FAQ AO90 — 6



31. Porque não se unem numa iniciativa conjunta todos os grupos anti-AO90?

A tal “união de esforços“, portanto?

Bom, alguns — mas nem todos — dos que enchem a boca com essa história de embalar, na verdade querem é o contrário: dividir, fraccionar, pulverizar. para assim desmoralizar as hostes, neutralizar as acções, abater a militância, fomentar o inactivismo.

Afinal, paradoxalmente, a julgar pelos efeitos práticos dessa velha e relha ladainha, a “união de esforços” fundamenta-se na lapidar máxima “dividir para reinar”.

São por regra os mais pedantes (ou pretensiosos, porque armados em bonzinhos) quem mais apregoa a “união” divisionista, utilizando para o efeito um argumento “imbatível”: é tudo uma “questão de protagonismo” e portanto vá de fazer o oposto diametral das belas palavras que debitam, toca a lançar a confusão engraxando este e insultando aquele, o que é preciso é acicatar rivalidades — mesmo que ou em especial se estas de facto não existirem. Ou seja, projectam esses vaidosos nos outros o seu próprio penacho mental — fenómeno psicológico de transferência que Freud explica em vários textos, ditados com soberana displicência, palitando os dentes.

Estou em crer, porque já ando “nisto” há muito tempo, que nenhum dos arautos da “união de esforços” faz a mais pequena ideia de que afinal está a sabotar aquilo que diz defender, e muito menor ideia faz de que não passa de uma marioneta manipulada por mão invisível — a dos acordistas, nada menos.

Nunca dizem ao que vêm, os arautos da união com os parasitas dos esforços alheios; não têm qualquer proposta ou ideia concreta, limitam-se a despejar o chavão da “união de esforços”, a seco, sem mais. É atirar o barro à parede, a ver se cola…

“Iniciativa conjunta”? Mas que iniciativa? A ILC que já existe desde 2010 ou uma das petições e outras tretas lançadas consecutivamente, a partir de 2012, para desviar as atenções da primeira?

E essa outra “iniciativa” seria “conjunta” com quem? Com a malta dos grupos, grupinhos e grupelhos do Fakebook? Mas quem é aquela gente? O que fizeram esses grupos, que fez essa virtual malta nesta luta e desde quando e como e com que resultados?

E porque não, contrapondo, com nenhuma dessa gente virtual em virtuais seitas mas com toda a gente verdadeira que existe mesmo na vida real?

Lançar uma nova iniciativa conjuntamente com quem andou a recolher assinaturas para a já existente e depois não as entregou, ficou com elas, sonegou, desviou, roubou essas assinaturas?

Ou pensarão que ninguém percebeu a jogada? O que fizeram a essas subscrições que literalmente roubaram, mai-los respectivos dados dos subscritores, sem conhecimento destes?

Enfim, bem sei que é um pouco estranho responder a uma pergunta frequente com várias perguntas que frequentemente coloco a mim mesmo. Mas pronto, faz-se o que se pode. Até para tentar explicar o que não tem uma explicação humanamente aceitável.

Mas isto sou só eu a falar, evidentemente. Estas são as minhas FAQ AO90, não são as FAQ da ILC-AO, este é o meu modesto “blog”, não é o “site” da ILC — da qual aliás me “reformei” em 2015, por motivos de saúde, entre outros, nomeadamente para não ter de continuar a aturar pulhas ainda piores do que os acordistas.


32. Como reverter o processo de “adoção” no ensino?

Pois. Aparentemente para os adultos é fácil, para as crianças nem tanto. Mas não é nada que não se possa fazer com relativa facilidade: as crianças não nascem necessariamente, em massa, estúpidas ou retardadas. A ideia subjacente ao “acordo” é imbecilizá-las o mais depressa e o mais profundamente possível, mas ainda assim não me parece difícil erradicar o vírus acordista das nossas escolas primárias. Os cérebros juvenis possuem plasticidade (ou maleabilidade) mais do que suficiente para se auto-regenerar em menos de um ano (lectivo).

Talvez este processo de reposição da normalidade e estabilidade do código escrito acabe por revelar-se como uma excelente oportunidade para a re-introdução generalizada, nos planos curriculares dos 3 ciclos do ensino obrigatório, de História da Língua, Ortografia e até, porque não, aulas facultativas de caligrafia — uma vertente pedagógica estupidamente abandonada nos anos 70 do século passado (reforma de Veiga Simão, em 1972, se bem me lembro).

