola para aprender a escrever, não é agora que vou mudar e pronto.
  • Ah, e tal, eu cá não escrevo segundo as novas regras nem que me obriguem e pronto.

“E pronto”? Aiaiaiaiaiaiaiai. Caraças, só de enumerar estas enormidades já me está a apetecer trocar a chapada na cara pelo o pontapé no cu.

Mas, ó santinhas, ó santinhos, para que raio serve isso, hem? Porventura andará por aí o Malaca, omnipresente e munido de um taco de basebol para castigar os renitentes, pegando na mãozinha das pessoas, uma a uma, e obrigando-as a escrever em acordês? Quem, em seu perfeito juízo, desata de repente a escrever em acordês “só porque sim”?

Claro que todos esses tugas referem-se à sua escrita particular, no Fakebook, nas suas mensagens de email, em listas de compras e em recados para a mulher-a-dias, por exemplo. Experimentem lá “ignorar o AO90” se forem funcionários públicos, nas vossas papeladas, no vosso trabalho. A ver se vosso chefinho, qual bófia da escrita Malaquenha, não vos mete logo um processozinho disciplinar em cima…

E, de resto, nem a profunda estupidez dos NSAP explica o facto de não poderem — nem eles nem ninguém — “ignorar o AO90”, não na escrita mas na leitura; nas legendas dos filmes, nos letreiros e placas toponímicas ou de trânsito, nos livros (bem, essa gente não lê livros), nos jornais (bem, essa gente não lê jornais, o Correio da Manhã ou a A Bola não contam), nas “faturas”, na publicidade, em qualquer página da Internet, na Wikipédia brasileirófona ou seja onde for que tenha uma bandeira brasileira para identificar o interface “português”.

Ignoremos os traidores, os vendidos e os imbecis que fazem objectivamente o jogo do inimigo. Desses não rezará jamais a História e deles não restará qualquer memória.

Os desistentes, os conformados, os indiferentes e os apáticos não são piores do que os inactivistas. Cada qual a seu modo, os índios de todas essas tribos não passam de pequenas armas de destruição maciça com pernas. Em comum têm o facto de não fazerem nem deixarem fazer nada.

Lá dizia o General romano Galba (século III a. C.), horrorizado com o que viu na Lusitânia, cheio de vontade de regressar à sua abençoada Roma natal e ir de imediato a banhos: «Há, na parte mais ocidental da Ibéria, um povo muito estranho: não se governa nem se deixa governar!»

Não se governa nem se deixa governar assim como não faz nem deixa fazer, não luta nem deixa lutar, não quer saber nem deixa que alguém queira (ou que alguém saiba). Quem lhes tira o abençoado remanso da inactividade militante tira-lhes tudo.

É assim o inactivismo, como já vimos e como continuamos a ver, este tuguismo, este nacional porreirismo, a mediocridade. a apatia, a indiferença, o empurrar com a barriga qualquer problema. Ou, como há quase cinco séculos muito certeiramente agoirou  Camões, é esta “a austera, apagada e vil tristeza” (Os Lusíadas, X, 145) em que estamos atolados.

Contrastar o conceito de inactivismo com a imensa, radical, total diferença do seu oposto será talvez um modo eficaz de demonstrar ambos em simultâneo: o verdadeiro activismo (cívico) resume-se a não ceder, não conceder, não desistir e, sobretudo, fazer algo — por pouco que seja — para que ao menos o que se pretende não esmoreça e que se não conceda ao inactivismo um minuto de tréguas, um milímetro de tolerância, um só átomo de crédito.

Porque, no fim de contas, é dos livros, e se não for no fim de contas há-de ser logo que possível, apenas uma de duas coisas pode acontecer.

Para os activistas a vitória, ainda que no fim percam a luta.

Para os inactivistas a derrota, seja qual for o resultado final.

Victory Has A Thousand Fathers But Defeat Is An Orpahn

Imagem de topo: recorte de foto publicada na página Portugato (Facebook)

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