Para as editoras de manuais corrigidos, a liquidação do AO90 representaria a duplicação dos chorudos lucros que obtiveram aquando da “adoção”, desde o ano lectivo de 2010/11, já que tudo teria de ser editado, corrigido e publicado novamente.

A eliminação do AO90 no Ensino é uma tarefa prioritária, evidentemente, já que é na identidade em formação de cada uma das nossas crianças que se forma a consciência colectiva da identidade nacional — na qual a ortografia é elemento fundamental e estruturante.


33. Que repercussões teve o AO90 no estrangeiro?

Todo este desastre foi, e será para todo o sempre, uma embaraçosa humilhação, um enxovalho nacional atirado para cima deste país e dos seus oito séculos de História. Os estrangeiros oscilam invariavelmente entre a perplexidade e o espanto quanto confrontados com este caso único, a nível mundial, de colonização cultural às avessas. E como não têm sobre si a pata da máfia acordista luso-brasileira (muito brasileira e pouco lusa), os analistas e cronistas estrangeiros dizem com desarmante simplicidade aquilo que em Portugal ninguém se atreve a verbalizar: o AO90 representa a eliminação sumária do Português-padrão, numa manobra neo-imperialista brasileira coadjuvada, facilitada e promovida por meia dúzia de vendidos portugueses com a cobertura de políticos tecnicamente analfabetos e geneticamente corruptos.

Mas o camartelo acordês teve outro tipo de repercussões a nível mundial, nomeadamente na Internet, a primeira das quais foi a quase extinção da bandeira portuguesa (e respectivos “interfaces”) nos mais diversos “sites” internacionais, incluindo os institucionais. Claro que já seria suficientemente grave a substituição da bandeira portuguesa pela brasileira, passando esta em vez daquela a identificar o interface em “Português”; mas o arrepiante valor simbólico que representa este arrear de uma e o hastear de outra bandeira não se fica por aí: os próprios conteúdos, que anteriormente eram sobre figuras, monumentos, feitos históricos, objectos, invenções, idiossincrasias portuguesas… tudo foi radicalmente (e com efeitos retroactivos, apagando os antecedentes) substituído pelos respectivos equivalentes sambísticos, fedendo a cachaça.

A Wikipédia é o caso mais flagrante, deste sinistro apagamento da História, da identidade e da nacionalidade portuguesas. Mas não é o único: Google, YouTube, Facebook, em todas as plataformas virtuais desapareceu a opção “Português (Portugal)”, assim como foi liquidado em todas as versões recentes dos programas informáticos de uso corrente (como o MS-Office, por exemplo). Não se tratou “apenas” de substituir conteúdos e de “adotar” a cacografia brasileira; nada disso; o próprio léxico e o jargão técnico passaram a ser integralmente brasileiros (usuário, baixar, curtir, deletar), o mesmo sucedendo até com a sintaxe e as construções frásicas — tudo  integralmente brasileiro.

Uma das patranhas associadas ao “acordo” seria a projecção e expansão da língua portuguesa (leia-se, brasileira) no mundo, o que, em concreto, se traduziria na “adoção” do português (leia-se, do brasileiro) como língua de trabalho da ONU. Claro que também essa tremenda mentira rapidamente foi desmentida pela realidade, o que não obstou a que — por mera “coincidência”, claro — o Brasil tenha começado de imediato a exportar, a granel, às carradas,  professores de “português” para as ex-colónias portuguesas.

E tudo isto em paralelo com um outro fenómeno igualmente espantoso (para os ingénuos): agora, já sem qualquer disfarce, há cursos de brasileiro para estrangeiros e dicionários para traduzir de brasileiro para Francês ou Inglês, por exemplo.


34. Que grandes interesses económicos estiveram por detrás do AO90?

Toda a gente aponta o dedo às editoras mas na verdade elas são apenas a ponta do iceberg. Serviram como “culpado” de serviço, funcionando como biombo atrás do qual se esconderam os grandes grupos económicos que financiam as máfias da política.

Cá está, eis outra vez a tal mão invisível. As marionetas, de novo, com essa mão dentro delas — coisa que às próprias marionetas não ocorre porque são ocas — fazendo-as sorrir, esbracejar e abrir e fechar a boca pela qual saem as falas do ventríloquo a quem a mão pertence.

Teorias várias, algumas da conspiração mas outras não, insinuam que anda nisto o omnipresente, obscuro, misterioso avental com seu olho ciclópico que tudo vê, confissões religiosas e obediências diversas de outras tantas Ordens e Lojas, umas secretas, outras apenas discretas, se bem que esteja por apurar, caso exista, a diferença entre uma coisa e a outra coisa. Será de qualquer modo uma coisa deles, que os próprios confirmam quando do polvo gigante designam em Italiano um dos braços como a “nossa coisa”.

Em todo o caso, dando de barato tais teorias, na prática o que vemos é que os interesses económicos (e não só) por detrás daqueles que estão por trás do AO90 fazem efectivamente parte de uma conspiração e que os conspiradores são os mais do que identificados donos disto tudo.


35. O Brasil não poderá roer a corda de novo, como fez em 1955, e denunciar unilateralmente o AO90?

Claro que pode. Seria até excelente se o fizesse em breve. Os brasileiros, à excepção de Bechara y sus muchachos, estão-se bem nas tintas para o AO90; o cambalacho apenas interessa aos “coronéis” que mandam naquele país-continente e às irmandades de políticos de ambos os lados do Atlântico.

Mas a renúncia unilateral do Brasil não desataria o nó: os tugas gostam, além de levar porrada, de ficar a falar (e a escrever) sozinhos. Assim aconteceu com o AO45 (ou chame-se-lhe “convenção” em vez de “acordo”, pouco bule o preciosismo técnico com a vigarice prática), Portugal convencionou com o Brasil determinadas alterações, ambos assinaram, Portugal e as então colónias africanas passaram a cumprir de imediato o acordado entre as duas partes, mas o Brasil não só não cumpriu como rasgou o acordo uma década depois. Mas ainda assim Portugal persistiu em “acordar” consigo mesmo.

São apenas aquelas alterações, todas sobre acentuação e hifenização, acordadas em 1945, as que o Brasil, agora, 45 anos depois, com o AO90, “aceita” — e nisso consistem TODAS as suas “cedências”.


36. Até hoje isso do “acordo ortográfico” tanto se me dava como se me deu, xôtor. Serei anormal, xôtor?

Bem, bem, não exageremos. Anormal não será com certeza. Podemos estudar melhor o seu caso, fazer umas análises, e assim, se calhar um TAC craniano (tiramos uma espécie de radiografia à sua cabeça, compreende?), e depois então veríamos qual a medicação mais adequada.

Pode até não ser nada, mas nunca fiando, não é? De facto, não sendo você analfabeto (e que fosse, nem que não conseguisse assinar de cruz, isso pouco importa), a coisa parece ser pelo menos um pouco esquisita. O AO90 tanto se lhe dava como se lhe deu? Como assim? Não lê jornais, por exemplo? Ah, não, pois, ok. Nesse caso livros é que nem pensar, certo? Pois. Certo. Bom, e carta de condução, tem ou não, ou também não conduz? Ah, de bicicleta e a pé ou em transportes públicos, pronto, está bem, estou a ver. Hummmm. Sim. Bom, mas ainda assim, raios, desculpe lá a franqueza, você nunca notou diferença nenhuma, olhe, por exemplo, nos bilhetes de autocarro ou do Metro, onde antes dizia “transportes colectivos”, com C, agora diz… Hem? Passe social? Ah. Então e facturas? Não me diga que também não paga facturas! Ah, sim, claro, o Banco trata disso tudo automaticamente. Errrr… Computador… Internet… Pois… Não tem paciência para essas modernices… Humpf. Valha-me Deus. Olhe, e um cafezinho, vai ou não vai? Ah, bom, isso vai. Hallo? Alzira? Traga dois cafezinhos, faz o favor. Um é simples e traga um duplo para mim. Errrr… Olhe, ó Alzira. Ainda temos aí Valium? Traga. E Chivas, temos? Traga. Qual meia dose?! Traga a garrafa. Hoje já não atendo mais ninguém.

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